domingo, 24 de maio de 2009

Sandália amarela remendada com prego em Colombo.

Veja a abertura do jornal Metrópole e me diz se você reconhece quem está na capa:
http://www.saojosedospinhaismetropole.com.br/index.php?n=364

Glória

Glória era uma milionária 'de berço' e muito gostosa.
Um dia, Glória descobriu que o seu pai era viado. Descontente da vida, incapaz de aceitar a situação, resolveu se matar.
Mas não podia se matar como qualquer outra criatura, afinal, ela, Glória, era milionária; e ficar se atirando de qualquer viaduto ou ponte, cortando os pulsos ou tomando formicida era coisa de suicida pobre...
Ela queria se matar com classe, de forma diferente, em grande estilo. Mandou aprontar o jatinho da família e só com o piloto se mandou para o céu.
Pretendia se atirar lá de cima.
Durante o vôo, enquanto se preparava para o salto fatal, ela foi indagada pelo piloto a respeito do gesto extremo que ia executar e, chorando, contou a ele o que ocorria:
-- Papai é homosexual. Não consigo conviver com essa vergonha e vou me matar.
Vislumbrando uma possibilidade, já que ele sempre havia cobiçado aquela mulher, o piloto sugeriu que dessem uma trepadinha antes de ela se matar.
Glória concordou, afinal, para quem ia morrer, não custava nada quebrar o galho de um humilde piloto que se declarara tão apaixonado por ela..
E assim foi. Piloto automático no avião e....
'tome-lhe e tome-lhe e tome-lhe vuco-vuco'!!!
Glória gostou tanto que desistiu de se matar.

*Qual é a moral da história?

*** pense....... pense........ pense.... .... Fácil:
GLÓRIA DEU NAS ALTURAS E O PAI , NA TERRA AOS HOMENS, DE BOA VONTADE .

Glória

Glória era uma milionária 'de berço' e muito gostosa.
Um dia, Glória descobriu que o seu pai era viado. Descontente da vida, incapaz de aceitar a situação, resolveu se matar.
Mas não podia se matar como qualquer outra criatura, afinal, ela, Glória, era milionária; e ficar se atirando de qualquer viaduto ou ponte, cortando os pulsos ou tomando formicida era coisa de suicida pobre...
Ela queria se matar com classe, de forma diferente, em grande estilo. Mandou aprontar o jatinho da família e só com o piloto se mandou para o céu.
Pretendia se atirar lá de cima.
Durante o vôo, enquanto se preparava para o salto fatal, ela foi indagada pelo piloto a respeito do gesto extremo que ia executar e, chorando, contou a ele o que ocorria:
-- Papai é homosexual. Não consigo conviver com essa vergonha e vou me matar.
Vislumbrando uma possibilidade, já que ele sempre havia cobiçado aquela mulher, o piloto sugeriu que dessem uma trepadinha antes de ela se matar.
Glória concordou, afinal, para quem ia morrer, não custava nada quebrar o galho de um humilde piloto que se declarara tão apaixonado por ela..
E assim foi. Piloto automático no avião e....
'tome-lhe e tome-lhe e tome-lhe vuco-vuco'!!!
Glória gostou tanto que desistiu de se matar.

*Qual é a moral da história?

*** pense....... pense........ pense.... .... Fácil:
GLÓRIA DEU NAS ALTURAS E O PAI , NA TERRA AOS HOMENS, DE BOA VONTADE .

Lição do ratinho

Essa fábula é fantástica!
Serve para aqueles que se sentem seguros na atual crise mundial.
O que é ruim para alguém é ruim para todos...

Lição do Ratinho.

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que haveria ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa !!
A galinha disse: - Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até o porco e disse: - Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira !
- Desculpe-me Sr. Rato, disse o porco, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranqüilo que o Sr. Será lembrado nas minhas orações.
O rato dirigiu-se à vaca.
E ela lhe disse: - O que ? Uma ratoeira ? Por acaso estou em perigo? Acho que não !
Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira.
Naquela noite ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego.
No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher...
fazendeiro a levou imediatamente ao hospital.
Ela voltou com febre. T
odo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la. Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco. A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral da História: Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco. O problema de um é problema de todos!

PS.: excelente fábula para ser divulgada principalmente em grupos de trabalho! 'Nós aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas ainda não aprendemos a conviver como irmãos'

domingo, 17 de maio de 2009

Se as coisas fossem mães.

SE AS COISAS FOSSEM MÃES
De Poet Ha, Abilio Machado. (oficineiro)
Baseado no texto de Sylvia Orthof.


(Entram várias crianças brincando, algumas de roda e esconde-esconde... Parece ser um quintal, com varal e algumas peças estendidas... Olham ao lado e uma menina está pensativa. Obs.: Cada um tem algo em si que identifica seu apelido ou nome).

CRÂNIO: oh Lili, quê que houve?
LILI: Oi... Crânio, Sonho, Bolão... Meninas?!
MAGALI: Ela brigou com você?
SONHO: Colocou de castigo?
LILI: Não... Não é por isso que estou chateada...
MIRIAN: Então conta né?
BOLÃO: É sim, conta logo que está deixando a gente bolado. Uhm, falou em bolo, me bateu uma fome... Quer um pedaço?!
LILI: Não é nada assim de mal e sim de bem...
MOLECA: O barato dela que ela não sabe ainda o que dar de presente para a mãe dela...
CRÂNIO: Poxa não sabia que era anoversário dela...
BOLÃO: Poxa vai ter docinhos é?
MAGALI: Uhm... Eu adoro festas de anoversário.
LILI: Mas não é de aniversário... É de dia das mães!
TODOS: Dia das mães?!
BOLÃO: E agora o que eu faço? Pensar me dá fome e acabou meu lanchinho...
CRÂNIO: Temos que pensar em grupo e achamos uma solução...
SONHO: Eu tinha esquecido de verdade...
MIRIAM: Também vive dormindo...
MOLECA: A gente podia fazer um cartaz bem grande...
LILI: Feito coração...
CRÂNIO: Tsc... Fizemos isso no ano passado, lembram?
SONHO: Vamos fazer uma vaquinha e levar as mães no teatro?!
CRÂNIO: Seria uma boa idéia, mas não tem nenhuma peça na cidade ainda pronta...
LILI: Mas...
MAGALI: Mas...
MOLECA: Mas...
CRÂNIO: Captei... Uma grande idéia... Uma gostosa idéia...
BOLÃO: Gostosa? Tem bolo já sei... Uhm estou dentro...
CRÂNIO: (começa a pular gritando) Yes, Yes... Pra quem vive no mundo da lua até que você teve uma grande idéia Sonho. Venham...
(formam um circulo onde só se ouvem barulhos).Entenderam?!
(Saem fazendo um pastelão do sim e do não, Bolão sai pensativo, não fala nada, só pensa...).
(Iniciam uma correria para todos os lados, caixas de papelão, cartazes demonstrativos são preparados sob uma música circense: LUA, CÉU, ESTRELAS, SEREIA, PEIXES, BARQUINHOS, CASA, PUDIM, SEMENTES, FADA. BRUXA, VASSOURA, CHALEIRA, MESA, CADEIRAS, MENINO, MENINA, BARCO, MAR, CARRO, JANELA, DOCES, BOLOS, PASTEL DE VENTO, LIVRO DE RECEITAS, TERRA, SEMENTES, BROTOS, ÁRVORES, FLORES, LENÇÓL, VARAL, ROUPAS).
CRÂNIO: Agora está tudo pronto...
LILI: Temos que improvisar o pano do palco...
(Usam o varal estendendo um lençol ou tecido)
MOLECA: Um... Dois...
BOLÃO: Feijão com arroz... já está na hora do almoço?
MIRIAM: Não estraga Bolão...
BOLÃO: Eu estava só brincando...
MOLECA: Agora valendo?! (todos confirmam).
SONHO: Um...
CRÂNIO: Dois...
LILI: Três...
BOLÃO: Atenção mamães do mundo todo...
MIRIAM: Vai já começar... Quem vai começar?!
SONHO: ‘SE A LUA FOSSE MÃE?’
LILI: SERIA MÃE DAS ESTRELAS...
CRÂNIO: O CÉU SERIA ENTÃO SUA CASA...
MOLECA: CASA DAS STRELAS MAIS BELAS!
MAGALI: E SE A SEREIA FOSSE MÃE?
BOLÃO: SERIA MÃE DOS PEIXINHOS...
CRÂNIO: O MAR SERIA UM JARDIM...
MIRIAM: E OS BARCOS SEUS CAMINHOS!
SONHO: E SE A CASA FOSSE MÃE?
MOLECA: SERIA MÃE DAS JANELAS?
LILI: CONVERSARIA COM A LUA...
MAGALI: SOBRE AS CRIANÇAS ESTRELAS.
BOLÃO: FALARIA DE RECEITAS...
CRÂNIO: QUINDINS?
LILI: PASTEL DE VENTO?
MIRIAM: DOCES E BRIGADEIROS...
SONHO: EMPRESTARIA A COZINHA PARA A LUA FAZER
PUDINS OU NUVENS DE ALGODÃO...
BOLÃO: DOCE... ALGODÃO DOCE...
CRÂNIO: SE A TERRA FOSSE MÃE?!
MOLECA: SERIA A MÃE DAS SEMENTES...
LILI: SERIA TAMBÉM MÃE DOS BROTOS E DAS ÁRVORES.
MAGALI: POIS MÃE É TUDO QUE DÁ VIDA E QUE ABRAÇA...
BOLÃO: ACHA GRAÇA...
CRÂNIO: E AMA A GENTE.
SONHO: E PESSOAL? SE A MÃE FOSSE UMA FADA?
MIRIAM: SERIA UMA MÃE BEM LEGAL...
MOLECA: SERIA A MÃE DA ALEGRIA...
MAGALI: EU ACHO QUE TODA MÃE É UM MEIO POUCO FADA...
LILI: NOSSA MÃE... FADA SERIA?
CRÂNIO: E SE UMA BRUXA FOSSE MÃE?
BOLÃO: ENGORDARIA MEUS DEDINHOS PARA FAZER
QUEIJADINHA?
SONHO: QUE NADA SERIA A MÃE DAS VASSOURAS...
MOLECA: DA FAMÍLIA VASSOURADA!
MIRIAM: SE A CHALEIRA FOSSE MÃE?!
MAGALI: SERIA A MÃE DA ÁGUA FERVIDA!
LILI: FARIA MUITO CHIMARRÃO E CHÁ PRÁ GENTE.
CRÂNIO: FARIA MUITOS REMÉDIOS PARA CURAR AS
DOENÇAS DA VIDA.
BOLÃO: E SE A MESA FOSSE MÃE?
SONHO: AS CADEIRAS SENDO FILHAS SENTARIAM
COMPORTADAS.
MOLECA: TERIAM ENTÃO BOAS MANEIRAS...
BOLÃO: E A MESA ESTARIA SEMPRE CHEIA E FARTA... UHM.
MIRIAM: CADA MÃE É DIFERENTE!
SONHO: ANDANDO DE CARRO, BICICLETA, VASSOURA OU
BUZÃO... (Quem estiver na vassoura ri como uma bruxa).
OPS DESCULPEM...
CRÂNIO: TEM MÃE VERDADEIRA E MÃE ADOTIVA,
MÃE POSTIÇA...
LILI: MÃE AVÓ... MÃE TITIA...
MAGALI: COM VÁRIOS NOMES:
SONHO: MARIA, FILÓ OU FRANCISCA.
MOLECA: GERTRUDES, CÉLIA, CRISTIANE OU ALICE.
MIRIAM: FABIANA, MARISTELA, MALVINA OU ISABELLA...
BOLÃO: VIRAM? TODA MÃE É COMO EU DISSE!
CRÂNIO: NOSSA MÃE À S VEZES RALHA
LILI: FICA BRAVA COM NOSSAS ARTES...
MOLECA: ÀS VEZES ATÉ PASSA A VARA! AI UI...
SONHO: MAS FAZ CAFUNÉ, PEGA NO COLO E BEIJA... UHM...
MAGALI: ERRA, ACERTA, ARRUMA A MESA.
BOLÃO: COZINHA, ESCREVE E TRABALHA FORA...
MIRIAM: RI, ESQUECE, LEMBRA E CHORA...
MOLECA: TRAZ REMÉDIO...
BOLÃO: FAZ COMIDA E SOBREMESA...
CRÂNIO: TEM ATÉ PAI QUE É BEM ‘TIPO MÃE’...
TODOS: ESSA MÃE ENTÃO É UMA BELEZA!
(Fazem um asterisco e saem um a um...)
(os dois últimos abrem uma faixa que antes estava enrolada onde se lê)

“SER MÃE É EXERCER A MAIOR DE TODAS AS ARTES...
SER MÃE... TAÍ UMA FILOSOFIA DE VIDA!”
Teatro Oficina de Balsa Nova
Núcleo Casa da Criança
APMI- Balsa Nova- Pr.

(Uma música com o tema mãe se faz ouvir enquanto provavelmente acontecem os aplausos, ela a mãe entra e apanha o Bolão pelas orelhas)...

MÃE: VEJA JÁ AQUI GURIZINHO...
BOLÃO: MAS MÃE...
MÃE: MAS MÃE NADA... OLHA SÓ O QUE FEZ COM MINHA ROUPA QUE ESTAVA PENDURADA E LIMPINHA...
ALGUÉM: MÃE É ASSIM MESMO SÓ MUDA O ENDEREÇO, DE RESTO É TUDINHO IGUAL...





(Este texto foi apresentado no passado pelo grupo Lossa Quebrada e neste corrente ano com o núcleo de crianças da Casa da Criança do projeto da Associação de Proteção à Mulher e à Infância ao qual eu sou oficineiro de teatro, um trabalho que me deixa dignificado e honrado em fazer minha pequena parte).

O datilografista



O datilografista...

De Abilio Machado de Lima Filho falando de todas as suas facetas de Abilio Machado de Lima Filho, de Poet Ha Abilio Machado, de Akiko Poet Ha, de Zeka Netta, de Pouka Lourri, de Bibi Machado, de Rutilla Montfort.

Qual nome me daria?! Como eu me chamaria?! Às vezes me considero um prelúdio idiotizado de mim mesmo, que adentro as horas sentado à frente de um teclado, escrever transforma-se em arte, fazer arte me deixa muito cansado, esgotado de tal forma que começo a vazar entre meus delírios, sonhos que se fundem com a cruel realidade.
Porque a verdadeira arte é um sacrifício?! Porque fazer arte torna-se tão grande e tão assustadora quanto o mundo, é um elefante sobre a cabeça, é carregar toda uma cidade às costas e ainda tal e qual um escravo ser chicoteado, pisoteado e abandonado. Só os que não entendem nada de arte é que se consideram artistas?! Quem é capaz de classificar o que é ou não arte?! ... Porque nas entranhas o ser fazedor de arte sabe reconhecer que a arte é uma dor. Uma dor dilacerante. Algo que divide, rasga, sangra e impulsiona...
Assim busco a cada letra enxergada ser salvo pela palavra, pela frase, pela oração, sujeito, adjetivo, advérbio, artigo, consoante ou vogal... Pelos livros minha viagem começa, eu desapareço pelas páginas amareladas, mofadas pela umidade de tantas lágrimas necessitadas de luz que passearam com dedos finos, longos ou grossos, engordurados... Livros que tão sofridos se expuseram ao externo do peito relatando o que o coração sentia.
Escrever o lenho da posteridade, e eu me acho também sendo lido em meu pensamento, sentado sobre um caixote de banana, de calção de tergal azul petróleo, com duas alças a cruzarem as costas sobre a camiseta surrada por ter passado por vários irmãos e irmãs. Ali cabelo cortado ao estilo estudante quem não lembra?! Ali com a lancheira e a pasta plástica ganhada depois da humilhação na frente de todos os alunos na escola, Ah... Já a chamaram de melhor diretora de colégio, mas ela tinha este algo a mais, chamava os pobres na frente de todos para lhes dizer o quanto miseráveis eram e de quanto precisavam dela para se manterem na escola pública, será que esta diretora se reconhece agora?! Ali sentado na calçada fria e molhada pela recente chuva devorando como quem ambiciona matar a fome ou a sede. Debruçado de olhos e vida sobre a aventura de um menino que podia fugir a outro mundo, longe da dor da pobreza, das precisões, das surras, dos desassossegos...
Sou talvez alguém que escreve perturbações, me alimento de minhas migalhas recebidas ao longo do tempo que caíram da mesa de meus senhores, não feudais mas senhores políticos do planalto central, pequenos pedaços empobrecidos e apodrecidos das minhas próprias personagens, sou talvez um ator que acaba absorvendo lições destas personagens que me surgiram nas madrugadas assustadoras, inebriantes ou totalmente insanas. Que acaba por viver parte destas vidas que se apresentaram...
Escrevo assim porque tenho boca grande demais para conter minhas verdades, em busca de vida, caso contrário eu não me possuiria, não me faria carícias, nem mesmo cantaria à lua, nem embalaria minha prole dizendo cantos a Deus. Afogar-me-ia em minhas lembranças se não as expulsasse de dentro de meu cérebro.
Ao escrever eu renasço, eu me livro de algumas cracas que se alojaram não só ao corpo, mas como também à Alma. Escrever é ressurgir entre as cinzas dos acontecimentos que feriram meus dias e acabaram por me moldar assim, tal e qual. Sinto-me e muito às vezes. O corpo é parte do tudo, meus vacilos levam meus segundos aos olhos que lacrimejam e minhas mãos tremem pela ira que é insurgida, difícil de conter, lágrimas e raiva, o tom da voz e o medo...
Hahahahahahaha...
Fui domesticado com medo, meu lar, minha escola, minha vizinhança, todos os lados me escorraçaram, tentaram me manter lá embaixo e todas as vezes que me sufocam eu luto, é fácil de me ver, vez ou outra minha cabeça se faz levantar com os olhos entremeando na multidão, vez ou outra minha mão levanta pedindo a vez para ir à desforra, pura angustia de quem vive apanhando dos poderes que regem a vida. Vez ou outra minha voz não me obedece e rouca, grave e cheia de defeitos de dicção se fazem ressoar pelos mais variados ambientes. Não é fácil... Não!
Escrever, fazer arte, pintar, poetar. Como também não é fácil, ser homem, marido, cidadão...
Escrevo mais do que falo, quando me sento á frente das teclas meu pequeno conservador de massa cinzenta entra em transe e os poucos dedos que trabalham. Trabalham pra cacete...
Os assuntos vêem...
Falo comigo mesmo, levanto, dou voltas pela saleta, olho minhas pinturas na parede branca e usada, tento ver se a calma me distrai, ou se a ordem é esta ou aquela... O eu de meu eu é eu quando escrevo.
A cada personagem cifro definições, e discuto com eles, manifesto minhas vontades, exijo, sou ali o tudo, sou um submisso às vontades deles, esses loucos fantasmas que nascem de mim e vem insaciáveis aparecendo à minha frente e misturando o eles e o eu e o eu com o eles.
Quando estou a criar um texto, uma história, um conto, uma crônica, uma poesia, fico como uma grávida que embala um alguém que está para nascer, fico ansioso e bravo, que regateia com o destino e que vibra, sai e vai sambar de alegria escutando uma rádio, muitas vezes gospel, para que as orações e hinos aplaquem aqueles insurgidos que vomitam suas revoltas através dos incansáveis dedos que saltam sobre as teclas como a marcarem passo lento e rápido dentro de um quadro de dança contemporânea. Sou eu em sacrifício.
Muita destas longas criações quer ficar só, dispenso a esposa para a casa da sogra, fico nu, faço jarras de suco, e me perco na trama do que me sou, nu e de pele eriçada pelo frio do sul.
No passado eu me perdia sobre taças de vinho demi séc, Martini com azeitonas, uísque e bacardi, achava que precisava destes auxiliares para escrever, como era um idiota. Depois que não mais sorvi o néctar dos enganos ou me levei na fumaça da ilusão, eu nasci livre para me ser, me ter, me conquistar, me conhecer... Depois de livrar-me da prisão em baseado tosco, de marijuana misturada com bosta de vaca e da branca noiva assassina travestida em pó, depois de livrar-me de amarras etílicas eu descobri que as palavras vêem do céu, que são como dádivas divinas a abençoarem a memória, coisas perdidas emergem.
Cada dia é necessária mais força: para se manter na loucura natural que é meus dias; mais coragem em não ir para o lado negro da luz acompanhando Dart Wegan; mais vida a preencher com a vida das filhotas que me servem de exemplo de vida e dedicação; para agüentar as perminiciosas espicaças que são jogadas quando passo de pessoas vestidas de falsidades; para suportar não chutar o pau da barraca ou virar a água do balde e deixar que o mau se crie, pois muitas vezes ele é contido para que não apareça em forma de mais um ser contra o monstro da injustiça, da ignorância, da insensatez e do desleixo do ser humano que luta e reluta todos os dias e que está em mim.
A cada dia que nasce o grito:

___ SÓ POR HOJE, NÃO!



Lágrimas de maio.

LÁGRIMAS DE MAIO...
...TODA MÃE DEVE LER...

Por Poet Ha, Abilio Machado.


As lágrimas afloram aos olhos de mães, nos quatro cantos do planeta, movidas pela atenção, carinhos, uma pequena lembrança, um buquê de flores, um presentinho, o café na cama, um beijo, um sussurro com palavras amáveis, dispensados pelos filhos, pelo esposo ou mesmo pelos amigos. Há neste dia uma renovação, esquecem alguns problemas, desalinhos pessoais e doam-se plenamente aos agrados e à sua homenagem de momento, reavivando momentos já idos a muito ou planejando atividades ou conquistas futuras...
As lágrimas são notadas ao entrarem no vasto salão, a explosão de sentimentos vem em turbilhões, ao mesmo tempo e às vezes até contraditórios o enlace de a pouco... O sim que enroscou num nó apertado, saindo rouco e arrastado... Festa, felicitações, projetos e esperanças... Um semancol. Acordar de repente, ainda meio atordoada... Nesta hora o desejo de ter acertado ganha alturas, não há palavras para expressar esse tumulto... Então como boba só se fazer rir e chorar...
As lágrimas perduram nos olhos de mães, pela dor das dores, pela falta da própria mãe sendo mãe, pelo sonho esperado e desfeito como o vento, momentos que vêem e que vão... A própria identidade de ser mãe declina, pois o seu fruto não mais tem ao colo, no ontem estava lá, presente e num estalar de dedos... Desapareceram na curva depois da festinha com os amigos entremeando cacos e aço retorcido, numa brincadeira idiota de quem corre mais na pista da marginal toda reta e mal iluminada, só festa de rapaziada embriagada... Evaporaram depois da discussão no barzinho dos encontros da sexta-feira, sob a fumaça do revólver caído ao lado daquele corpo que um dia carregou nos braços, fez balanço e passou horas acordada nas noites de febre e desassossego... Essas dores deixaram um vazio, sem pistas, sem rastros a não ser aquele já volto ou até daqui a pouco, ficaram indagações em por quês... Um sofrimento contínuo, sem término, a estrutura familiar foi abalada pelo comportamento que causou tragédia, acontecem revoltas pelo que aconteceu na culpa de quem, dos limites não impostos, do dar sem exigir, da manipulação do jovem-adolescente e da manobra de se tentar comprar uma presença, que apenas saiu e não mais voltará...
As lágrimas podem sobre vir da esperança, de um reencontro, do filho achado, aquele que sumiu, foi roubado, seqüestrado, o amado filho venha como num milagre de incrível prodígio em adentrar pela porta, ao seio do lar e aos seus braços que minguaram de tanto soluçar...
As lágrimas poderiam vir de notícias, na utopia dos tempos, onde crimes de corrupção e de poderosos políticos, funcionários públicos, religiosos e ricaços fossem condenados e ficassem presos e não só aquela mãe que roubou o xampu ou a galinha para comer... Seria isso uma conduta de felicidade? Sabermos todos iguais ante Deus e os homens?!
As lágrimas são diárias, eternas?!
Todos nós, ao lermos ou ouvirmos sobre tipos de violência, de agressões, de comportamentos e crueldades... Ficamos chocados, choramos partilhando o sofrimento, lamentamos e tecemos tratados e teorias, mas ficamos nisso, deixamos o aquilo que seria a ação. Ficamos na especulação e só. Pois, envolver-se causaria mais dor a nós...
As lágrimas acontecem pelo descaso na fila dos postos de saúde quando ela - mãe está com o filho nos braços, doente e os atendentes tomam cafezinho e contam piadas, reservaram senhas às amigas que nunca as convidaram às suas casas, mas são da média e alta sociedade pelo menos ao sobrenome do cartão. Pela ignorância nos ônibus, quando a mãe com neném entra e os marmanjos ‘filhos de alguém’ fingem que dormem ou olham pêra a janela displicentes, pela falta de respeito ao ser humano que dia-a-dia cresce, quando o mesmo político que distribui botões de rosa nas ruas hoje é o mesmo que dias passados queria cortar os direitos que as mães conquistaram; os mesmos políticos que hoje lhe dizem feliz dia das mães amanhã colocarão sua vida em risco por imporem cargos de comissão a amigos e familiares sem conhecimento algum; ou até mesmo os colocarem no seu lugar de direito, você que é profissional e que ficará desempregada... Desonras desmedidas, pois seu voto foi colocado na cesta de lixo nos acordos de verbas e comissões impróbias; imoralidade e descrenças, pois as pessoas que mais tinha confiança causaram males aos seus entes queridos...
O homem pensou no progresso, em material bélico avançado, cartões de crédito, viagens espaciais e outros absurdos em inovação... E nesta corrida pelo amanhã esquecem da segurança e a proteção do hoje; pensavam que para parar os crimes e a violência teriam a polícia e neste rompante atual quem vai nos proteger da polícia? Todas as violências e todos os tipos de corrupções já estão infiltradas em todas as castas de nossa sociedade e em todos os escalões profissionais... Só nos resta perguntar:
__O que faremos para cessar essas torrenciais lágrimas de maio???...


(Gostaria que em seu comentário deixasse ‘o que’ ou ‘qual situação’ presenciou que a fizeram derramar “lágrimas de maio” em algum momento de sua vida... Feliz dia das mães)

O presente de Natal

O presente de Natal...
Poet ha, Abilio machado.

Nada mais faltava? Estaria assim tudo perfeito?
Estava tudo pronto: no jardim iluminado com lâmpadas alternadas em varais que dispostas abriam verdadeiros caminhos entre os arbustos e árvores frutíferas da minha infância. Lanternas de garrafas recicladas enfeitavam ora aqui ou ali com motivos natalinos, eram guirlandas, globos, estrelas, de cores variadas, presas nos ramos e arbustos; as crianças da vizinhança reunidas a brincar, alegres em suas brincadeiras, mãe pega, esconde-esconde, outras mais levadas iniciavam seus primeiros braços e beijos perto do maço de grinaldas floridas, brancas como as estrelas que cobriam a noite.
Na grande sala de visitas, moças e rapazes dançavam ao som de um aparelho já antigo, alguns bolachões eram sacados de suas capas, ostentavam classe e memória. Na sala de jantar conjugada à cozinha com o velho fogão à lenha, uma mesa comprida de madeira única retirada da chácara, a base pintada em verde, mania do senhor da casa torcedor do Coritiba Futebol Clube, sobre ela uma porção de comidas, frutas e cerveja caseira. Uma jarra com flores podia ser notada, mas era artesanato feito por uma das filhas que além de trabalhar na correia de produção da fábrica de cerâmicas ainda fazia cursos de artesanatos na fundação da empresa.
Os pequenos de vez em quando deixavam suas brincadeiras para atacarem as guloseimas e também expiarem os mais velhos em suas novas experiências de adolescentes, fazendo assim caretas com os beijos de lábios encostados.
Na sala um pano azul turquesa cobria uma forma quadrada sob os pés da árvore de natal, como estava linda. A rama erguia-se soberba a quase chegar ao teto, bolas de vidro colorido pendiam-se nos galhos, alguns objetos feitos na escolinha também foram pendurados, e no topo ainda vazio, sabia que ali como todo ano seria colocado uma estrela, mas o que teria naquela forma quadrada, a vontade de sondar era tamanha que muitas vezes uma das irmãs ou os pais deram alguns gritos e ameaças para que os danadinhos se afastassem...
Mas de repente, assim aos poucos os convidados foram-se despedindo, indo embora, levando os rebentos pelas mãos ou adormecidos no colo, A senhora da casa não estava bem, assim o casal mais novo da casa teve que ir para cama mais cedo que o costume ao dia festivo. João Pedro e Christian, primos deitaram-se no quarto de João, enquanto Renia foi para o quarto das irmãs mais velhas, não poderia ficar no quarto de sempre pois a velha parteira ia passar a noite com todos...
Deitados Christian comentava contrariado a João:
__Sua mãe tinha de adoecer justo hoje? Não podemos brincar, nos escondermos para esperar o papai Noel...
__Tínhamos combinado tudinho... Véspera de Natal, a brincadeira estava tão boa...
__ Se estava, acredita que dei um beijo na filha do seu Joaquim?
__ Credo que nojo... Mas estranhei sua mamãe... Ela não parecia doente, apesar daquele barrigão que ela ta... Muito gorda...
__Não fale assim da minha mãe senão eu vou aí e te dou umas bifas, ah se dou.
Ficaram contando um a outro o que tinham pedido de presentes na lista dos tios e irmãos caindo no sono logo depois cansados da baderna do dia.
Pela manhã, a casa acordada, sentia-se o cheiro do pão fresco, dos ovos fritos, do café coado. João abriu os olhos aos poucos, tinha sonhado um sonho tão bom... Era noite e muito luar e um anjo desceu do céu trazia nos braços um presente, era uma criança, um pouco maior que a boneca Sophie que a imã possuía, este anjo pousara e colocara aquele bebe num berço de vime, e logo depois de sorrir e dizer algumas palavras a ele levantara vôo com as asas de imensa luz.
Despertou mesmo ao ver aos pés da cama a irmã Renia estava boquiaberta, dizendo para que corressem e eles vestidos ainda apenas de cuecas e meias saltaram, pensaram que eram os brinquedos por isso correram para baixo da árvore de Natal, mas ela os deu empurrões para o quarto da mãe, onde ela estava deitada, a face abatida, parecia cansada...
__ Ah meus queridos, mamãe teve um presente, que um anjo deixou de madrugada, enquanto dormiam. Vocês não disseram que queriam mais um irmãozinho? Pois aí está este é o mais novo membro da nossa família...
Meio trêmulo como a irmã tinha ficado, João deu a volta na cama, viu aquele recém nascido dormindo a sono longo, começou a olhar cada detalhezinho...
__ Que foi filho?
__ Quero ver se igual...
__ Igual a quê?
__ Igual ao que o anjo mostrou para mim e disse que ia ter nome de arcanjo, ia se chamar Gabriel.
A mãe perguntou a todos da casa se em algum momento João havia estado perto do quarto e todos disseram que não, ela então acreditou que seu filho tivera uma visita divina, pois era segredo dela e do marido o nome do filho pretendido.
Quando o pai emocionou-se quando viu João escrevendo com a caneta o nome do irmão na estrela e pedindo para que fosse colocado no topo da árvore, tendo a aprovação e palmas de todos que se reuniram para o momento, pois logo então foi descoberto o grande segredo que estava sob a árvore de Natal: um presépio, todo montado com figuras executadas em palha de milho, um trabalho maravilhoso feito pelas mãos habilidosas da Mestra da Palha Luzia de Balsa Nova, aqui no Paraná.

O Coração de Maria

O coração de Maria

Por Poetha Abilio Machado.







O Coração de Maria.
Por Poetha Abilio Machado.

. O cenário diz sobre uma sala, estante com livros, mesa, cadeiras e poltronas. As crianças entram com mochilas e as colocam em algum lugar.

CENA I

MARIQUINHA
(Brinca com uma boneca, que na abertura está sem roupa e no decorrer da música é vestida, acompanhando o ritmo e a brincadeira que oferecer).

CATATAU
(Tira um livro da estante e volta-se aos deveres de escola espalhados pela mesa, vestido de uniforme escolar ainda).

MARIQUINHA
__Catatau, preciso saber o que é Casa de penhores.

CATATAU
__ Não sabes o que é?! Poderia te mandar ler um dicionário, mas como sei vou te dizer de pronto: É uma casa de empréstimos, as pessoas levam algum objeto, jóias, móveis ou roupas e ele então fica lá por um determinado tempo.

MARIQUINHA
__ E se não conseguirem devolver o dinheiro?!

CATATAU
__Perdem aquilo que levaram, pois nem sempre conseguem se recuperar... É triste...

MARIQUINHA
__Ah! Que aconteceu com nossa casa?

CATATAU
__Que houve que ficou neste estado?

MARIQUINHA
__(Quase cochichando) É que... Hoje pela manhã antes de irmos ao Colégio, ouvi mamãe falando para o papai que havia ido lá...

CATATAU
__Isto é impossível minha irmã...

MARIQUINHA
__ Não é não. Ouvi com estes ouvidos aqui, ó! Mamãe disse: __Fui ali à Lojinha do Seu Leão para levar todas as minhas jóias.

CATATAU
__ Você deve ter escutado errado, papai está empregado e mamãe faz trabalhos de manicure e pedicuro às vizinhas.

MARIQUINHA
__Bem que queria que fosse engano, mas não e.

CATATAU
__É pela tua cara não é não. Estou começando a ficar preocupado, ontem mesmo pedi para que papai me colocasse num curso de informática... Vou tirar minhas dúvidas e pergunto para a mamãe...

MARIQUINHA
__ Não! Nada de falar com mamãe, pelamordeDeus! Eu ouvi sem querer, por acaso... Talvez eles não queiram que a gente saiba do que acontece na casa.

CATATAU
__ Ah Mariquinha Maria. Somos uma família e devemos saber o que acontece entre nossas paredes.

MARIQUINHA
__Compreendo você. Mas estou desesperada.

CATATAU
__ Tudo bem, mas teremos de achar um meio...

MARIQUINHA
__ Quem me dera, fazer como naqueles filmes e achar um objeto mágico que me fizesse crescer, assim crescida saberia fazer roupas e sendo costureira e designer de moda tivesse um trabalho e um salário... Não sabe a dor que me dá ver a mamãe entrar naquela loja com suas poucas jóias, a aliança de casamento, imaginou isso?!

CATATAU
__ Nem quero imaginar... Não chore minha irmã, tudo vai acontecer para melhor, Deus há de nos cuidar.

MARIQUINHA
__ Nunca em todos estes anos que esta loja esta em frente á nossa casa havia reparado nas pessoas que entram e saem... Agora mesmo, vê?!

CATATAU
__ Quê?

MARIQUINHA
__ Veja aquela velhinha entro há pouco com uma caixa lindamente enfeitada e agora sai chorando com um envelope ás mãos.

CATATAU
__ Maria mariquinha. Sai desta janela e vem brincar, ainda tenho muito trabalho escolar para fazer, mas logo termino e aí faremos uma bacia de pipoca e nos divertiremos que acha?

MARIQUINHA
__ Você ainda pensa em comer, rapaz? Brincar... Minha boneca, mamãe falou que custou os olhos da cara, quem sabe não se endividou por causa de meu pedido? Tive uma idéia...

CATATAU
__ Que idéia?

MARIQUINHA
__ Já vai saber...

CENA II

CATATAU
__ Minha irmã. Como lhe cai bem o nome de Maria, igual ao da mãe de Jesus. Somos muito novos para trabalhar, mas quem sabe papai não me ajudará... Trabalhando em algum comércio, na honrada profissão do arrumador das horas... Poderá não ser muito o ganho, mas já não serei um peso a papai... (À boca de cena) Mas cá entre nós algo está errado, ainda ontem papai e mamãe falavam em trocar nosso carro por um mais novo e maior, também papai quer abrir seu próprio negócio... Mariquinha por certo está enganada... Papai já chega e saberei.

CENA III

CATATAU
__ Olá papai! (Abraça-o).

PAI
__ Nossa! Que recepção calorosa. Há muito não me abraças... Pensei que já estavas crescido...

CATATAU
__ Deixe disso, você é meu pai, posso abraçá-lo e beijá-lo ao rosto sempre que não me afetará em nada...

PAI
__ Também acho isso, dá-me outro abraço, está muito bom, quero isso todos os dias, viu?

CATATAU
__Pode deixar, que não mais esquecerei.

PAI
__ Quero ver seus deveres, prontos? Uhm. (Olha os cadernos alcançados pelo menino). Parece que quer me perguntar algo? Que é?

CATATAU
__ Queria saber se mesmo com minha idade poderia ser admitido nalgum comércio, para que ganhasse um dinheirinho...

PAI
__ Para que quer saber? Conheces algum menino que precise de emprego?

CATATAU
__ Sim meu pai. Ouvi falar de um no colégio, os pais dele perderam tudo de repente e ele quer arrumar um trabalho para não ser um fardo aos pais e também poder ajudá-los.

PAI
__ Que menino maravilhosos tenho eu. Mas me diga, conheces o tal menino?!

CATATAU
__ Não, só ouvi falar e pensei...

PAI
__ Meu menino, não tem amizade com o colega?! E ainda assim quer ajudá-lo?! Aconselho-te antes a travar diálogo com ele, autorizo-te de agora adiante a se tornar amigo dele, mostrou pela vontade ter um bom caráter. Preciso do nome deste menino, coloque num papel com o endereço que providenciarei alguma coisa para que remediem o momento. Quem sabe não os conheça, não é?

CATATAU
__ Amanhã meu pai, lhe entregarei, prometo.

PAI
__ Vou lhe tomar a tabuada antes do café da tarde. Paramos na de quanto?

CATATAU
__ Ah meu pai. Minha cabeça nem mesmo conseguiria fazer somas de um e dois hoje...

PAI
__ Nem mesmo uma viagem pela história do Brasil que tanto gosta?

CATATAU
__ Nem mesmo...

PAI
__ Está bem. Como não sei que é por preguiça e vejo que está preocupado, terminamos aqui. Vou ao quarto acabar uma contas que tenho que entregar ao Banco, onde está Mariquinha?

CATATAU
__ Deve estar fazendo artes...

PAI
__ Quando ela chegar vejam a sacola de revistas que trouxe...

CATATAU
__ Pode deixar pai...

PAI
__ E não façam muita bagunça que mamãe reclamou de dor de cabeça pela manhã...

CENA IV

CATATAU
__ Papai é um homem formidável, parece que lia meus pensamentos quando não queria mais estudar por hoje... Cadê minha irmã?!

MARIQUINHA
__ Meu irmão... Está feito.

CATATAU
__ Onde andou menina? Papai perguntou de você e eu de nada sabia.

MARIQUINHA
__ Minha idéia funcionou, toma aqui... Não consegui muito acredito, mas já é um bom começo...

CATATAU
__ Vinte reais? Onde conseguiu?

MARIQUINHA
__ Bom, mamãe e papai estão precisando de dinheiro, então peguei um blusão para que ninguém me reconhecesse, e com minha boneca na caixa nova dela que ainda guardava fui ter com o Seu Leão na casa de penhores que você falou que emprestava dinheiro.

CATATAU
__ Você saiu à rua sozinha?!

MARIQUINHA
__ para você ver, não encontrei ninguém no caminho até o outro lado da rua, entrei e me vi na frente de um senhor narigudo, tendo um monte de coisas espalhadas e trazia um monóculo em um de seus olhos e uma lupa na mão.

CATATAU
__ Vai agora dizer o número do RG ? Vamos fale... Não enrole...

MARIQUINHA
__ Ele olhou para mim admirado e sorriu. Eu estava com minha boneca Lilica e ele disse: __ Que deseja? Eu respondi: __ Venho aqui para penhorar meu tesouro para ajudar mamãe que precisa muito de dinheiro e veio ter com o senhor ontem à tardinha, às escondidas para que nós crianças não soubéssemos dos apertos que andam... O velho ficou trêmulo, parecia que iria chorar, meteu a mão no bolso retirou a nota e me entregou dizendo:

VELHO OFF
__ Toma minha querida. Leva para sua mãe. Diga-lhe que deve ficar muito grata a Deus por ter uma filha como você... Existem anjos que aparecem para nos ensinar a viver! Vai em paz minha criança.

MARIQUINHA
__ Minha parte eu fiz, sei que de tua boca não sairá nenhum comentário, mas caberá a você entregar o dinheiro à mamãe e vai levar também meu pote de vidro que guardo as moedas... Vai?

CATATU
__ Você foi tão decidida... Eu já pensava em conseguir um emprego para então ter um salário para então ajudar papai e mamãe.

MARIQUINHA
__ Mas isso ainda é parte de meus planos... Não sucumbiremos, vamos manter nossa família unida mesmo na queda dos fatos...

CENA V

MARIQUINHA
__ Está feito e pronto, sem arrependimento... Meu dever como filha foi realizado e estou feliz, apesar de estar sentindo falta de minha boneca que tanto desejei, e levei tanto tempo para ganhar... Aqueles bracinhos de borracha molinha, macio, os vestidinhos, a escovinha de cabelos, cabelos loirinhos como ouro, o espelhinho, os sapatinhos, que belos eram, no próximo mês eu já planejara compra retalhos e fazer novas roupas, bem coloridas, bem como comprar um carrinho, tudo isso juntando minhas moedinhas... Pobre Lilica, em breve te buscarei... (Olha pela janela) Me senti como aquela velha senhora, uma dor tão grande invadiu meu corpo. Mas minha boneca?! Vou imaginar que a perdi, ou que foi para o céu igual à vovó... No céu deve ter coisas tão bonitas... O que me importa é que mamãe vai ficar contente com nossa ajuda, somos filhos e devemos ajudar. (Perambula pela sala e encontra algo da boneca) Olha aqui está a mamadeira de Lilica... Deixe para lá... Mamãe sempre diz que quem dá recebe em dobro, quem sabe um dia não tenha eu duas bonecas iguais à Lilica?! Vê ela está na vitrine como a me olhar... Oi?! Consegue me ver?

CENA VII

PAI
__( Aparece ao canto com o menino, andam com cuidado, para que Mariquinha não os vejam, diz em sussurro) Menino chama tua irmã e mostra-lhe este livro de figuras, quero que enrole por alguns minutos, conto com você.

CATATAU
__ Pode contar sempre comigo.

CENA VIII
CATATAU
__ Mariquinha... Vem ver o que papai mandou para nós...

MARIQUINHA
__ E então que me diz? Mamãe?

CATATAU
__ Você não imagina a alegria de mamãe, a tanto que eu também lhe disse que iria penhorar minha bola, mas que já está muito gasto o couro.

MARIQUINHA
__ Fico feliz por mamãe... E este livro? Quantas figuras...

CATATAU
__ (Colocam o livro sobre a mesa e ficam lado a lado olhando e comentando as figuras) Papai disse que vai nos levar fazer a carteirinha na Biblioteca Municipal, disse que lá tem muitos livros e para emprestá-los é muito fácil...

MARIQUINHA
__ Olha aqui... Um príncipe... Deve ser o Encantado....

CATATAU
__ É sim... Ele vai agora acordar a Bela Adormecida...

MARIQUINHA
__ Essa moça era uma dorminhoca, dormiu cem anos... É muito tempo cochilando, não é?

CATATAU
__ Vê este aqui? É a o príncipe enfeitiçado da história da Bela e da Fera. Olha aqui está a Rapunzel, que longo são seus cabelos...

MARIQUINHA
__ Imagina o que gastaria com xampu, não é? E fazer estas tranças?


(O pai entra escondido entra e se coloca em pé a um canto segurando um embrulho).

CATATAU
__ Que pena não é que não existam mais fadas e varinhas de condão...

MARIQUINHA
__ o Professor Abilio ensinou a fazer nas aulas de teatro. Seria bom se fossem verdadeiras...

CATATAU
__ Por quê?

MARIQUINHA
__ Ora... Eu faria aparecer um cofre cheio de dinheiro para dar à mamãe e ao papai. E ia buscar minha boneca correndo...

CATATAU
__ Gostas tanto assim de uma boneca?

MARIQUINHA
__ É como você com sua bola, não é? Está toda gasta e velha, mas você não a larga.

CATATAU
__ Você está triste por causa disso? Falta da boneca?

MARIQUINHA
__ Por que me fala dela? Eu não quero pensar nela e não quero, mas vê-la...

CATATAU
__ Não fale isso, ela te escuta... Ainda vai despir sua roupa, dar banho na bacia e vai lhe costurar roupas novinhas, não é papai?

(A menina volta-se e explode).

MARIQUINHA
__ Papai, minha Lilica...

CENA IX

PAI
__ Deus vê tudo que fazem, sabiam? Esta manhã o que ouviu foi o relato de sua mãe contando um sonho que teve e que a fez acordar na noite. Mas este incidente nos deu a conhecer a sua alma e a de teu irmão, você não hesitou em sacrificar algo que gosta muito para auxiliar sua família. Obrigado meu amor, vocês hoje encheram nossos corações de gratidão. Aconteceu algo maravilhoso. Pois Leão, o velho sorridente e narigudo é meu velho amigo de infância e logo depois que saiu de lá ele me telefonou para me contar e para devolver a sua boneca com lágrimas aos olhos. No mesmo instante sua mãe entrava se esbaldando de alegria e também em lágrimas, Carlinhos acabava de lhe entregar os vinte reais e até seu cofrinho de moedas minha filha, ela foi-me contar a história... Juntos choramos, por termos em casa filhos tão cheios de solidariedade... Que Deus os conserve sempre assim.

(Os três se abraçam).






Fim

O Coração de Maria


O coração de Maria

Por Poetha Abilio Machado.







O Coração de Maria.
Por Poetha Abilio Machado.

. O cenário diz sobre uma sala, estante com livros, mesa, cadeiras e poltronas. As crianças entram com mochilas e as colocam em algum lugar.

CENA I

MARIQUINHA
(Brinca com uma boneca, que na abertura está sem roupa e no decorrer da música é vestida, acompanhando o ritmo e a brincadeira que oferecer).

CATATAU
(Tira um livro da estante e volta-se aos deveres de escola espalhados pela mesa, vestido de uniforme escolar ainda).

MARIQUINHA
__Catatau, preciso saber o que é Casa de penhores.

CATATAU
__ Não sabes o que é?! Poderia te mandar ler um dicionário, mas como sei vou te dizer de pronto: É uma casa de empréstimos, as pessoas levam algum objeto, jóias, móveis ou roupas e ele então fica lá por um determinado tempo.

MARIQUINHA
__ E se não conseguirem devolver o dinheiro?!

CATATAU
__Perdem aquilo que levaram, pois nem sempre conseguem se recuperar... É triste...

MARIQUINHA
__Ah! Que aconteceu com nossa casa?

CATATAU
__Que houve que ficou neste estado?

MARIQUINHA
__(Quase cochichando) É que... Hoje pela manhã antes de irmos ao Colégio, ouvi mamãe falando para o papai que havia ido lá...

CATATAU
__Isto é impossível minha irmã...

MARIQUINHA
__ Não é não. Ouvi com estes ouvidos aqui, ó! Mamãe disse: __Fui ali à Lojinha do Seu Leão para levar todas as minhas jóias.

CATATAU
__ Você deve ter escutado errado, papai está empregado e mamãe faz trabalhos de manicure e pedicuro às vizinhas.

MARIQUINHA
__Bem que queria que fosse engano, mas não e.

CATATAU
__É pela tua cara não é não. Estou começando a ficar preocupado, ontem mesmo pedi para que papai me colocasse num curso de informática... Vou tirar minhas dúvidas e pergunto para a mamãe...

MARIQUINHA
__ Não! Nada de falar com mamãe, pelamordeDeus! Eu ouvi sem querer, por acaso... Talvez eles não queiram que a gente saiba do que acontece na casa.

CATATAU
__ Ah Mariquinha Maria. Somos uma família e devemos saber o que acontece entre nossas paredes.

MARIQUINHA
__Compreendo você. Mas estou desesperada.

CATATAU
__ Tudo bem, mas teremos de achar um meio...

MARIQUINHA
__ Quem me dera, fazer como naqueles filmes e achar um objeto mágico que me fizesse crescer, assim crescida saberia fazer roupas e sendo costureira e designer de moda tivesse um trabalho e um salário... Não sabe a dor que me dá ver a mamãe entrar naquela loja com suas poucas jóias, a aliança de casamento, imaginou isso?!

CATATAU
__ Nem quero imaginar... Não chore minha irmã, tudo vai acontecer para melhor, Deus há de nos cuidar.

MARIQUINHA
__ Nunca em todos estes anos que esta loja esta em frente á nossa casa havia reparado nas pessoas que entram e saem... Agora mesmo, vê?!

CATATAU
__ Quê?

MARIQUINHA
__ Veja aquela velhinha entro há pouco com uma caixa lindamente enfeitada e agora sai chorando com um envelope ás mãos.

CATATAU
__ Maria mariquinha. Sai desta janela e vem brincar, ainda tenho muito trabalho escolar para fazer, mas logo termino e aí faremos uma bacia de pipoca e nos divertiremos que acha?

MARIQUINHA
__ Você ainda pensa em comer, rapaz? Brincar... Minha boneca, mamãe falou que custou os olhos da cara, quem sabe não se endividou por causa de meu pedido? Tive uma idéia...

CATATAU
__ Que idéia?

MARIQUINHA
__ Já vai saber...

CENA II

CATATAU
__ Minha irmã. Como lhe cai bem o nome de Maria, igual ao da mãe de Jesus. Somos muito novos para trabalhar, mas quem sabe papai não me ajudará... Trabalhando em algum comércio, na honrada profissão do arrumador das horas... Poderá não ser muito o ganho, mas já não serei um peso a papai... (À boca de cena) Mas cá entre nós algo está errado, ainda ontem papai e mamãe falavam em trocar nosso carro por um mais novo e maior, também papai quer abrir seu próprio negócio... Mariquinha por certo está enganada... Papai já chega e saberei.

CENA III

CATATAU
__ Olá papai! (Abraça-o).

PAI
__ Nossa! Que recepção calorosa. Há muito não me abraças... Pensei que já estavas crescido...

CATATAU
__ Deixe disso, você é meu pai, posso abraçá-lo e beijá-lo ao rosto sempre que não me afetará em nada...

PAI
__ Também acho isso, dá-me outro abraço, está muito bom, quero isso todos os dias, viu?

CATATAU
__Pode deixar, que não mais esquecerei.

PAI
__ Quero ver seus deveres, prontos? Uhm. (Olha os cadernos alcançados pelo menino). Parece que quer me perguntar algo? Que é?

CATATAU
__ Queria saber se mesmo com minha idade poderia ser admitido nalgum comércio, para que ganhasse um dinheirinho...

PAI
__ Para que quer saber? Conheces algum menino que precise de emprego?

CATATAU
__ Sim meu pai. Ouvi falar de um no colégio, os pais dele perderam tudo de repente e ele quer arrumar um trabalho para não ser um fardo aos pais e também poder ajudá-los.

PAI
__ Que menino maravilhosos tenho eu. Mas me diga, conheces o tal menino?!

CATATAU
__ Não, só ouvi falar e pensei...

PAI
__ Meu menino, não tem amizade com o colega?! E ainda assim quer ajudá-lo?! Aconselho-te antes a travar diálogo com ele, autorizo-te de agora adiante a se tornar amigo dele, mostrou pela vontade ter um bom caráter. Preciso do nome deste menino, coloque num papel com o endereço que providenciarei alguma coisa para que remediem o momento. Quem sabe não os conheça, não é?

CATATAU
__ Amanhã meu pai, lhe entregarei, prometo.

PAI
__ Vou lhe tomar a tabuada antes do café da tarde. Paramos na de quanto?

CATATAU
__ Ah meu pai. Minha cabeça nem mesmo conseguiria fazer somas de um e dois hoje...

PAI
__ Nem mesmo uma viagem pela história do Brasil que tanto gosta?

CATATAU
__ Nem mesmo...

PAI
__ Está bem. Como não sei que é por preguiça e vejo que está preocupado, terminamos aqui. Vou ao quarto acabar uma contas que tenho que entregar ao Banco, onde está Mariquinha?

CATATAU
__ Deve estar fazendo artes...

PAI
__ Quando ela chegar vejam a sacola de revistas que trouxe...

CATATAU
__ Pode deixar pai...

PAI
__ E não façam muita bagunça que mamãe reclamou de dor de cabeça pela manhã...

CENA IV

CATATAU
__ Papai é um homem formidável, parece que lia meus pensamentos quando não queria mais estudar por hoje... Cadê minha irmã?!

MARIQUINHA
__ Meu irmão... Está feito.

CATATAU
__ Onde andou menina? Papai perguntou de você e eu de nada sabia.

MARIQUINHA
__ Minha idéia funcionou, toma aqui... Não consegui muito acredito, mas já é um bom começo...

CATATAU
__ Vinte reais? Onde conseguiu?

MARIQUINHA
__ Bom, mamãe e papai estão precisando de dinheiro, então peguei um blusão para que ninguém me reconhecesse, e com minha boneca na caixa nova dela que ainda guardava fui ter com o Seu Leão na casa de penhores que você falou que emprestava dinheiro.

CATATAU
__ Você saiu à rua sozinha?!

MARIQUINHA
__ para você ver, não encontrei ninguém no caminho até o outro lado da rua, entrei e me vi na frente de um senhor narigudo, tendo um monte de coisas espalhadas e trazia um monóculo em um de seus olhos e uma lupa na mão.

CATATAU
__ Vai agora dizer o número do RG ? Vamos fale... Não enrole...

MARIQUINHA
__ Ele olhou para mim admirado e sorriu. Eu estava com minha boneca Lilica e ele disse: __ Que deseja? Eu respondi: __ Venho aqui para penhorar meu tesouro para ajudar mamãe que precisa muito de dinheiro e veio ter com o senhor ontem à tardinha, às escondidas para que nós crianças não soubéssemos dos apertos que andam... O velho ficou trêmulo, parecia que iria chorar, meteu a mão no bolso retirou a nota e me entregou dizendo:

VELHO OFF
__ Toma minha querida. Leva para sua mãe. Diga-lhe que deve ficar muito grata a Deus por ter uma filha como você... Existem anjos que aparecem para nos ensinar a viver! Vai em paz minha criança.

MARIQUINHA
__ Minha parte eu fiz, sei que de tua boca não sairá nenhum comentário, mas caberá a você entregar o dinheiro à mamãe e vai levar também meu pote de vidro que guardo as moedas... Vai?

CATATU
__ Você foi tão decidida... Eu já pensava em conseguir um emprego para então ter um salário para então ajudar papai e mamãe.

MARIQUINHA
__ Mas isso ainda é parte de meus planos... Não sucumbiremos, vamos manter nossa família unida mesmo na queda dos fatos...

CENA V

MARIQUINHA
__ Está feito e pronto, sem arrependimento... Meu dever como filha foi realizado e estou feliz, apesar de estar sentindo falta de minha boneca que tanto desejei, e levei tanto tempo para ganhar... Aqueles bracinhos de borracha molinha, macio, os vestidinhos, a escovinha de cabelos, cabelos loirinhos como ouro, o espelhinho, os sapatinhos, que belos eram, no próximo mês eu já planejara compra retalhos e fazer novas roupas, bem coloridas, bem como comprar um carrinho, tudo isso juntando minhas moedinhas... Pobre Lilica, em breve te buscarei... (Olha pela janela) Me senti como aquela velha senhora, uma dor tão grande invadiu meu corpo. Mas minha boneca?! Vou imaginar que a perdi, ou que foi para o céu igual à vovó... No céu deve ter coisas tão bonitas... O que me importa é que mamãe vai ficar contente com nossa ajuda, somos filhos e devemos ajudar. (Perambula pela sala e encontra algo da boneca) Olha aqui está a mamadeira de Lilica... Deixe para lá... Mamãe sempre diz que quem dá recebe em dobro, quem sabe um dia não tenha eu duas bonecas iguais à Lilica?! Vê ela está na vitrine como a me olhar... Oi?! Consegue me ver?

CENA VII

PAI
__( Aparece ao canto com o menino, andam com cuidado, para que Mariquinha não os vejam, diz em sussurro) Menino chama tua irmã e mostra-lhe este livro de figuras, quero que enrole por alguns minutos, conto com você.

CATATAU
__ Pode contar sempre comigo.

CENA VIII
CATATAU
__ Mariquinha... Vem ver o que papai mandou para nós...

MARIQUINHA
__ E então que me diz? Mamãe?

CATATAU
__ Você não imagina a alegria de mamãe, a tanto que eu também lhe disse que iria penhorar minha bola, mas que já está muito gasto o couro.

MARIQUINHA
__ Fico feliz por mamãe... E este livro? Quantas figuras...

CATATAU
__ (Colocam o livro sobre a mesa e ficam lado a lado olhando e comentando as figuras) Papai disse que vai nos levar fazer a carteirinha na Biblioteca Municipal, disse que lá tem muitos livros e para emprestá-los é muito fácil...

MARIQUINHA
__ Olha aqui... Um príncipe... Deve ser o Encantado....

CATATAU
__ É sim... Ele vai agora acordar a Bela Adormecida...

MARIQUINHA
__ Essa moça era uma dorminhoca, dormiu cem anos... É muito tempo cochilando, não é?

CATATAU
__ Vê este aqui? É a o príncipe enfeitiçado da história da Bela e da Fera. Olha aqui está a Rapunzel, que longo são seus cabelos...

MARIQUINHA
__ Imagina o que gastaria com xampu, não é? E fazer estas tranças?


(O pai entra escondido entra e se coloca em pé a um canto segurando um embrulho).

CATATAU
__ Que pena não é que não existam mais fadas e varinhas de condão...

MARIQUINHA
__ o Professor Abilio ensinou a fazer nas aulas de teatro. Seria bom se fossem verdadeiras...

CATATAU
__ Por quê?

MARIQUINHA
__ Ora... Eu faria aparecer um cofre cheio de dinheiro para dar à mamãe e ao papai. E ia buscar minha boneca correndo...

CATATAU
__ Gostas tanto assim de uma boneca?

MARIQUINHA
__ É como você com sua bola, não é? Está toda gasta e velha, mas você não a larga.

CATATAU
__ Você está triste por causa disso? Falta da boneca?

MARIQUINHA
__ Por que me fala dela? Eu não quero pensar nela e não quero, mas vê-la...

CATATAU
__ Não fale isso, ela te escuta... Ainda vai despir sua roupa, dar banho na bacia e vai lhe costurar roupas novinhas, não é papai?

(A menina volta-se e explode).

MARIQUINHA
__ Papai, minha Lilica...

CENA IX

PAI
__ Deus vê tudo que fazem, sabiam? Esta manhã o que ouviu foi o relato de sua mãe contando um sonho que teve e que a fez acordar na noite. Mas este incidente nos deu a conhecer a sua alma e a de teu irmão, você não hesitou em sacrificar algo que gosta muito para auxiliar sua família. Obrigado meu amor, vocês hoje encheram nossos corações de gratidão. Aconteceu algo maravilhoso. Pois Leão, o velho sorridente e narigudo é meu velho amigo de infância e logo depois que saiu de lá ele me telefonou para me contar e para devolver a sua boneca com lágrimas aos olhos. No mesmo instante sua mãe entrava se esbaldando de alegria e também em lágrimas, Carlinhos acabava de lhe entregar os vinte reais e até seu cofrinho de moedas minha filha, ela foi-me contar a história... Juntos choramos, por termos em casa filhos tão cheios de solidariedade... Que Deus os conserve sempre assim.

(Os três se abraçam).






Fim

13 de maio




13 de maio... Abolição!
Por Poet Ha, Abilio Machado.

Dedico nesta semana meu espaço a um povo que entrou nesta terra à força, serviçal e escravo, em trabalhos forçados nas plantações de cana, café e exploração de pedras e do ouro no século XVIII. Trazidos principalmente da Guiné (Lagos) os Bantos, Congo (São Paulo de Luana), Angola e Moçambique (os Sudaneses).
Ao contrário dos que muitos pensam nossos irmãos não vinham para cá apenas capturados, transportados e vendidos por brancos europeus. Muitos eram prisioneiros de guerras africanas e trocados por mercadorias ou simplesmente fonte de lucro de algumas tribos, algumas aprimoraram a técnica usando a própria religiosidade das diferentes tribos, como a ‘árvore do esquecimento’, onde os chamados donos faziam os capturados darem nove voltas e segundo a crença apagaria o passado e eles ficariam sem este laço e produziriam mais, era executado antes da troca pelas mercadorias como badulaques, utensílios e armas que lhes garantiam posição entre as tribos. Ou a “posse dos menores”, capturas de crianças menores antes da sua maioridade e por isso considerados sem identidade, sendo um ninguém podia ser vendido sem rancor.
Durante seus dias aqui no Brasil colônia, a situação do escravo dependia muito do seu proprietário, no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, do dia 10 de janeiro de 1852 apareceram dois anúncios, um sobre a fuga e outro sobre venda que dizia:
“___Vendem-se dous bons escravos de nação, que sabem fallar francez e inglez, e sem vícios e boa saúde, na Rua Fresca nº 3.” (Hist. Do Brasil-Taunay e Dicamôr).
Este anúncio deixa claro o que o proprietário fez com seus dois escravos, aprenderam duas línguas estrangeiras; já o segundo proprietário demonstrava que castigava violentamente os seus:
“___ Fugio no dia 04 do corrente... Um escravo de nome Zacarias, idade 20 anos, com bigode feito há oito (08) dias, tem as costas cortadas de chicote. Na rua da Candelária nº 30, será gratificado.”
O fim do tráfico?! O governo Regional, cedendo às pressões inglesas fez a Lei de 07 de novembro de 1831, que proibia o Trafico de escravos. Em 1845 o Parlamento Britânico aprovou o “Bill Aberdeen”, mas ao contrário do esperado, ocorreu aumento na entrada de africanos. De 1841 a 1845 entraram 94.742 africanos; de 1846 a 1850 foram 243.496 africanos. Somente em 04 de setembro de 1850, com a Lei Eusébio de Quirós colocaria fim ao tráfico. Dando o pontapé inicial para por fim à escravidão; da Campanha Abolicionista destacaram-se: Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Luiz Gama, Rui Barbosa, Antonio Carlos Gomes, Antonio Castro Alves, e muitos outros. Em 28 de setembro de 1871, aprovada a Lei do Ventre Livre, que aboliam apenas aos nascidos, em 28 de setembro de 1885 a Lei Saraiva Gotegipe ou Lei dos Sexagenários que aboliam aos idosos, que segundo alguns pesquisadores esta lei servia apenas para retirar a responsabilidade de alimentação e cuido das mãos dos proprietários e lançar os não produtivos para os braços do estado.
Em 1884, por decisão própria, duas províncias, Ceará e Amazonas, aboliram e baniram a escravidão de seus territórios.
As fugas eram numerosas, muitas ajudadas por grupos abolicionistas e guiadas por índios que eram aprisionados também para a escravidão e era de difícil doma. Os capitães do mato já não conseguiam agir e, então o exército foi convocado; e através de uma carta de manifestação pelo Clube Militar à Princesa Isabel, dizendo considerar a missão desonrosa em entidade de proteção ser subjugada a uma reles coluna de captura de escravos. A Princesa Isabel que já denotava sua opinião sobre a escravidão e visão mercantilista recebe o Projeto de Lei João Alfredo de Oliveira e sancionou em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea de nº. 3353:
Artigo 1º - É, declarada extinta a escravidão no Brasil.
Artigo 2º - Revogam-se as disposições em contrário.
Com apenas dois artigos estava erradicada a escravidão no País.

É uma simples lembrança a este povo que só fez enriquecer a Cultura do Brasil, com arte, dança e religiosidade. E que luta até hoje para a ABOLIÇÃO DO PRECONCEITO.
(saiba mais sobre esse povo e da história do Brasil, visite a Biblioteca da sua cidade e pergunte ao seu professor)

Odelair Rodrigues

Odelair Rodrigues... A nossa Dila.

Cada vez que menciono seu nome no palco parece que sua presença preenche otudo.

Longa 4 X 1


ce

na

do filme 4 X 1 onde fui carcereiro destes meninos maus aí...

Muito bom trabalhar com vocês: Paulinho, Rodrigo, Daniel, Fabrício, Lui e muitos outros sob a direção do Caco de Souza.

Além do sono...









ALÉM DO SONO
De
Poetha Abilio Machado
(Abilio Machado de Lima Filho)

. O hall está decorado com a penumbra, uma tocha de seis tubos de papelão,contendo no centro um pires e velas de todos os tamanhos que queimam, envolve a atmosfera do público, incluindo o cheiro de incenso de flores.
. Os degraus da escada, a cada dois uma vela centralizada, acesa, no corrimão, nas laterais da entrada para o teatro. (este foi o caso, neste teatro).
. O cenário é negro, quatro enormes tochas, também feitas de papelão com o pires cheio de velas, A luz marcante é o vermelho e a penumbra.
. A música é lúgrube, cheia de distorções, pânico e loucura, As luzes piscam em desatino,


FORA várias vozes falam:

“Nós mesmos... Nós mesmos... Nós mesmos... Nós mesmos...
Nós mesmos somos causadores das nossas mudanças, quando nos entregamos, perdidos em desequilíbrio de nossa trindade e estruturas, que são nossas elevações: O corpo, a mente e o espírito.
Fabricamos psicose de angústia e ódio, vaidade e orgulho, usura e delinqüência, desânimo e egocentrismo, inveja e loucura, ira e amor, desprezo e pena, luxúria e ambição, vontade e consciência.
Emergem ao nosso redor, maiores ou menores perturbações, pois invariavelmente nos entregamos às desesperanças ao nos espelharmos em alguém e adquirimos para nós o que esse mundo pode nos oferecer de pior: A falta de diálogo, a sensação de abandono, a não confiança, o desamparo a si mesmo, um desassossego da família, o distanciamento paulatino da fé, a descrença na religião, a perda da auto-estima, os olhos que se perdem na corrupção, o dinheiro que esvai o consumo involuntário, a degradação do caráter, a ausência da moral e a destruição total da ética pessoal e social.
Assim caímos no poço dos maus hábitos, procuramos vícios com drogas, mentira, violência, depravação do corpo e dos sentidos... E somos levados a uma viagem tortuosa onde o certo e o errado, ficam misturados e distorcidos, onde a sexualidade fica fora do vínculo original, onde nos cegamos ante os absurdos que vemos ou realizamos. Nossa vida ameaçada fica repleta de frustrações...
Assim somos nós... Assim seremos?!...Ou assim fomos... Nós!”



. A música levanta, representa uma mistura no espaço, céu e inferno são impostos pelas figuras fantasmagóricas que passam... Barulhos de animais e gritos... Um jovem atravessa o palco, está assustado, escuta vozes e foge. Sons de sirene e tiros... Ele atravessa demonstrando que está perdido, ora no próscênio, ora na boca de cena, ora pelo público, coisa rápida, e os barulhos continuam... A luz pisca, em meio o público alguns pean’s são jogados ou até podem alguns usar lanternas...

. Um velho cambaleante entra, já de longe profere palavras para si, sua idade, sua vida, acende as velas que estão no palco, enquanto reza pedindo proteção.

VELHO
___AH! Que alegria, eu já estava ficando com saudades. Meu neto chega hoje, está chegando! Ele tem muitos problemas, coitadinho, sempre tentei entende-lo, mas o coração dele por algum motivo ficou duro... Duro demais para uma idade tão pouca... Nem viveu todas as vidas para guardar tanto ressentimento.

.O jovem entra de costas, está em pânico. Alguns ruídos o fazem estremecer.

JOVEM
___Que lugar é este? Estou numa viagem muito louca, a última coisa que me lembro... O verdão que peguei do Kaio, foi sim, me vendeu um mesclado... Por isso essa viagem alucinante. Tá tudo muito doido.

. Sem perceber bate de costas no velho.

JOVEM
___Ahhhh! Quem? Vô?! Que você está fazendo aqui?

VELHO
___Meu neto querido... Eu estava esperando você, pensei...

JOVEM
___Já falei para parar com esse negócio de querido, pega mal, vê se alguém te ouve? Cai minha moral na rua... E você está mesmo gagá, poderia ter se machucado nesta escuridão. Porra velho. Vê se não me... Não se assusta mais... Ih, nem sei.

VELHO
___Eu vim para te fazer companhia, talvez ficasse receoso e assustado com a penumbra que é este portal...

JOVEM
___Vê só. Sou homem. Não tenho medo de nada. E me diga que lugar é este?

VELHO
___Eu não sei ainda direito que lugar é.

JOVEM
___Como não sabe? Se me esperava?

VELHO
___Apenas senti que estaria aqui. Nós sempre fomos ligados.

JOVEM
___Como?

VELHO
___É como quando você veio morar comigo. Lembra? Depois daquela briga com seus pais? Eu sabia que procuraria ao velho aqui.

JOVEM
___Ah! Já sei. Então foram eles que me colocaram aqui? Isto aqui é um asilo para gagás. Papai sempre dizia que queria te colocar em um desses para que pudesse tomar conta de seu dinheiro tranqüilamente. Por mais que tua aposentadoria fosse uma merreca.

VELHO
___Por favor. Não fale assim... Mesmo depois de tanto tempo ainda machuca...

JOVEM
___Não estou entendendo como coloca desta maneira. Não estou entendendo o porquê de você estar aqui... Olá! Tem alguém me ouvindo? Me tirem daqui! (Bate no vazio, e só o próprio eco se faz ouvir, como se a escuridão lhe risse à cara)

VELHO
___Lembro agora que fiz o mesmo quando cheguei aqui.
Me pesava a Alma ter de deixa-lo sozinho e desamparado...Amargurado como você é, leva uma grande carga dentro de você, e isto lhe corrói a vida...Vai além, corrói a sua Alma...

JOVEM
___Lá vem o velhote com seus conselhos sobre amor. Discursos vovô, são apenas discursos, vazios e incoerentes. Sempre ouvi papai falar de você, de que precisava implorar muitas vezes por um carinho, aí vem você com suas asneiras e lições de moral...

VELHO
___Não são incoerentes filho meu. Eu aprendi com meus próprios erros. O que sempre quis dizer para ele era o quanto o amava, mas tinha que correr atrás de dinheiro, alimentar a casa, demorou muito tempo para perceber que nada daquilo adiantava. Demorei até chegar à idade e me pesar os ossos. Chegou um dia que acordei e me vi velho, doente, só, a divagar pelos cantos o que havia sido minha vida, quem era o que fiz e deixei de fazer... Como você deve também despertar... Vê? Essas drogas que você usa?

JOVEM
___Mas eu já te disse um milhão de vezes. Eu uso drogas sim. Mas, eu sou diferente. Eu consigo me controlar. Eu tenho meu esquema pra ficar legal...

VELHO
___Não existe esquema para uso de drogas, nem para o jogo e tampouco para qualquer perdição. Tudo que causa destruição individual ou coletiva não oferece futuro. O que existe são desculpas e subterfúgios.

JOVEM
___Que é isso... Tsc... Tsc... Meu esquema é fácil... Se me falta farinha eu uso verdão e se me falta o verdão eu uso birita... E de repente umas pedras... Chá de guti, chá de lírio, me acho às vezes até naturalista...

VELHO
___Minha criança, dia ou outro a natureza vai reclamar seu direito à sobrevivência e virá bater à sua porta... E você? Apenas substitui uma droga pela outra e diz que pode se controlar?!

JOVEM
___Cada um é cada um... Eu posso parar quando quizer. Claro que posso. E sabe mesmo a real? Eu vou parar quando encontrar alguém, a pessoa certa. Alguém que me ame, essa parada toda de relacionamento sério, amor de verdade e real...

VELHO
___ E se não houver tempo para viver esse amor? Se você perder esse direito? Meu jovem você não demonstra amor para si mesmo, como vai ser com outra pessoa? Você sempre fala sobre neste controle... Já tentou parar alguma vez? Não né! E esta pessoa certa é uma menina tão caída quanto você? Como a poesia de Fred Mercury... Uma loira, pálida e que te leve às alturas...Ou à cova...

JOVEM
___É esta a imagem que lhe vem? É muita fantasia para um velho só. Não há sentido algum. Como eu faço para sair daqui? Mas que merda! Ninguém me ouve... Onde estou? Eu quero sair...

VELHO
___Você vai ter que despertar, vai. Acorda menino. Não acredito que não tenha percebido ainda. Você não percebeu que o teu direito de saborear a vida acabou?

JOVEM
___Vô. Eu estou começando a ficar irado. Vamos. Diga. Onde é a porta desta porra aqui. (Agarra o velho e o sacode)


VELHO
___Já te disse menino. Não sei. Só existem estas tochas para iluminar o local, e a chama tem que ser passada de uma à outra. A procura pela luz é individual, e cada um deverá encontrar sua própria saída, eu abdiquei da minha saída para estar contigo, para auxiliar e não ver você esmorecer. Não decline sobre teus desejos...

JOVEM
___(Corre para as paredes desesperado) Eu quero sair, me deixem sair, não quero ficar preso aqui... Meu desejo é este, me tirem daqui!

VELHO
___Venha aqui menino. Quero te dar um abraço. Eu cuidarei de você, antes eu não sabia como... Agora eu sei... Nossa vida precisa de um pouco de caridade, de sacrifício, de doação sem esperança de recompensa... Algo que venha desmedido, simples e puro... Me deu uma vontade de te abraçar. Venha me dá um abraço?

JOVEM
___Cara. Você é chato. Mesmo quando eu te roubava você...

VELHO
___Eu te abraçava. Beijava... No começo é claro... Quando você ainda não havia se entregado totalmente a escuridão que é o uso das coisas que faz. Pensava que seus pais se dedicaram muito à procura de oferecer coisas e haviam esquecido do principal... Como um dia eu esqueci com teu pai... Eles passaram por cima de seus sentimentos de criança e de adolescente... Não ousaram cobranças com medo de serem cobrados, mas sempre virá o cobrador...

JOVEM
___Viu o que disse? É isso que eu sempre falei, eu tenho problemas emocionais causado pelos meus pais, jamais consegui parar em nenhum emprego, nem na sala de aula, nem tratar bem os professores e meus colegas, tudo causado pelos meus pais... Você mesmo disse isso.

VELHO
___ Você sabe que isso não é verdade. Muitas vezes o erro está dentro de nós, só que apenas olhamos os defeitos em quem está à nossa volta. No fundo você sabe que são desculpas pelo teu caráter deformado pelo meio que você começou a conviver... Cada vez que você toma suas drogas o que muda? Quando você retorna da letargia a família mudou? A escola mudou? Os colegas? Há um empresário à porta esperando, só para contratar você? Não meu querido. Os problemas todos estarão lá e às vezes maiores que antes, talvez piores pelo que fez com seu comportamento quando estava na sua viagem...

JOVEM
___Cale-se. Cansei deste discurso de sabedoria da melhor idade. Cala a boca senão eu... Eu...

VELHO
___ Vai me bater?! Desculpe meu neto, mas não pode mais me machucar, aqui não... Lamento mas só vai ficar nas ameaças...

JOVEM
___Cala a boca, velho rabugento. Me diz logo como eu saio daqui, você já estava aqui deve saber, tem de saber... Me tirem daqui...

VELHO
___Fique um instante calmo. Tente raciocinar, não seja afoito. A primeira regra para qualquer busca de resposta é a reflexão. Refaça seus últimos momentos... Faça este esforço... Por uma mudança, por uma vida melhor. Por você!

(A música expressa o sentido da loucura e do êxtase)

JOVEM
___Me deixa ver, fiz uma carreira enorme, eu comecei a ficar com medo. A boca é nova, de uns metidos a mauricinhos e fiquei meio cabreiro em estar naquele inferninho tipo chique, alguns são tão malucos por grana que acabam matando o cliente de tanta mistura que colocam... Viu? Admiti pela primeira vez na vida que estive com medo, que me passou medo em estar naquele lugar.

VELHO
___ Está refazendo o caminho, tente não esconder nada. A resposta pode estar em uma palavra, num gesto, uma atitude qualquer. Você pode esconder coisas de todos menos a teu coração. A ele você deve verdades e ele é teu maior cobrador...

JOVEM
___ Vô. Você fala de maneira estranha. É até mais chato que meus professores que forçam uma intelectualidade inexistente. Cala a boca de uma vez e some... Que saco!

VELHO
___ Comece a entender o que se passa, muitas vezes me pergunto se umas varadas nesta bunda preguiçosa não teriam te encaminhado melhor...

JOVEM
___ Esquenta não... As varadas que vocês não me deram eu levei na rua dos outros... Esquenta não, por que não foi ainda?!

VELHO
___ Por que quero te ajudar...

JOVEM
___ Como?! Você não entenderia... Ninguém nunca tentou me entender...

VELHO
___ Tente, por favor?!

JOVEM
___ É que dói lembrar-se de quando se tem medo... Eu estava num inferninho chique, nestes lugares os caras são tão fissurados por grana que te matam de tanta mistura só para faturar um pouco mais... Esqueceram da filosofia da droga. Se é que um dia ela existiu, de repente é algo só da minha cabeça, que bobeira, eu me abrindo com meu avô...

VELHO
___ Não é... Bobeira como diz... Falava que estava lá e com medo...

JOVEM
___ É eu tava com medo... Pronto assumi, falei, medo, quase me caguei todo, sim! Eu estava me escondendo... ( sempre sem perder o foco, procura uma saída, é uma constante) Eu já sei... Você disse que não posso te ferir, você está no meu sonho, cara ainda estou na viagem, que bala é essa... Que pira!

VELHO
___ De certa forma sim, estou aqui na sua viagem. Amarga, triste e perdida...
JOVEM
___ Já passei por tantas meu camarada, daqui a pouco passa o barato, eu acordo, melhor você vem e me acorda falando que o café ou a janta já está pronta e que eu passei o dia todo na cama, os papos repetitivos de sempre, coisas sobre a escola, família, idade e trabalho... Só quero te contar aqui neste sonho doido que na escola eu não entro faz um tempão, a escola até é boazinha, tem uns professores cabeças, tem outros que até já fumaram unzinho ou tomaram uma biritinha com a molecada... Mas a real é que fiquei devendo uma graninha para aqueles carinhas que azaram na esquina todo dia, que vão nos horários de entrada e de saída sabe? Uns vão lá pelas menininhas, mas lá estão também os camaradas que levam docinho do bom e eu como estava conhecido ganhei alguns créditos e me ferrei, nem boiei afundei igual pedra...

VELHO
___ Por que não me contou antes? Mas eu te dei o dinheiro, pelo menos você me tirou o dinheiro quando cheguei o banco.

JOVEM
___ É... Aquele dia eu tava desesperado, mas quando saí encontrei uns camaradas e a gente foi pra balada, quando dei por mim eu tava sem um trocado, nem pro ônibus eu tinha... Tinha cheirado cada centavo da tua aposentadoria. Mas isso não interessa agora, quero que saia do meu sonho que eu quero sonhar com alguma coisa que me dê prazer ou quero acordar e sair achar um teco, lembrar destas coisas me dá uma deprê...

VELHO
___ Quer mesmo que eu vá? Aqui eu não posso interferir, só observar, acompanhar...

JOVEM
___ Vai some!

(O velho se afasta)

JOVEM
___ Como pode ser isto? Pensava que tinha me livrado do velho, cara... Putz eu agora to me lembrando... (acende outra luz em pico, branca, e o velho vem e ele vai até ela) Ele veio até a mim... Com a mão no peito e segurando o braço e fazendo umas caretas...

VELHO
___ Menino! Pegue isso e vá rápido até a farmácia, não demore...

JOVEM
___ Me empurrou na mão uma caixa de remédios vazia e cinqüenta paus... Eu lembro... Sai correndo rumo até a farmácia, não cheguei até lá, lembro que joguei a caixa no pé do poste, e peguei o buzu e me fui para a rave, os cinquentinha eram um bom valor para uma noitada e eu tinha que ir, ah se tinha, me internei, foi uma doideira veio, até que me botaram para fora, sabe cumequeéné?! Macetão para não pagar a conta da consuma... Quando cheguei em casa, era já dia do outro dia, doido de pedra... Olhei e lá tava o velho estendido ao lado da cama, uma carcaça dura, com a máscara da morte sobre sua face envelhecida... Eu não consegui vê-lo deitado no caixão, tinha medo de ir lá perto e de repente ele abrisse os olhos, me olhasse e me acusasse...

VELHO
___ Você me matou!!! Por quê você me matou?!

JOVEM
___ Tentei esquecer eu juro...

VELHO
___ Deixa-me adivinhar, com mais drogas...

JOVEM
___ Fiquei um tempão lá fora e minha mãe foi atrás de mim, e por ironia dizia coisas que me deixavam mais culpado ainda, de que agora eu fiquei drogadito pela falta do velhote... (ele fala e tenta cavar para fugir enquanto fala às chamas e á escuridão).

VELHO
___ Você sentiu minha falta?!

JOVEM
___ Senti sim... (procura na escuridão e não vê).

VELHO
___ Por que então não aproveitou a oportunidade para deixar de vez esta merda que usa?

JOVEM
___ Você não entende... Não é tão fácil assim, por que só eu tenho de aceitar que o que faço é errado e o que vocês fazem é certo?

VELHO
___ Vai começar com a discussão sobre o álcool?

JOVEM
___ Não, mas raciocina um minuto. O que eu faço é errado porque não traz lucro ao governo, não gera impostos, não há lógica na hipocrisia, o mesmo guarda que me prende escreve na minha ficha com um cigarro na boca, o delegado que me ferra tem uma garrafa de bebida escondido dentro do arquivo, o juiz que me julga e o promotor que me acusa... Já olhou o quanto o Congresso gasta em abastecer de bebida suas geladeiras?! Ah claro que não, pois não importa, eles gastam com a empresa que financiou a candidatura nas eleições... Sei que estou errado, mas quem me pune e me acusa também...

VELHO
___ Mas a destruição que causa é terrível...

JOVEM
___Mas tudo causa destruição vô. Ver um homem mendigando por mais uma dose, ver uma mulher em desalinho e abandono delirando na calçada, um jovem se prostituindo para quem lhe paga uma dose a mais, não é só nas drogas ilícitas meu velho, acontece muito mais nos botecos do que a vã consciência rege e que se finge não ver...

VELHO
___ Concordo com você, como é terrível quando um ser tão divino cai... E você?

JOVEM
___Eu vou bem, eu vou indo, às vezes me bate um remorso, fico implorando para você renascer lá em casa, do mesmo jeito, nas mesmas pieguices...

VELHO
___ Eu também estava com saudades de você. Todo o momento que fiquei longe, eu queria saber de você, se estava bem, se precisava de algo...

JOVEM
___ Agora eu preciso é sair daqui, necessito de liberdade. Ser livre apenas isso.

VELHO
___ Liberdade tem um custo, filho. Para ela tem de existir responsabilidade.

JOVEM
___ Mas vocês é quem mudaram e não eu. Quando fazia algo errado vocês assumiam minhas culpas, vocês sempre me protegeram e eu fui me acostumando ao que vocês me ofereciam.

VELHO
___Seus pais só queriam protegê-lo.
JOVEM
___ Mas esta proteção nunca foi amor de verdade, o amor tem de ser cobrado, vô. Não pode ser mascarado e nem maquiado. Veja você, quando eu te roubava e você descobriu que eu tirava escondido...

VELHO
___ Eu confiei em você, aceitei sua mentira deslavada...

JOVEM
___ Mas devia ter agido diferente...

VELHO
___ Aí você poderia sair pela porta e perder-se de vez, quantos pais se arrependem disso? Eu sabia que tinha de ser diferente, mas que teria que vir de você, que confiasse, que pedisse ajuda...

JOVEM
___ Você queria que eu me humilhasse? Que falasse que era incapaz? Olha para mim, onde estou? Talvez morto, talvez enjaulado, dentro de um sonho que me sufoca, que causa angustia. Acaso estou em alguma clínica, preso?

VELHO
___ Sede forte meu garoto.

JOVEM
___ O que é aquilo? Mãe...? Até o papai veio... A coisa é séria. Meus amigos de escola. O que este pessoal faz aqui? O que aquele padre está falando?

VELHO
___ Eles estão...

JOVEM
___ Eles choram. Mãe não chore isso me machuca. Você parece tão velha. Olha só estes cabelos brancos surgindo, estas rugas...

MÃE-VOZ fora
___ Por quê? Por quê?

JOVEM
___ Pai?! Eu nunca vi você derramar uma lágrima e agora está em prantos... Lembro de algumas coisas, você me carregando nos ombros, meu primeiro dia de aulas você me levou até a sala pela mão... Quanta força você me passava... Depois a gente se distanciou tanto, que você me parecia um estranho, ou era eu um estranho... Quando foi que perdi a fé em meus pais?!
PAI
___ Eu tinha de estar mais perto de você, por quê?

VELHO
___ Aprender a viver meu filho é despertar. Tomar consciência do que ocorre em nosso redor faz parte. Eu mesmo pequei contra seu pai, morri sem dizer a ele o quanto eu o amava. O quanto me orgulhava dele, talvez se eu tivesse tomado a iniciativa sobre isso tudo você teria ganhado mais atenção...

JOVEM
___ Uma carreira...

VELHO
___ Garoto!

JOVEM
___ É vô. Parece uma grande carreira de dominó. Uma pedra encostando-se à outra, se uma cai leva as outras ao chão... Ah mãe que saudades de sua mão sobre meu rosto. Pai o senhor está tremendo, soluçando e eca me beijou?! Aonde vão? O que está acontecendo? Por que eles estão dando as costas e indo embora vô? Pai, mãe. Voltem. Não me deixem aqui, me leve com vocês, eu não quero ficar.

VELHO
___ Venha... (abraça o garoto, que aceita e logo foge do contato).

JOVEM
___ Eu quero ir com eles agora, fale para que me deixem ir... Eu quero fazer tudo diferente, eu sei que posso ser diferente, que posso fazer a diferença, uma outra chance, só o que peço... Vô?!

VELHO
___ Você precisa entender...

JOVEM
___ Entender o que? Eu quero quebrar esta corrente que me segura nas gerações...

VELHO
___ Se houver outra chance...

JOVEM
___ Jamais vô. Jamais tente quebrar o sonho de alguém... Eu posso, eu vou... Ô, que coisa, que terra é esta que estão jogando, quer parar? Oh vô, eu vou voltar aí eu dou um abraços nos velhos, digo que te vi, que você mandou lembranças e vou dizer que amo eles e que vou fazer de tudo para deixar eles orgulhosos de mim... Para com esta terra já falei... Vô estou com vontade de beijar minha mãe, até meu pai, acho que eu era bebê quando me beijou pela última vez... Antes de hoje... Eu tenho de voltar, quero me arrumar na vida, casar, ter filhos e quero amá-los, afastá-los da rotina deste sofrimento... Parem de jogar terra aqui, senão vou sufocar, vou ficar enterrado aqui e se ficar preso não conseguirei sair...

VELHO
___ Quantas vezes não fazemos promessas?! (Está sentado ao lado do jovem que deitado sente-se incomodado com o que vê ser jogado sobre ele) Mudar?! Quantas vezes juramos, em pensamento, em palavras, em qualquer lugar, no altar, de mãos postas e joelhos dobrados? Quantas vezes pedimos perdão, desculpas, aliviamos apenas momentaneamente o pensamento e mais nada. Prometemos que íamos melhorar, que compreenderíamos mais, que ajudaríamos a quem nos pedisse, e quantas vezes ajudamos lá fora e esquecemos de nossa família?!

JOVEM
___ Mas vô. Eu estou falando sério. Muitas vezes precisamos de estímulo, a palavra chave é estímulo para continuar... Me desculpa vô?! Me desculpa por te roubar, por violar a sua vida com agressões animalescas... Meu primeiro passo foi contigo, eu estou me sentindo mais leve sabia? Como fui um trouxa em não reconhecer o quanto você me amava...

VELHO
___ Correção meu filho: Te amo! Eu ainda te amo! (ajoelha-se ao lado e começa a ajudar o garoto como se ele estivesse enterrado).

JOVEM
___ Se eu pudesse mudaria tudo... Ah... Venha aqui... (Dá um abraço forte e seguro e demorado, uma música enleva o momento e luzes vão acendendo pequeninas e outras começam a passear pelo palco).

VELHO
___ E talvez você possa, quem sabe? Se você meu querido não me dará muitas alegrias depois e tantos problemas?

JOVEM
___ Vô... Olha isso! Luzes. As luzes, que maravilhoso é isso.

VELHO
___ Sempre haverá luz no fim do túnel para aqueles que realmente quiserem mudar...

JOVEM
___ Sempre haverá uma saída do poço, é só resolver olhar para cima e retornar a subida, única saída... Você vem?

VELHO
___ Claro meu filho. Sempre haverá esperança nos olhos deste velho...

JOVEM
___ Ou no sorriso de uma criança...

VELHO
___ Ou na teimosia infantil de um adolescente...

JOVEM
___ Vamos vovô, é um longo caminho para além do sono...

VELHO
___ Você sabe que não será fácil...

JOVEM
___ Sei vô. Mas agora tudo vai ser diferente...

FIM.





Apresentado no projeto 45’ EM DOR MAIOR! No ano de 2002. Realizado toda última segunda feira do mês no Salão da Sede Paroquial da Igreja Nossa Senhora da Piedade, em parceria com as reuniões do NA e do Amor Exigente. O projeto consistia em todo mês apresentar um texto, uma montagem diferente, foram nove espetáculos de cunho educativo e mais dois religiosos paixão e ressurreição.

Elenco:

VELHO: Poet ha Abilio Machado
JOVEM: Rodolfo Pereira
MÃE off: Raquel Wücher
Narração off: Nicolle Taner e Raquel Wücher


Estudo:

O Teatro Transcendental, falando da morte com a poesia que o próprio texto apresenta, uma viagem mística é levada no confronto, realidade, ficção e credulidade.

Além dosono...

ALÉM DO SONO
De
Poet Ha Abilio Machado
(Abilio Machado de Lima Filho)

. O hall está decorado com a penumbra, uma tocha de seis tubos de papelão,contendo no centro um pires e velas de todos os tamanhos que queimam, envolve a atmosfera do público, incluindo o cheiro de incenso de flores.
. Os degraus da escada, a cada dois uma vela centralizada, acesa, no corrimão, nas laterais da entrada para o teatro. (este foi o caso, neste teatro).
. O cenário é negro, quatro enormes tochas, também feitas de papelão com o pires cheio de velas, A luz marcante é o vermelho e a penumbra.
. A música é lúgrube, cheia de distorções, pânico e loucura, As luzes piscam em desatino,


FORA várias vozes falam:

“Nós mesmos... Nós mesmos... Nós mesmos... Nós mesmos...
Nós mesmos somos causadores das nossas mudanças, quando nos entregamos, perdidos em desequilíbrio de nossa trindade e estruturas, que são nossas elevações: O corpo, a mente e o espírito.
Fabricamos psicose de angústia e ódio, vaidade e orgulho, usura e delinqüência, desânimo e egocentrismo, inveja e loucura, ira e amor, desprezo e pena, luxúria e ambição, vontade e consciência.
Emergem ao nosso redor, maiores ou menores perturbações, pois invariavelmente nos entregamos às desesperanças ao nos espelharmos em alguém e adquirimos para nós o que esse mundo pode nos oferecer de pior: A falta de diálogo, a sensação de abandono, a não confiança, o desamparo a si mesmo, um desassossego da família, o distanciamento paulatino da fé, a descrença na religião, a perda da auto-estima, os olhos que se perdem na corrupção, o dinheiro que esvai o consumo involuntário, a degradação do caráter, a ausência da moral e a destruição total da ética pessoal e social.
Assim caímos no poço dos maus hábitos, procuramos vícios com drogas, mentira, violência, depravação do corpo e dos sentidos... E somos levados a uma viagem tortuosa onde o certo e o errado, ficam misturados e distorcidos, onde a sexualidade fica fora do vínculo original, onde nos cegamos ante os absurdos que vemos ou realizamos. Nossa vida ameaçada fica repleta de frustrações...
Assim somos nós... Assim seremos?!...Ou assim fomos... Nós!”



. A música levanta, representa uma mistura no espaço, céu e inferno são impostos pelas figuras fantasmagóricas que passam... Barulhos de animais e gritos... Um jovem atravessa o palco, está assustado, escuta vozes e foge. Sons de sirene e tiros... Ele atravessa demonstrando que está perdido, ora no próscênio, ora na boca de cena, ora pelo público, coisa rápida, e os barulhos continuam... A luz pisca, em meio o público alguns pean’s são jogados ou até podem alguns usar lanternas...

. Um velho cambaleante entra, já de longe profere palavras para si, sua idade, sua vida, acende as velas que estão no palco, enquanto reza pedindo proteção.

VELHO
___AH! Que alegria, eu já estava ficando com saudades. Meu neto chega hoje, está chegando! Ele tem muitos problemas, coitadinho, sempre tentei entende-lo, mas o coração dele por algum motivo ficou duro... Duro demais para uma idade tão pouca... Nem viveu todas as vidas para guardar tanto ressentimento.

.O jovem entra de costas, está em pânico. Alguns ruídos o fazem estremecer.

JOVEM
___Que lugar é este? Estou numa viagem muito louca, a última coisa que me lembro... O verdão que peguei do Kaio, foi sim, me vendeu um mesclado... Por isso essa viagem alucinante. Tá tudo muito doido.

. Sem perceber bate de costas no velho.

JOVEM
___Ahhhh! Quem? Vô?! Que você está fazendo aqui?

VELHO
___Meu neto querido... Eu estava esperando você, pensei...

JOVEM
___Já falei para parar com esse negócio de querido, pega mal, vê se alguém te ouve? Cai minha moral na rua... E você está mesmo gagá, poderia ter se machucado nesta escuridão. Porra velho. Vê se não me... Não se assusta mais... Ih, nem sei.

VELHO
___Eu vim para te fazer companhia, talvez ficasse receoso e assustado com a penumbra que é este portal...

JOVEM
___Vê só. Sou homem. Não tenho medo de nada. E me diga que lugar é este?

VELHO
___Eu não sei ainda direito que lugar é.

JOVEM
___Como não sabe? Se me esperava?

VELHO
___Apenas senti que estaria aqui. Nós sempre fomos ligados.

JOVEM
___Como?

VELHO
___É como quando você veio morar comigo. Lembra? Depois daquela briga com seus pais? Eu sabia que procuraria ao velho aqui.

JOVEM
___Ah! Já sei. Então foram eles que me colocaram aqui? Isto aqui é um asilo para gagás. Papai sempre dizia que queria te colocar em um desses para que pudesse tomar conta de seu dinheiro tranqüilamente. Por mais que tua aposentadoria fosse uma merreca.

VELHO
___Por favor. Não fale assim... Mesmo depois de tanto tempo ainda machuca...

JOVEM
___Não estou entendendo como coloca desta maneira. Não estou entendendo o porquê de você estar aqui... Olá! Tem alguém me ouvindo? Me tirem daqui! (Bate no vazio, e só o próprio eco se faz ouvir, como se a escuridão lhe risse à cara)

VELHO
___Lembro agora que fiz o mesmo quando cheguei aqui.
Me pesava a Alma ter de deixa-lo sozinho e desamparado...Amargurado como você é, leva uma grande carga dentro de você, e isto lhe corrói a vida...Vai além, corrói a sua Alma...

JOVEM
___Lá vem o velhote com seus conselhos sobre amor. Discursos vovô, são apenas discursos, vazios e incoerentes. Sempre ouvi papai falar de você, de que precisava implorar muitas vezes por um carinho, aí vem você com suas asneiras e lições de moral...

VELHO
___Não são incoerentes filho meu. Eu aprendi com meus próprios erros. O que sempre quis dizer para ele era o quanto o amava, mas tinha que correr atrás de dinheiro, alimentar a casa, demorou muito tempo para perceber que nada daquilo adiantava. Demorei até chegar à idade e me pesar os ossos. Chegou um dia que acordei e me vi velho, doente, só, a divagar pelos cantos o que havia sido minha vida, quem era o que fiz e deixei de fazer... Como você deve também despertar... Vê? Essas drogas que você usa?

JOVEM
___Mas eu já te disse um milhão de vezes. Eu uso drogas sim. Mas, eu sou diferente. Eu consigo me controlar. Eu tenho meu esquema pra ficar legal...

VELHO
___Não existe esquema para uso de drogas, nem para o jogo e tampouco para qualquer perdição. Tudo que causa destruição individual ou coletiva não oferece futuro. O que existe são desculpas e subterfúgios.

JOVEM
___Que é isso... Tsc... Tsc... Meu esquema é fácil... Se me falta farinha eu uso verdão e se me falta o verdão eu uso birita... E de repente umas pedras... Chá de guti, chá de lírio, me acho às vezes até naturalista...

VELHO
___Minha criança, dia ou outro a natureza vai reclamar seu direito à sobrevivência e virá bater à sua porta... E você? Apenas substitui uma droga pela outra e diz que pode se controlar?!

JOVEM
___Cada um é cada um... Eu posso parar quando quizer. Claro que posso. E sabe mesmo a real? Eu vou parar quando encontrar alguém, a pessoa certa. Alguém que me ame, essa parada toda de relacionamento sério, amor de verdade e real...

VELHO
___ E se não houver tempo para viver esse amor? Se você perder esse direito? Meu jovem você não demonstra amor para si mesmo, como vai ser com outra pessoa? Você sempre fala sobre neste controle... Já tentou parar alguma vez? Não né! E esta pessoa certa é uma menina tão caída quanto você? Como a poesia de Fred Mercury... Uma loira, pálida e que te leve às alturas...Ou à cova...

JOVEM
___É esta a imagem que lhe vem? É muita fantasia para um velho só. Não há sentido algum. Como eu faço para sair daqui? Mas que merda! Ninguém me ouve... Onde estou? Eu quero sair...

VELHO
___Você vai ter que despertar, vai. Acorda menino. Não acredito que não tenha percebido ainda. Você não percebeu que o teu direito de saborear a vida acabou?

JOVEM
___Vô. Eu estou começando a ficar irado. Vamos. Diga. Onde é a porta desta porra aqui. (Agarra o velho e o sacode)


VELHO
___Já te disse menino. Não sei. Só existem estas tochas para iluminar o local, e a chama tem que ser passada de uma à outra. A procura pela luz é individual, e cada um deverá encontrar sua própria saída, eu abdiquei da minha saída para estar contigo, para auxiliar e não ver você esmorecer. Não decline sobre teus desejos...

JOVEM
___(Corre para as paredes desesperado) Eu quero sair, me deixem sair, não quero ficar preso aqui... Meu desejo é este, me tirem daqui!

VELHO
___Venha aqui menino. Quero te dar um abraço. Eu cuidarei de você, antes eu não sabia como... Agora eu sei... Nossa vida precisa de um pouco de caridade, de sacrifício, de doação sem esperança de recompensa... Algo que venha desmedido, simples e puro... Me deu uma vontade de te abraçar. Venha me dá um abraço?

JOVEM
___Cara. Você é chato. Mesmo quando eu te roubava você...

VELHO
___Eu te abraçava. Beijava... No começo é claro... Quando você ainda não havia se entregado totalmente a escuridão que é o uso das coisas que faz. Pensava que seus pais se dedicaram muito à procura de oferecer coisas e haviam esquecido do principal... Como um dia eu esqueci com teu pai... Eles passaram por cima de seus sentimentos de criança e de adolescente... Não ousaram cobranças com medo de serem cobrados, mas sempre virá o cobrador...

JOVEM
___Viu o que disse? É isso que eu sempre falei, eu tenho problemas emocionais causado pelos meus pais, jamais consegui parar em nenhum emprego, nem na sala de aula, nem tratar bem os professores e meus colegas, tudo causado pelos meus pais... Você mesmo disse isso.

VELHO
___ Você sabe que isso não é verdade. Muitas vezes o erro está dentro de nós, só que apenas olhamos os defeitos em quem está à nossa volta. No fundo você sabe que são desculpas pelo teu caráter deformado pelo meio que você começou a conviver... Cada vez que você toma suas drogas o que muda? Quando você retorna da letargia a família mudou? A escola mudou? Os colegas? Há um empresário à porta esperando, só para contratar você? Não meu querido. Os problemas todos estarão lá e às vezes maiores que antes, talvez piores pelo que fez com seu comportamento quando estava na sua viagem...

JOVEM
___Cale-se. Cansei deste discurso de sabedoria da melhor idade. Cala a boca senão eu... Eu...

VELHO
___ Vai me bater?! Desculpe meu neto, mas não pode mais me machucar, aqui não... Lamento mas só vai ficar nas ameaças...

JOVEM
___Cala a boca, velho rabugento. Me diz logo como eu saio daqui, você já estava aqui deve saber, tem de saber... Me tirem daqui...

VELHO
___Fique um instante calmo. Tente raciocinar, não seja afoito. A primeira regra para qualquer busca de resposta é a reflexão. Refaça seus últimos momentos... Faça este esforço... Por uma mudança, por uma vida melhor. Por você!

(A música expressa o sentido da loucura e do êxtase)

JOVEM
___Me deixa ver, fiz uma carreira enorme, eu comecei a ficar com medo. A boca é nova, de uns metidos a mauricinhos e fiquei meio cabreiro em estar naquele inferninho tipo chique, alguns são tão malucos por grana que acabam matando o cliente de tanta mistura que colocam... Viu? Admiti pela primeira vez na vida que estive com medo, que me passou medo em estar naquele lugar.

VELHO
___ Está refazendo o caminho, tente não esconder nada. A resposta pode estar em uma palavra, num gesto, uma atitude qualquer. Você pode esconder coisas de todos menos a teu coração. A ele você deve verdades e ele é teu maior cobrador...

JOVEM
___ Vô. Você fala de maneira estranha. É até mais chato que meus professores que forçam uma intelectualidade inexistente. Cala a boca de uma vez e some... Que saco!

VELHO
___ Comece a entender o que se passa, muitas vezes me pergunto se umas varadas nesta bunda preguiçosa não teriam te encaminhado melhor...

JOVEM
___ Esquenta não... As varadas que vocês não me deram eu levei na rua dos outros... Esquenta não, por que não foi ainda?!

VELHO
___ Por que quero te ajudar...

JOVEM
___ Como?! Você não entenderia... Ninguém nunca tentou me entender...

VELHO
___ Tente, por favor?!

JOVEM
___ É que dói lembrar-se de quando se tem medo... Eu estava num inferninho chique, nestes lugares os caras são tão fissurados por grana que te matam de tanta mistura só para faturar um pouco mais... Esqueceram da filosofia da droga. Se é que um dia ela existiu, de repente é algo só da minha cabeça, que bobeira, eu me abrindo com meu avô...

VELHO
___ Não é... Bobeira como diz... Falava que estava lá e com medo...

JOVEM
___ É eu tava com medo... Pronto assumi, falei, medo, quase me caguei todo, sim! Eu estava me escondendo... ( sempre sem perder o foco, procura uma saída, é uma constante) Eu já sei... Você disse que não posso te ferir, você está no meu sonho, cara ainda estou na viagem, que bala é essa... Que pira!

VELHO
___ De certa forma sim, estou aqui na sua viagem. Amarga, triste e perdida...
JOVEM
___ Já passei por tantas meu camarada, daqui a pouco passa o barato, eu acordo, melhor você vem e me acorda falando que o café ou a janta já está pronta e que eu passei o dia todo na cama, os papos repetitivos de sempre, coisas sobre a escola, família, idade e trabalho... Só quero te contar aqui neste sonho doido que na escola eu não entro faz um tempão, a escola até é boazinha, tem uns professores cabeças, tem outros que até já fumaram unzinho ou tomaram uma biritinha com a molecada... Mas a real é que fiquei devendo uma graninha para aqueles carinhas que azaram na esquina todo dia, que vão nos horários de entrada e de saída sabe? Uns vão lá pelas menininhas, mas lá estão também os camaradas que levam docinho do bom e eu como estava conhecido ganhei alguns créditos e me ferrei, nem boiei afundei igual pedra...

VELHO
___ Por que não me contou antes? Mas eu te dei o dinheiro, pelo menos você me tirou o dinheiro quando cheguei o banco.

JOVEM
___ É... Aquele dia eu tava desesperado, mas quando saí encontrei uns camaradas e a gente foi pra balada, quando dei por mim eu tava sem um trocado, nem pro ônibus eu tinha... Tinha cheirado cada centavo da tua aposentadoria. Mas isso não interessa agora, quero que saia do meu sonho que eu quero sonhar com alguma coisa que me dê prazer ou quero acordar e sair achar um teco, lembrar destas coisas me dá uma deprê...

VELHO
___ Quer mesmo que eu vá? Aqui eu não posso interferir, só observar, acompanhar...

JOVEM
___ Vai some!

(O velho se afasta)

JOVEM
___ Como pode ser isto? Pensava que tinha me livrado do velho, cara... Putz eu agora to me lembrando... (acende outra luz em pico, branca, e o velho vem e ele vai até ela) Ele veio até a mim... Com a mão no peito e segurando o braço e fazendo umas caretas...

VELHO
___ Menino! Pegue isso e vá rápido até a farmácia, não demore...

JOVEM
___ Me empurrou na mão uma caixa de remédios vazia e cinqüenta paus... Eu lembro... Sai correndo rumo até a farmácia, não cheguei até lá, lembro que joguei a caixa no pé do poste, e peguei o buzu e me fui para a rave, os cinquentinha eram um bom valor para uma noitada e eu tinha que ir, ah se tinha, me internei, foi uma doideira veio, até que me botaram para fora, sabe cumequeéné?! Macetão para não pagar a conta da consuma... Quando cheguei em casa, era já dia do outro dia, doido de pedra... Olhei e lá tava o velho estendido ao lado da cama, uma carcaça dura, com a máscara da morte sobre sua face envelhecida... Eu não consegui vê-lo deitado no caixão, tinha medo de ir lá perto e de repente ele abrisse os olhos, me olhasse e me acusasse...

VELHO
___ Você me matou!!! Por quê você me matou?!

JOVEM
___ Tentei esquecer eu juro...

VELHO
___ Deixa-me adivinhar, com mais drogas...

JOVEM
___ Fiquei um tempão lá fora e minha mãe foi atrás de mim, e por ironia dizia coisas que me deixavam mais culpado ainda, de que agora eu fiquei drogadito pela falta do velhote... (ele fala e tenta cavar para fugir enquanto fala às chamas e á escuridão).

VELHO
___ Você sentiu minha falta?!

JOVEM
___ Senti sim... (procura na escuridão e não vê).

VELHO
___ Por que então não aproveitou a oportunidade para deixar de vez esta merda que usa?

JOVEM
___ Você não entende... Não é tão fácil assim, por que só eu tenho de aceitar que o que faço é errado e o que vocês fazem é certo?

VELHO
___ Vai começar com a discussão sobre o álcool?

JOVEM
___ Não, mas raciocina um minuto. O que eu faço é errado porque não traz lucro ao governo, não gera impostos, não há lógica na hipocrisia, o mesmo guarda que me prende escreve na minha ficha com um cigarro na boca, o delegado que me ferra tem uma garrafa de bebida escondido dentro do arquivo, o juiz que me julga e o promotor que me acusa... Já olhou o quanto o Congresso gasta em abastecer de bebida suas geladeiras?! Ah claro que não, pois não importa, eles gastam com a empresa que financiou a candidatura nas eleições... Sei que estou errado, mas quem me pune e me acusa também...

VELHO
___ Mas a destruição que causa é terrível...

JOVEM
___Mas tudo causa destruição vô. Ver um homem mendigando por mais uma dose, ver uma mulher em desalinho e abandono delirando na calçada, um jovem se prostituindo para quem lhe paga uma dose a mais, não é só nas drogas ilícitas meu velho, acontece muito mais nos botecos do que a vã consciência rege e que se finge não ver...

VELHO
___ Concordo com você, como é terrível quando um ser tão divino cai... E você?

JOVEM
___Eu vou bem, eu vou indo, às vezes me bate um remorso, fico implorando para você renascer lá em casa, do mesmo jeito, nas mesmas pieguices...

VELHO
___ Eu também estava com saudades de você. Todo o momento que fiquei longe, eu queria saber de você, se estava bem, se precisava de algo...

JOVEM
___ Agora eu preciso é sair daqui, necessito de liberdade. Ser livre apenas isso.

VELHO
___ Liberdade tem um custo, filho. Para ela tem de existir responsabilidade.

JOVEM
___ Mas vocês é quem mudaram e não eu. Quando fazia algo errado vocês assumiam minhas culpas, vocês sempre me protegeram e eu fui me acostumando ao que vocês me ofereciam.

VELHO
___Seus pais só queriam protegê-lo.
JOVEM
___ Mas esta proteção nunca foi amor de verdade, o amor tem de ser cobrado, vô. Não pode ser mascarado e nem maquiado. Veja você, quando eu te roubava e você descobriu que eu tirava escondido...

VELHO
___ Eu confiei em você, aceitei sua mentira deslavada...

JOVEM
___ Mas devia ter agido diferente...

VELHO
___ Aí você poderia sair pela porta e perder-se de vez, quantos pais se arrependem disso? Eu sabia que tinha de ser diferente, mas que teria que vir de você, que confiasse, que pedisse ajuda...

JOVEM
___ Você queria que eu me humilhasse? Que falasse que era incapaz? Olha para mim, onde estou? Talvez morto, talvez enjaulado, dentro de um sonho que me sufoca, que causa angustia. Acaso estou em alguma clínica, preso?

VELHO
___ Sede forte meu garoto.

JOVEM
___ O que é aquilo? Mãe...? Até o papai veio... A coisa é séria. Meus amigos de escola. O que este pessoal faz aqui? O que aquele padre está falando?

VELHO
___ Eles estão...

JOVEM
___ Eles choram. Mãe não chore isso me machuca. Você parece tão velha. Olha só estes cabelos brancos surgindo, estas rugas...

MÃE-VOZ fora
___ Por quê? Por quê?

JOVEM
___ Pai?! Eu nunca vi você derramar uma lágrima e agora está em prantos... Lembro de algumas coisas, você me carregando nos ombros, meu primeiro dia de aulas você me levou até a sala pela mão... Quanta força você me passava... Depois a gente se distanciou tanto, que você me parecia um estranho, ou era eu um estranho... Quando foi que perdi a fé em meus pais?!
PAI
___ Eu tinha de estar mais perto de você, por quê?

VELHO
___ Aprender a viver meu filho é despertar. Tomar consciência do que ocorre em nosso redor faz parte. Eu mesmo pequei contra seu pai, morri sem dizer a ele o quanto eu o amava. O quanto me orgulhava dele, talvez se eu tivesse tomado a iniciativa sobre isso tudo você teria ganhado mais atenção...

JOVEM
___ Uma carreira...

VELHO
___ Garoto!

JOVEM
___ É vô. Parece uma grande carreira de dominó. Uma pedra encostando-se à outra, se uma cai leva as outras ao chão... Ah mãe que saudades de sua mão sobre meu rosto. Pai o senhor está tremendo, soluçando e eca me beijou?! Aonde vão? O que está acontecendo? Por que eles estão dando as costas e indo embora vô? Pai, mãe. Voltem. Não me deixem aqui, me leve com vocês, eu não quero ficar.

VELHO
___ Venha... (abraça o garoto, que aceita e logo foge do contato).

JOVEM
___ Eu quero ir com eles agora, fale para que me deixem ir... Eu quero fazer tudo diferente, eu sei que posso ser diferente, que posso fazer a diferença, uma outra chance, só o que peço... Vô?!

VELHO
___ Você precisa entender...

JOVEM
___ Entender o que? Eu quero quebrar esta corrente que me segura nas gerações...

VELHO
___ Se houver outra chance...

JOVEM
___ Jamais vô. Jamais tente quebrar o sonho de alguém... Eu posso, eu vou... Ô, que coisa, que terra é esta que estão jogando, quer parar? Oh vô, eu vou voltar aí eu dou um abraços nos velhos, digo que te vi, que você mandou lembranças e vou dizer que amo eles e que vou fazer de tudo para deixar eles orgulhosos de mim... Para com esta terra já falei... Vô estou com vontade de beijar minha mãe, até meu pai, acho que eu era bebê quando me beijou pela última vez... Antes de hoje... Eu tenho de voltar, quero me arrumar na vida, casar, ter filhos e quero amá-los, afastá-los da rotina deste sofrimento... Parem de jogar terra aqui, senão vou sufocar, vou ficar enterrado aqui e se ficar preso não conseguirei sair...

VELHO
___ Quantas vezes não fazemos promessas?! (Está sentado ao lado do jovem que deitado sente-se incomodado com o que vê ser jogado sobre ele) Mudar?! Quantas vezes juramos, em pensamento, em palavras, em qualquer lugar, no altar, de mãos postas e joelhos dobrados? Quantas vezes pedimos perdão, desculpas, aliviamos apenas momentaneamente o pensamento e mais nada. Prometemos que íamos melhorar, que compreenderíamos mais, que ajudaríamos a quem nos pedisse, e quantas vezes ajudamos lá fora e esquecemos de nossa família?!

JOVEM
___ Mas vô. Eu estou falando sério. Muitas vezes precisamos de estímulo, a palavra chave é estímulo para continuar... Me desculpa vô?! Me desculpa por te roubar, por violar a sua vida com agressões animalescas... Meu primeiro passo foi contigo, eu estou me sentindo mais leve sabia? Como fui um trouxa em não reconhecer o quanto você me amava...

VELHO
___ Correção meu filho: Te amo! Eu ainda te amo! (ajoelha-se ao lado e começa a ajudar o garoto como se ele estivesse enterrado).

JOVEM
___ Se eu pudesse mudaria tudo... Ah... Venha aqui... (Dá um abraço forte e seguro e demorado, uma música enleva o momento e luzes vão acendendo pequeninas e outras começam a passear pelo palco).

VELHO
___ E talvez você possa, quem sabe? Se você meu querido não me dará muitas alegrias depois e tantos problemas?

JOVEM
___ Vô... Olha isso! Luzes. As luzes, que maravilhoso é isso.

VELHO
___ Sempre haverá luz no fim do túnel para aqueles que realmente quiserem mudar...

JOVEM
___ Sempre haverá uma saída do poço, é só resolver olhar para cima e retornar a subida, única saída... Você vem?

VELHO
___ Claro meu filho. Sempre haverá esperança nos olhos deste velho...

JOVEM
___ Ou no sorriso de uma criança...

VELHO
___ Ou na teimosia infantil de um adolescente...

JOVEM
___ Vamos vovô, é um longo caminho para além do sono...

VELHO
___ Você sabe que não será fácil...

JOVEM
___ Sei vô. Mas agora tudo vai ser diferente...

FIM.





Apresentado no projeto 45’ EM DOR MAIOR! No ano de 2002. Realizado toda última segunda feira do mês no Salão da Sede Paroquial da Igreja Nossa Senhora da Piedade, em parceria com as reuniões do NA e do Amor Exigente. O projeto consistia em todo mês apresentar um texto, uma montagem diferente, foram nove espetáculos de cunho educativo e mais dois religiosos paixão e ressurreição.

Elenco:

VELHO: Poet ha Abilio Machado
JOVEM: Rodolfo Pereira
MÃE off: Raquel Wücher
Narração off: Nicolle Taner e Raquel Wücher


Estudo:

O Teatro Transcendental, falando da morte com a poesia que o próprio texto apresenta, uma viagem mística é levada no confronto, realidade, ficção e credulidade.