domingo, 17 de maio de 2009

Além dosono...

ALÉM DO SONO
De
Poet Ha Abilio Machado
(Abilio Machado de Lima Filho)

. O hall está decorado com a penumbra, uma tocha de seis tubos de papelão,contendo no centro um pires e velas de todos os tamanhos que queimam, envolve a atmosfera do público, incluindo o cheiro de incenso de flores.
. Os degraus da escada, a cada dois uma vela centralizada, acesa, no corrimão, nas laterais da entrada para o teatro. (este foi o caso, neste teatro).
. O cenário é negro, quatro enormes tochas, também feitas de papelão com o pires cheio de velas, A luz marcante é o vermelho e a penumbra.
. A música é lúgrube, cheia de distorções, pânico e loucura, As luzes piscam em desatino,


FORA várias vozes falam:

“Nós mesmos... Nós mesmos... Nós mesmos... Nós mesmos...
Nós mesmos somos causadores das nossas mudanças, quando nos entregamos, perdidos em desequilíbrio de nossa trindade e estruturas, que são nossas elevações: O corpo, a mente e o espírito.
Fabricamos psicose de angústia e ódio, vaidade e orgulho, usura e delinqüência, desânimo e egocentrismo, inveja e loucura, ira e amor, desprezo e pena, luxúria e ambição, vontade e consciência.
Emergem ao nosso redor, maiores ou menores perturbações, pois invariavelmente nos entregamos às desesperanças ao nos espelharmos em alguém e adquirimos para nós o que esse mundo pode nos oferecer de pior: A falta de diálogo, a sensação de abandono, a não confiança, o desamparo a si mesmo, um desassossego da família, o distanciamento paulatino da fé, a descrença na religião, a perda da auto-estima, os olhos que se perdem na corrupção, o dinheiro que esvai o consumo involuntário, a degradação do caráter, a ausência da moral e a destruição total da ética pessoal e social.
Assim caímos no poço dos maus hábitos, procuramos vícios com drogas, mentira, violência, depravação do corpo e dos sentidos... E somos levados a uma viagem tortuosa onde o certo e o errado, ficam misturados e distorcidos, onde a sexualidade fica fora do vínculo original, onde nos cegamos ante os absurdos que vemos ou realizamos. Nossa vida ameaçada fica repleta de frustrações...
Assim somos nós... Assim seremos?!...Ou assim fomos... Nós!”



. A música levanta, representa uma mistura no espaço, céu e inferno são impostos pelas figuras fantasmagóricas que passam... Barulhos de animais e gritos... Um jovem atravessa o palco, está assustado, escuta vozes e foge. Sons de sirene e tiros... Ele atravessa demonstrando que está perdido, ora no próscênio, ora na boca de cena, ora pelo público, coisa rápida, e os barulhos continuam... A luz pisca, em meio o público alguns pean’s são jogados ou até podem alguns usar lanternas...

. Um velho cambaleante entra, já de longe profere palavras para si, sua idade, sua vida, acende as velas que estão no palco, enquanto reza pedindo proteção.

VELHO
___AH! Que alegria, eu já estava ficando com saudades. Meu neto chega hoje, está chegando! Ele tem muitos problemas, coitadinho, sempre tentei entende-lo, mas o coração dele por algum motivo ficou duro... Duro demais para uma idade tão pouca... Nem viveu todas as vidas para guardar tanto ressentimento.

.O jovem entra de costas, está em pânico. Alguns ruídos o fazem estremecer.

JOVEM
___Que lugar é este? Estou numa viagem muito louca, a última coisa que me lembro... O verdão que peguei do Kaio, foi sim, me vendeu um mesclado... Por isso essa viagem alucinante. Tá tudo muito doido.

. Sem perceber bate de costas no velho.

JOVEM
___Ahhhh! Quem? Vô?! Que você está fazendo aqui?

VELHO
___Meu neto querido... Eu estava esperando você, pensei...

JOVEM
___Já falei para parar com esse negócio de querido, pega mal, vê se alguém te ouve? Cai minha moral na rua... E você está mesmo gagá, poderia ter se machucado nesta escuridão. Porra velho. Vê se não me... Não se assusta mais... Ih, nem sei.

VELHO
___Eu vim para te fazer companhia, talvez ficasse receoso e assustado com a penumbra que é este portal...

JOVEM
___Vê só. Sou homem. Não tenho medo de nada. E me diga que lugar é este?

VELHO
___Eu não sei ainda direito que lugar é.

JOVEM
___Como não sabe? Se me esperava?

VELHO
___Apenas senti que estaria aqui. Nós sempre fomos ligados.

JOVEM
___Como?

VELHO
___É como quando você veio morar comigo. Lembra? Depois daquela briga com seus pais? Eu sabia que procuraria ao velho aqui.

JOVEM
___Ah! Já sei. Então foram eles que me colocaram aqui? Isto aqui é um asilo para gagás. Papai sempre dizia que queria te colocar em um desses para que pudesse tomar conta de seu dinheiro tranqüilamente. Por mais que tua aposentadoria fosse uma merreca.

VELHO
___Por favor. Não fale assim... Mesmo depois de tanto tempo ainda machuca...

JOVEM
___Não estou entendendo como coloca desta maneira. Não estou entendendo o porquê de você estar aqui... Olá! Tem alguém me ouvindo? Me tirem daqui! (Bate no vazio, e só o próprio eco se faz ouvir, como se a escuridão lhe risse à cara)

VELHO
___Lembro agora que fiz o mesmo quando cheguei aqui.
Me pesava a Alma ter de deixa-lo sozinho e desamparado...Amargurado como você é, leva uma grande carga dentro de você, e isto lhe corrói a vida...Vai além, corrói a sua Alma...

JOVEM
___Lá vem o velhote com seus conselhos sobre amor. Discursos vovô, são apenas discursos, vazios e incoerentes. Sempre ouvi papai falar de você, de que precisava implorar muitas vezes por um carinho, aí vem você com suas asneiras e lições de moral...

VELHO
___Não são incoerentes filho meu. Eu aprendi com meus próprios erros. O que sempre quis dizer para ele era o quanto o amava, mas tinha que correr atrás de dinheiro, alimentar a casa, demorou muito tempo para perceber que nada daquilo adiantava. Demorei até chegar à idade e me pesar os ossos. Chegou um dia que acordei e me vi velho, doente, só, a divagar pelos cantos o que havia sido minha vida, quem era o que fiz e deixei de fazer... Como você deve também despertar... Vê? Essas drogas que você usa?

JOVEM
___Mas eu já te disse um milhão de vezes. Eu uso drogas sim. Mas, eu sou diferente. Eu consigo me controlar. Eu tenho meu esquema pra ficar legal...

VELHO
___Não existe esquema para uso de drogas, nem para o jogo e tampouco para qualquer perdição. Tudo que causa destruição individual ou coletiva não oferece futuro. O que existe são desculpas e subterfúgios.

JOVEM
___Que é isso... Tsc... Tsc... Meu esquema é fácil... Se me falta farinha eu uso verdão e se me falta o verdão eu uso birita... E de repente umas pedras... Chá de guti, chá de lírio, me acho às vezes até naturalista...

VELHO
___Minha criança, dia ou outro a natureza vai reclamar seu direito à sobrevivência e virá bater à sua porta... E você? Apenas substitui uma droga pela outra e diz que pode se controlar?!

JOVEM
___Cada um é cada um... Eu posso parar quando quizer. Claro que posso. E sabe mesmo a real? Eu vou parar quando encontrar alguém, a pessoa certa. Alguém que me ame, essa parada toda de relacionamento sério, amor de verdade e real...

VELHO
___ E se não houver tempo para viver esse amor? Se você perder esse direito? Meu jovem você não demonstra amor para si mesmo, como vai ser com outra pessoa? Você sempre fala sobre neste controle... Já tentou parar alguma vez? Não né! E esta pessoa certa é uma menina tão caída quanto você? Como a poesia de Fred Mercury... Uma loira, pálida e que te leve às alturas...Ou à cova...

JOVEM
___É esta a imagem que lhe vem? É muita fantasia para um velho só. Não há sentido algum. Como eu faço para sair daqui? Mas que merda! Ninguém me ouve... Onde estou? Eu quero sair...

VELHO
___Você vai ter que despertar, vai. Acorda menino. Não acredito que não tenha percebido ainda. Você não percebeu que o teu direito de saborear a vida acabou?

JOVEM
___Vô. Eu estou começando a ficar irado. Vamos. Diga. Onde é a porta desta porra aqui. (Agarra o velho e o sacode)


VELHO
___Já te disse menino. Não sei. Só existem estas tochas para iluminar o local, e a chama tem que ser passada de uma à outra. A procura pela luz é individual, e cada um deverá encontrar sua própria saída, eu abdiquei da minha saída para estar contigo, para auxiliar e não ver você esmorecer. Não decline sobre teus desejos...

JOVEM
___(Corre para as paredes desesperado) Eu quero sair, me deixem sair, não quero ficar preso aqui... Meu desejo é este, me tirem daqui!

VELHO
___Venha aqui menino. Quero te dar um abraço. Eu cuidarei de você, antes eu não sabia como... Agora eu sei... Nossa vida precisa de um pouco de caridade, de sacrifício, de doação sem esperança de recompensa... Algo que venha desmedido, simples e puro... Me deu uma vontade de te abraçar. Venha me dá um abraço?

JOVEM
___Cara. Você é chato. Mesmo quando eu te roubava você...

VELHO
___Eu te abraçava. Beijava... No começo é claro... Quando você ainda não havia se entregado totalmente a escuridão que é o uso das coisas que faz. Pensava que seus pais se dedicaram muito à procura de oferecer coisas e haviam esquecido do principal... Como um dia eu esqueci com teu pai... Eles passaram por cima de seus sentimentos de criança e de adolescente... Não ousaram cobranças com medo de serem cobrados, mas sempre virá o cobrador...

JOVEM
___Viu o que disse? É isso que eu sempre falei, eu tenho problemas emocionais causado pelos meus pais, jamais consegui parar em nenhum emprego, nem na sala de aula, nem tratar bem os professores e meus colegas, tudo causado pelos meus pais... Você mesmo disse isso.

VELHO
___ Você sabe que isso não é verdade. Muitas vezes o erro está dentro de nós, só que apenas olhamos os defeitos em quem está à nossa volta. No fundo você sabe que são desculpas pelo teu caráter deformado pelo meio que você começou a conviver... Cada vez que você toma suas drogas o que muda? Quando você retorna da letargia a família mudou? A escola mudou? Os colegas? Há um empresário à porta esperando, só para contratar você? Não meu querido. Os problemas todos estarão lá e às vezes maiores que antes, talvez piores pelo que fez com seu comportamento quando estava na sua viagem...

JOVEM
___Cale-se. Cansei deste discurso de sabedoria da melhor idade. Cala a boca senão eu... Eu...

VELHO
___ Vai me bater?! Desculpe meu neto, mas não pode mais me machucar, aqui não... Lamento mas só vai ficar nas ameaças...

JOVEM
___Cala a boca, velho rabugento. Me diz logo como eu saio daqui, você já estava aqui deve saber, tem de saber... Me tirem daqui...

VELHO
___Fique um instante calmo. Tente raciocinar, não seja afoito. A primeira regra para qualquer busca de resposta é a reflexão. Refaça seus últimos momentos... Faça este esforço... Por uma mudança, por uma vida melhor. Por você!

(A música expressa o sentido da loucura e do êxtase)

JOVEM
___Me deixa ver, fiz uma carreira enorme, eu comecei a ficar com medo. A boca é nova, de uns metidos a mauricinhos e fiquei meio cabreiro em estar naquele inferninho tipo chique, alguns são tão malucos por grana que acabam matando o cliente de tanta mistura que colocam... Viu? Admiti pela primeira vez na vida que estive com medo, que me passou medo em estar naquele lugar.

VELHO
___ Está refazendo o caminho, tente não esconder nada. A resposta pode estar em uma palavra, num gesto, uma atitude qualquer. Você pode esconder coisas de todos menos a teu coração. A ele você deve verdades e ele é teu maior cobrador...

JOVEM
___ Vô. Você fala de maneira estranha. É até mais chato que meus professores que forçam uma intelectualidade inexistente. Cala a boca de uma vez e some... Que saco!

VELHO
___ Comece a entender o que se passa, muitas vezes me pergunto se umas varadas nesta bunda preguiçosa não teriam te encaminhado melhor...

JOVEM
___ Esquenta não... As varadas que vocês não me deram eu levei na rua dos outros... Esquenta não, por que não foi ainda?!

VELHO
___ Por que quero te ajudar...

JOVEM
___ Como?! Você não entenderia... Ninguém nunca tentou me entender...

VELHO
___ Tente, por favor?!

JOVEM
___ É que dói lembrar-se de quando se tem medo... Eu estava num inferninho chique, nestes lugares os caras são tão fissurados por grana que te matam de tanta mistura só para faturar um pouco mais... Esqueceram da filosofia da droga. Se é que um dia ela existiu, de repente é algo só da minha cabeça, que bobeira, eu me abrindo com meu avô...

VELHO
___ Não é... Bobeira como diz... Falava que estava lá e com medo...

JOVEM
___ É eu tava com medo... Pronto assumi, falei, medo, quase me caguei todo, sim! Eu estava me escondendo... ( sempre sem perder o foco, procura uma saída, é uma constante) Eu já sei... Você disse que não posso te ferir, você está no meu sonho, cara ainda estou na viagem, que bala é essa... Que pira!

VELHO
___ De certa forma sim, estou aqui na sua viagem. Amarga, triste e perdida...
JOVEM
___ Já passei por tantas meu camarada, daqui a pouco passa o barato, eu acordo, melhor você vem e me acorda falando que o café ou a janta já está pronta e que eu passei o dia todo na cama, os papos repetitivos de sempre, coisas sobre a escola, família, idade e trabalho... Só quero te contar aqui neste sonho doido que na escola eu não entro faz um tempão, a escola até é boazinha, tem uns professores cabeças, tem outros que até já fumaram unzinho ou tomaram uma biritinha com a molecada... Mas a real é que fiquei devendo uma graninha para aqueles carinhas que azaram na esquina todo dia, que vão nos horários de entrada e de saída sabe? Uns vão lá pelas menininhas, mas lá estão também os camaradas que levam docinho do bom e eu como estava conhecido ganhei alguns créditos e me ferrei, nem boiei afundei igual pedra...

VELHO
___ Por que não me contou antes? Mas eu te dei o dinheiro, pelo menos você me tirou o dinheiro quando cheguei o banco.

JOVEM
___ É... Aquele dia eu tava desesperado, mas quando saí encontrei uns camaradas e a gente foi pra balada, quando dei por mim eu tava sem um trocado, nem pro ônibus eu tinha... Tinha cheirado cada centavo da tua aposentadoria. Mas isso não interessa agora, quero que saia do meu sonho que eu quero sonhar com alguma coisa que me dê prazer ou quero acordar e sair achar um teco, lembrar destas coisas me dá uma deprê...

VELHO
___ Quer mesmo que eu vá? Aqui eu não posso interferir, só observar, acompanhar...

JOVEM
___ Vai some!

(O velho se afasta)

JOVEM
___ Como pode ser isto? Pensava que tinha me livrado do velho, cara... Putz eu agora to me lembrando... (acende outra luz em pico, branca, e o velho vem e ele vai até ela) Ele veio até a mim... Com a mão no peito e segurando o braço e fazendo umas caretas...

VELHO
___ Menino! Pegue isso e vá rápido até a farmácia, não demore...

JOVEM
___ Me empurrou na mão uma caixa de remédios vazia e cinqüenta paus... Eu lembro... Sai correndo rumo até a farmácia, não cheguei até lá, lembro que joguei a caixa no pé do poste, e peguei o buzu e me fui para a rave, os cinquentinha eram um bom valor para uma noitada e eu tinha que ir, ah se tinha, me internei, foi uma doideira veio, até que me botaram para fora, sabe cumequeéné?! Macetão para não pagar a conta da consuma... Quando cheguei em casa, era já dia do outro dia, doido de pedra... Olhei e lá tava o velho estendido ao lado da cama, uma carcaça dura, com a máscara da morte sobre sua face envelhecida... Eu não consegui vê-lo deitado no caixão, tinha medo de ir lá perto e de repente ele abrisse os olhos, me olhasse e me acusasse...

VELHO
___ Você me matou!!! Por quê você me matou?!

JOVEM
___ Tentei esquecer eu juro...

VELHO
___ Deixa-me adivinhar, com mais drogas...

JOVEM
___ Fiquei um tempão lá fora e minha mãe foi atrás de mim, e por ironia dizia coisas que me deixavam mais culpado ainda, de que agora eu fiquei drogadito pela falta do velhote... (ele fala e tenta cavar para fugir enquanto fala às chamas e á escuridão).

VELHO
___ Você sentiu minha falta?!

JOVEM
___ Senti sim... (procura na escuridão e não vê).

VELHO
___ Por que então não aproveitou a oportunidade para deixar de vez esta merda que usa?

JOVEM
___ Você não entende... Não é tão fácil assim, por que só eu tenho de aceitar que o que faço é errado e o que vocês fazem é certo?

VELHO
___ Vai começar com a discussão sobre o álcool?

JOVEM
___ Não, mas raciocina um minuto. O que eu faço é errado porque não traz lucro ao governo, não gera impostos, não há lógica na hipocrisia, o mesmo guarda que me prende escreve na minha ficha com um cigarro na boca, o delegado que me ferra tem uma garrafa de bebida escondido dentro do arquivo, o juiz que me julga e o promotor que me acusa... Já olhou o quanto o Congresso gasta em abastecer de bebida suas geladeiras?! Ah claro que não, pois não importa, eles gastam com a empresa que financiou a candidatura nas eleições... Sei que estou errado, mas quem me pune e me acusa também...

VELHO
___ Mas a destruição que causa é terrível...

JOVEM
___Mas tudo causa destruição vô. Ver um homem mendigando por mais uma dose, ver uma mulher em desalinho e abandono delirando na calçada, um jovem se prostituindo para quem lhe paga uma dose a mais, não é só nas drogas ilícitas meu velho, acontece muito mais nos botecos do que a vã consciência rege e que se finge não ver...

VELHO
___ Concordo com você, como é terrível quando um ser tão divino cai... E você?

JOVEM
___Eu vou bem, eu vou indo, às vezes me bate um remorso, fico implorando para você renascer lá em casa, do mesmo jeito, nas mesmas pieguices...

VELHO
___ Eu também estava com saudades de você. Todo o momento que fiquei longe, eu queria saber de você, se estava bem, se precisava de algo...

JOVEM
___ Agora eu preciso é sair daqui, necessito de liberdade. Ser livre apenas isso.

VELHO
___ Liberdade tem um custo, filho. Para ela tem de existir responsabilidade.

JOVEM
___ Mas vocês é quem mudaram e não eu. Quando fazia algo errado vocês assumiam minhas culpas, vocês sempre me protegeram e eu fui me acostumando ao que vocês me ofereciam.

VELHO
___Seus pais só queriam protegê-lo.
JOVEM
___ Mas esta proteção nunca foi amor de verdade, o amor tem de ser cobrado, vô. Não pode ser mascarado e nem maquiado. Veja você, quando eu te roubava e você descobriu que eu tirava escondido...

VELHO
___ Eu confiei em você, aceitei sua mentira deslavada...

JOVEM
___ Mas devia ter agido diferente...

VELHO
___ Aí você poderia sair pela porta e perder-se de vez, quantos pais se arrependem disso? Eu sabia que tinha de ser diferente, mas que teria que vir de você, que confiasse, que pedisse ajuda...

JOVEM
___ Você queria que eu me humilhasse? Que falasse que era incapaz? Olha para mim, onde estou? Talvez morto, talvez enjaulado, dentro de um sonho que me sufoca, que causa angustia. Acaso estou em alguma clínica, preso?

VELHO
___ Sede forte meu garoto.

JOVEM
___ O que é aquilo? Mãe...? Até o papai veio... A coisa é séria. Meus amigos de escola. O que este pessoal faz aqui? O que aquele padre está falando?

VELHO
___ Eles estão...

JOVEM
___ Eles choram. Mãe não chore isso me machuca. Você parece tão velha. Olha só estes cabelos brancos surgindo, estas rugas...

MÃE-VOZ fora
___ Por quê? Por quê?

JOVEM
___ Pai?! Eu nunca vi você derramar uma lágrima e agora está em prantos... Lembro de algumas coisas, você me carregando nos ombros, meu primeiro dia de aulas você me levou até a sala pela mão... Quanta força você me passava... Depois a gente se distanciou tanto, que você me parecia um estranho, ou era eu um estranho... Quando foi que perdi a fé em meus pais?!
PAI
___ Eu tinha de estar mais perto de você, por quê?

VELHO
___ Aprender a viver meu filho é despertar. Tomar consciência do que ocorre em nosso redor faz parte. Eu mesmo pequei contra seu pai, morri sem dizer a ele o quanto eu o amava. O quanto me orgulhava dele, talvez se eu tivesse tomado a iniciativa sobre isso tudo você teria ganhado mais atenção...

JOVEM
___ Uma carreira...

VELHO
___ Garoto!

JOVEM
___ É vô. Parece uma grande carreira de dominó. Uma pedra encostando-se à outra, se uma cai leva as outras ao chão... Ah mãe que saudades de sua mão sobre meu rosto. Pai o senhor está tremendo, soluçando e eca me beijou?! Aonde vão? O que está acontecendo? Por que eles estão dando as costas e indo embora vô? Pai, mãe. Voltem. Não me deixem aqui, me leve com vocês, eu não quero ficar.

VELHO
___ Venha... (abraça o garoto, que aceita e logo foge do contato).

JOVEM
___ Eu quero ir com eles agora, fale para que me deixem ir... Eu quero fazer tudo diferente, eu sei que posso ser diferente, que posso fazer a diferença, uma outra chance, só o que peço... Vô?!

VELHO
___ Você precisa entender...

JOVEM
___ Entender o que? Eu quero quebrar esta corrente que me segura nas gerações...

VELHO
___ Se houver outra chance...

JOVEM
___ Jamais vô. Jamais tente quebrar o sonho de alguém... Eu posso, eu vou... Ô, que coisa, que terra é esta que estão jogando, quer parar? Oh vô, eu vou voltar aí eu dou um abraços nos velhos, digo que te vi, que você mandou lembranças e vou dizer que amo eles e que vou fazer de tudo para deixar eles orgulhosos de mim... Para com esta terra já falei... Vô estou com vontade de beijar minha mãe, até meu pai, acho que eu era bebê quando me beijou pela última vez... Antes de hoje... Eu tenho de voltar, quero me arrumar na vida, casar, ter filhos e quero amá-los, afastá-los da rotina deste sofrimento... Parem de jogar terra aqui, senão vou sufocar, vou ficar enterrado aqui e se ficar preso não conseguirei sair...

VELHO
___ Quantas vezes não fazemos promessas?! (Está sentado ao lado do jovem que deitado sente-se incomodado com o que vê ser jogado sobre ele) Mudar?! Quantas vezes juramos, em pensamento, em palavras, em qualquer lugar, no altar, de mãos postas e joelhos dobrados? Quantas vezes pedimos perdão, desculpas, aliviamos apenas momentaneamente o pensamento e mais nada. Prometemos que íamos melhorar, que compreenderíamos mais, que ajudaríamos a quem nos pedisse, e quantas vezes ajudamos lá fora e esquecemos de nossa família?!

JOVEM
___ Mas vô. Eu estou falando sério. Muitas vezes precisamos de estímulo, a palavra chave é estímulo para continuar... Me desculpa vô?! Me desculpa por te roubar, por violar a sua vida com agressões animalescas... Meu primeiro passo foi contigo, eu estou me sentindo mais leve sabia? Como fui um trouxa em não reconhecer o quanto você me amava...

VELHO
___ Correção meu filho: Te amo! Eu ainda te amo! (ajoelha-se ao lado e começa a ajudar o garoto como se ele estivesse enterrado).

JOVEM
___ Se eu pudesse mudaria tudo... Ah... Venha aqui... (Dá um abraço forte e seguro e demorado, uma música enleva o momento e luzes vão acendendo pequeninas e outras começam a passear pelo palco).

VELHO
___ E talvez você possa, quem sabe? Se você meu querido não me dará muitas alegrias depois e tantos problemas?

JOVEM
___ Vô... Olha isso! Luzes. As luzes, que maravilhoso é isso.

VELHO
___ Sempre haverá luz no fim do túnel para aqueles que realmente quiserem mudar...

JOVEM
___ Sempre haverá uma saída do poço, é só resolver olhar para cima e retornar a subida, única saída... Você vem?

VELHO
___ Claro meu filho. Sempre haverá esperança nos olhos deste velho...

JOVEM
___ Ou no sorriso de uma criança...

VELHO
___ Ou na teimosia infantil de um adolescente...

JOVEM
___ Vamos vovô, é um longo caminho para além do sono...

VELHO
___ Você sabe que não será fácil...

JOVEM
___ Sei vô. Mas agora tudo vai ser diferente...

FIM.





Apresentado no projeto 45’ EM DOR MAIOR! No ano de 2002. Realizado toda última segunda feira do mês no Salão da Sede Paroquial da Igreja Nossa Senhora da Piedade, em parceria com as reuniões do NA e do Amor Exigente. O projeto consistia em todo mês apresentar um texto, uma montagem diferente, foram nove espetáculos de cunho educativo e mais dois religiosos paixão e ressurreição.

Elenco:

VELHO: Poet ha Abilio Machado
JOVEM: Rodolfo Pereira
MÃE off: Raquel Wücher
Narração off: Nicolle Taner e Raquel Wücher


Estudo:

O Teatro Transcendental, falando da morte com a poesia que o próprio texto apresenta, uma viagem mística é levada no confronto, realidade, ficção e credulidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou do texto se foi doseu agrado e ofereça sugestões... Obrigado.