segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um pouco de vinho

Um pouco de vinho...

De Poetha Abilio Machado. 260209.


Estou feliz, minha família reunida em meus sonhos, afastados da guerra que invade e poluem as almas. Tentamos nos esconder, mas esta perseguição é implacável, acho que o mundo está ficando pequeno para nós. O cerco oprime, e o tempo?
O tempo aqui está acabado...
Como caçador fortuito, deixou-se ficar entre nós e nossa natureza, nos acostumamos e ele nos envolveu... E assim absorvemos este contador de minutos, segundos e vida, a tal que agora somos presas fáceis, caça e caçador um só ser.
Os galhos estalam sob o peso dos pés. A água respinga sua nuvem garoenta de sua pequena queda enlaçando o espírito e amenizando seu apregoado calor. Ao coração está decepcionado por batalhas fúteis, inúteis e tolas... As injustiças grudam na tal humanidade de maneira que nem as lágrimas são capazes de fazê-las soltar.
A razão que seria então?
A rolha sacada e o aroma do elixir a vencer o ar, a ampliar os sonhos na saliva e aos olhos jovens de corpos nus a percorrerem a margem da estrada...
Seus ombros desnudos apelando o toque de meus dedos.
E uma ínfima luz a fazer sua face brilhar na escuridão que se transformou nosso quarto de abril.
Você adormecida, a camisola acima da cintura me convida a encostar minha pele na sua, cheia de calor e vontades, verdades de homem na madrugada intumescido e aspirando tua forma em pequenas golfadas de ilusões. Teu cheiro é feminino, adocicado e mágico como a pele de seus lábios a tocarem meu ventre.
O jogo está ao fio da ampulheta do destino, minha mente está tonta, torpe, amuado, meu corpo não sou eu... Pareço embriagado com teu perfume, ou não sou eu quem escreve nestas folhas no escuro às suas costas enquanto meu pé sente seu calor humano pela sola do teu pé esguio conjunto de células, encaixados, meu membro incandescente encostado em tua derme, acompanhando seu dormir, dormir angelical que só as pessoas de bem podem ter.
Como seria a vida eterna?
As dores me trouxeram do meu sono.
Tenho sede... Derramem esta garrafa sobre meus lábios sedentos, ansiosos...
Estou entorpecido e ouço vozes ao longe, algo em mim dói, meu motor do tamanho de minha mão fechada ameaça parar, eu imploro na noite de vento que balança os galhos que vejo de minha janela como uma grande tela da cor do vinho, um cinema de ‘art noi’ só meu.
Madrugada com pétalas brancas a caírem como chuva do céu.
A água impera sua vontade e procura em mim seus caminhos... Li que a dor abre caminhos, então estou com inúmeras estradas prontas para serem descobertas e terei eu de percorrê-las?!
Minha... Sua... Nossa...
Ouço o ranger da madeira cedendo ao calor das chamas que devora suas camadas, o seu grande desespero, o segredo do amor é corroer aos poucos as crostas de vida... Uma vela acesa... A chama bifurcada dançarina sobre o colorido dos olhos teus, uma cama coberta de cetim na cor do vinho, tinto, como o sangue, sangre negro dos reis.
Minha arte envolve minha vida, carente de mais um ato, uma cena em que tudo esteja bem, que você acorde e me abrace. Que você me apanhe na sua mão e me guarde num lugar seguro onde este medo de vida não mais me corrompa e tampouco me persiga... Medo meu... De não saber o que fazer quando o dia amanhecer...
A panela está vazia, o armário só tem espaços, a água escorre em goteiras, e nada existe em minha arteira a não ser velhos sonhos armazenados e sem oferecer uma saída, que buscar nesta penumbra que se encontra meus dias?!
Não consigo mais sorrir nem mesmo de minha miséria no espelho do banheiro, só olhos inchados e tristes me acompanham... Ando a esmo pela noite sobre o chão gelado dos quadrados que fiz...
E meu dormir é um pesadelo de fuga, entrecortado, fugindo de algo que ainda nem vivi... Vida completa de abandono ao caminho do céu e entrega ao inferno de visões do que talvez pudesse ser, ter, possuir... Visões como fantasmas a me tocarem no breu, sussurrando coisas no meu cangote, dizendo de minha vinda, de minha vida e de minha fuga...
Meus troféus estão empoeirados na prateleira, minha fotografia está parada a me olhar, por que me olha deste jeito?!
Pare! Me deixe submergir e dormir, preciso descansar e dormir... Preciso me deixar levar... Nas águas sob o olhar escondido do barqueiro que guia a barca pelos caminhos obscuros da vegetação que me amedronta, mas me alivia... Como pode ser isso?! Os contra pontos... Os amores, as perdas... A saudade e a alegria...
O tudo crescente e o nada esmorecido no soluço da boca que arremessa perdigotos ao ar de teu rosto... Etéreo... Como minha Alma... Que te busca... Que te alcança e que sente...
Morte amiga que me toma aos braços e acalenta repousando em meus lábios o doce aroma do vinho no crânio de meus inimigos.Um brinde aqui! Aqui?! Aqui... Aquiiiiiiii...




Finito.

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