domingo, 17 de maio de 2009

O Coração de Maria

O coração de Maria

Por Poetha Abilio Machado.







O Coração de Maria.
Por Poetha Abilio Machado.

. O cenário diz sobre uma sala, estante com livros, mesa, cadeiras e poltronas. As crianças entram com mochilas e as colocam em algum lugar.

CENA I

MARIQUINHA
(Brinca com uma boneca, que na abertura está sem roupa e no decorrer da música é vestida, acompanhando o ritmo e a brincadeira que oferecer).

CATATAU
(Tira um livro da estante e volta-se aos deveres de escola espalhados pela mesa, vestido de uniforme escolar ainda).

MARIQUINHA
__Catatau, preciso saber o que é Casa de penhores.

CATATAU
__ Não sabes o que é?! Poderia te mandar ler um dicionário, mas como sei vou te dizer de pronto: É uma casa de empréstimos, as pessoas levam algum objeto, jóias, móveis ou roupas e ele então fica lá por um determinado tempo.

MARIQUINHA
__ E se não conseguirem devolver o dinheiro?!

CATATAU
__Perdem aquilo que levaram, pois nem sempre conseguem se recuperar... É triste...

MARIQUINHA
__Ah! Que aconteceu com nossa casa?

CATATAU
__Que houve que ficou neste estado?

MARIQUINHA
__(Quase cochichando) É que... Hoje pela manhã antes de irmos ao Colégio, ouvi mamãe falando para o papai que havia ido lá...

CATATAU
__Isto é impossível minha irmã...

MARIQUINHA
__ Não é não. Ouvi com estes ouvidos aqui, ó! Mamãe disse: __Fui ali à Lojinha do Seu Leão para levar todas as minhas jóias.

CATATAU
__ Você deve ter escutado errado, papai está empregado e mamãe faz trabalhos de manicure e pedicuro às vizinhas.

MARIQUINHA
__Bem que queria que fosse engano, mas não e.

CATATAU
__É pela tua cara não é não. Estou começando a ficar preocupado, ontem mesmo pedi para que papai me colocasse num curso de informática... Vou tirar minhas dúvidas e pergunto para a mamãe...

MARIQUINHA
__ Não! Nada de falar com mamãe, pelamordeDeus! Eu ouvi sem querer, por acaso... Talvez eles não queiram que a gente saiba do que acontece na casa.

CATATAU
__ Ah Mariquinha Maria. Somos uma família e devemos saber o que acontece entre nossas paredes.

MARIQUINHA
__Compreendo você. Mas estou desesperada.

CATATAU
__ Tudo bem, mas teremos de achar um meio...

MARIQUINHA
__ Quem me dera, fazer como naqueles filmes e achar um objeto mágico que me fizesse crescer, assim crescida saberia fazer roupas e sendo costureira e designer de moda tivesse um trabalho e um salário... Não sabe a dor que me dá ver a mamãe entrar naquela loja com suas poucas jóias, a aliança de casamento, imaginou isso?!

CATATAU
__ Nem quero imaginar... Não chore minha irmã, tudo vai acontecer para melhor, Deus há de nos cuidar.

MARIQUINHA
__ Nunca em todos estes anos que esta loja esta em frente á nossa casa havia reparado nas pessoas que entram e saem... Agora mesmo, vê?!

CATATAU
__ Quê?

MARIQUINHA
__ Veja aquela velhinha entro há pouco com uma caixa lindamente enfeitada e agora sai chorando com um envelope ás mãos.

CATATAU
__ Maria mariquinha. Sai desta janela e vem brincar, ainda tenho muito trabalho escolar para fazer, mas logo termino e aí faremos uma bacia de pipoca e nos divertiremos que acha?

MARIQUINHA
__ Você ainda pensa em comer, rapaz? Brincar... Minha boneca, mamãe falou que custou os olhos da cara, quem sabe não se endividou por causa de meu pedido? Tive uma idéia...

CATATAU
__ Que idéia?

MARIQUINHA
__ Já vai saber...

CENA II

CATATAU
__ Minha irmã. Como lhe cai bem o nome de Maria, igual ao da mãe de Jesus. Somos muito novos para trabalhar, mas quem sabe papai não me ajudará... Trabalhando em algum comércio, na honrada profissão do arrumador das horas... Poderá não ser muito o ganho, mas já não serei um peso a papai... (À boca de cena) Mas cá entre nós algo está errado, ainda ontem papai e mamãe falavam em trocar nosso carro por um mais novo e maior, também papai quer abrir seu próprio negócio... Mariquinha por certo está enganada... Papai já chega e saberei.

CENA III

CATATAU
__ Olá papai! (Abraça-o).

PAI
__ Nossa! Que recepção calorosa. Há muito não me abraças... Pensei que já estavas crescido...

CATATAU
__ Deixe disso, você é meu pai, posso abraçá-lo e beijá-lo ao rosto sempre que não me afetará em nada...

PAI
__ Também acho isso, dá-me outro abraço, está muito bom, quero isso todos os dias, viu?

CATATAU
__Pode deixar, que não mais esquecerei.

PAI
__ Quero ver seus deveres, prontos? Uhm. (Olha os cadernos alcançados pelo menino). Parece que quer me perguntar algo? Que é?

CATATAU
__ Queria saber se mesmo com minha idade poderia ser admitido nalgum comércio, para que ganhasse um dinheirinho...

PAI
__ Para que quer saber? Conheces algum menino que precise de emprego?

CATATAU
__ Sim meu pai. Ouvi falar de um no colégio, os pais dele perderam tudo de repente e ele quer arrumar um trabalho para não ser um fardo aos pais e também poder ajudá-los.

PAI
__ Que menino maravilhosos tenho eu. Mas me diga, conheces o tal menino?!

CATATAU
__ Não, só ouvi falar e pensei...

PAI
__ Meu menino, não tem amizade com o colega?! E ainda assim quer ajudá-lo?! Aconselho-te antes a travar diálogo com ele, autorizo-te de agora adiante a se tornar amigo dele, mostrou pela vontade ter um bom caráter. Preciso do nome deste menino, coloque num papel com o endereço que providenciarei alguma coisa para que remediem o momento. Quem sabe não os conheça, não é?

CATATAU
__ Amanhã meu pai, lhe entregarei, prometo.

PAI
__ Vou lhe tomar a tabuada antes do café da tarde. Paramos na de quanto?

CATATAU
__ Ah meu pai. Minha cabeça nem mesmo conseguiria fazer somas de um e dois hoje...

PAI
__ Nem mesmo uma viagem pela história do Brasil que tanto gosta?

CATATAU
__ Nem mesmo...

PAI
__ Está bem. Como não sei que é por preguiça e vejo que está preocupado, terminamos aqui. Vou ao quarto acabar uma contas que tenho que entregar ao Banco, onde está Mariquinha?

CATATAU
__ Deve estar fazendo artes...

PAI
__ Quando ela chegar vejam a sacola de revistas que trouxe...

CATATAU
__ Pode deixar pai...

PAI
__ E não façam muita bagunça que mamãe reclamou de dor de cabeça pela manhã...

CENA IV

CATATAU
__ Papai é um homem formidável, parece que lia meus pensamentos quando não queria mais estudar por hoje... Cadê minha irmã?!

MARIQUINHA
__ Meu irmão... Está feito.

CATATAU
__ Onde andou menina? Papai perguntou de você e eu de nada sabia.

MARIQUINHA
__ Minha idéia funcionou, toma aqui... Não consegui muito acredito, mas já é um bom começo...

CATATAU
__ Vinte reais? Onde conseguiu?

MARIQUINHA
__ Bom, mamãe e papai estão precisando de dinheiro, então peguei um blusão para que ninguém me reconhecesse, e com minha boneca na caixa nova dela que ainda guardava fui ter com o Seu Leão na casa de penhores que você falou que emprestava dinheiro.

CATATAU
__ Você saiu à rua sozinha?!

MARIQUINHA
__ para você ver, não encontrei ninguém no caminho até o outro lado da rua, entrei e me vi na frente de um senhor narigudo, tendo um monte de coisas espalhadas e trazia um monóculo em um de seus olhos e uma lupa na mão.

CATATAU
__ Vai agora dizer o número do RG ? Vamos fale... Não enrole...

MARIQUINHA
__ Ele olhou para mim admirado e sorriu. Eu estava com minha boneca Lilica e ele disse: __ Que deseja? Eu respondi: __ Venho aqui para penhorar meu tesouro para ajudar mamãe que precisa muito de dinheiro e veio ter com o senhor ontem à tardinha, às escondidas para que nós crianças não soubéssemos dos apertos que andam... O velho ficou trêmulo, parecia que iria chorar, meteu a mão no bolso retirou a nota e me entregou dizendo:

VELHO OFF
__ Toma minha querida. Leva para sua mãe. Diga-lhe que deve ficar muito grata a Deus por ter uma filha como você... Existem anjos que aparecem para nos ensinar a viver! Vai em paz minha criança.

MARIQUINHA
__ Minha parte eu fiz, sei que de tua boca não sairá nenhum comentário, mas caberá a você entregar o dinheiro à mamãe e vai levar também meu pote de vidro que guardo as moedas... Vai?

CATATU
__ Você foi tão decidida... Eu já pensava em conseguir um emprego para então ter um salário para então ajudar papai e mamãe.

MARIQUINHA
__ Mas isso ainda é parte de meus planos... Não sucumbiremos, vamos manter nossa família unida mesmo na queda dos fatos...

CENA V

MARIQUINHA
__ Está feito e pronto, sem arrependimento... Meu dever como filha foi realizado e estou feliz, apesar de estar sentindo falta de minha boneca que tanto desejei, e levei tanto tempo para ganhar... Aqueles bracinhos de borracha molinha, macio, os vestidinhos, a escovinha de cabelos, cabelos loirinhos como ouro, o espelhinho, os sapatinhos, que belos eram, no próximo mês eu já planejara compra retalhos e fazer novas roupas, bem coloridas, bem como comprar um carrinho, tudo isso juntando minhas moedinhas... Pobre Lilica, em breve te buscarei... (Olha pela janela) Me senti como aquela velha senhora, uma dor tão grande invadiu meu corpo. Mas minha boneca?! Vou imaginar que a perdi, ou que foi para o céu igual à vovó... No céu deve ter coisas tão bonitas... O que me importa é que mamãe vai ficar contente com nossa ajuda, somos filhos e devemos ajudar. (Perambula pela sala e encontra algo da boneca) Olha aqui está a mamadeira de Lilica... Deixe para lá... Mamãe sempre diz que quem dá recebe em dobro, quem sabe um dia não tenha eu duas bonecas iguais à Lilica?! Vê ela está na vitrine como a me olhar... Oi?! Consegue me ver?

CENA VII

PAI
__( Aparece ao canto com o menino, andam com cuidado, para que Mariquinha não os vejam, diz em sussurro) Menino chama tua irmã e mostra-lhe este livro de figuras, quero que enrole por alguns minutos, conto com você.

CATATAU
__ Pode contar sempre comigo.

CENA VIII
CATATAU
__ Mariquinha... Vem ver o que papai mandou para nós...

MARIQUINHA
__ E então que me diz? Mamãe?

CATATAU
__ Você não imagina a alegria de mamãe, a tanto que eu também lhe disse que iria penhorar minha bola, mas que já está muito gasto o couro.

MARIQUINHA
__ Fico feliz por mamãe... E este livro? Quantas figuras...

CATATAU
__ (Colocam o livro sobre a mesa e ficam lado a lado olhando e comentando as figuras) Papai disse que vai nos levar fazer a carteirinha na Biblioteca Municipal, disse que lá tem muitos livros e para emprestá-los é muito fácil...

MARIQUINHA
__ Olha aqui... Um príncipe... Deve ser o Encantado....

CATATAU
__ É sim... Ele vai agora acordar a Bela Adormecida...

MARIQUINHA
__ Essa moça era uma dorminhoca, dormiu cem anos... É muito tempo cochilando, não é?

CATATAU
__ Vê este aqui? É a o príncipe enfeitiçado da história da Bela e da Fera. Olha aqui está a Rapunzel, que longo são seus cabelos...

MARIQUINHA
__ Imagina o que gastaria com xampu, não é? E fazer estas tranças?


(O pai entra escondido entra e se coloca em pé a um canto segurando um embrulho).

CATATAU
__ Que pena não é que não existam mais fadas e varinhas de condão...

MARIQUINHA
__ o Professor Abilio ensinou a fazer nas aulas de teatro. Seria bom se fossem verdadeiras...

CATATAU
__ Por quê?

MARIQUINHA
__ Ora... Eu faria aparecer um cofre cheio de dinheiro para dar à mamãe e ao papai. E ia buscar minha boneca correndo...

CATATAU
__ Gostas tanto assim de uma boneca?

MARIQUINHA
__ É como você com sua bola, não é? Está toda gasta e velha, mas você não a larga.

CATATAU
__ Você está triste por causa disso? Falta da boneca?

MARIQUINHA
__ Por que me fala dela? Eu não quero pensar nela e não quero, mas vê-la...

CATATAU
__ Não fale isso, ela te escuta... Ainda vai despir sua roupa, dar banho na bacia e vai lhe costurar roupas novinhas, não é papai?

(A menina volta-se e explode).

MARIQUINHA
__ Papai, minha Lilica...

CENA IX

PAI
__ Deus vê tudo que fazem, sabiam? Esta manhã o que ouviu foi o relato de sua mãe contando um sonho que teve e que a fez acordar na noite. Mas este incidente nos deu a conhecer a sua alma e a de teu irmão, você não hesitou em sacrificar algo que gosta muito para auxiliar sua família. Obrigado meu amor, vocês hoje encheram nossos corações de gratidão. Aconteceu algo maravilhoso. Pois Leão, o velho sorridente e narigudo é meu velho amigo de infância e logo depois que saiu de lá ele me telefonou para me contar e para devolver a sua boneca com lágrimas aos olhos. No mesmo instante sua mãe entrava se esbaldando de alegria e também em lágrimas, Carlinhos acabava de lhe entregar os vinte reais e até seu cofrinho de moedas minha filha, ela foi-me contar a história... Juntos choramos, por termos em casa filhos tão cheios de solidariedade... Que Deus os conserve sempre assim.

(Os três se abraçam).






Fim

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou do texto se foi doseu agrado e ofereça sugestões... Obrigado.