domingo, 17 de maio de 2009

O datilografista



O datilografista...

De Abilio Machado de Lima Filho falando de todas as suas facetas de Abilio Machado de Lima Filho, de Poet Ha Abilio Machado, de Akiko Poet Ha, de Zeka Netta, de Pouka Lourri, de Bibi Machado, de Rutilla Montfort.

Qual nome me daria?! Como eu me chamaria?! Às vezes me considero um prelúdio idiotizado de mim mesmo, que adentro as horas sentado à frente de um teclado, escrever transforma-se em arte, fazer arte me deixa muito cansado, esgotado de tal forma que começo a vazar entre meus delírios, sonhos que se fundem com a cruel realidade.
Porque a verdadeira arte é um sacrifício?! Porque fazer arte torna-se tão grande e tão assustadora quanto o mundo, é um elefante sobre a cabeça, é carregar toda uma cidade às costas e ainda tal e qual um escravo ser chicoteado, pisoteado e abandonado. Só os que não entendem nada de arte é que se consideram artistas?! Quem é capaz de classificar o que é ou não arte?! ... Porque nas entranhas o ser fazedor de arte sabe reconhecer que a arte é uma dor. Uma dor dilacerante. Algo que divide, rasga, sangra e impulsiona...
Assim busco a cada letra enxergada ser salvo pela palavra, pela frase, pela oração, sujeito, adjetivo, advérbio, artigo, consoante ou vogal... Pelos livros minha viagem começa, eu desapareço pelas páginas amareladas, mofadas pela umidade de tantas lágrimas necessitadas de luz que passearam com dedos finos, longos ou grossos, engordurados... Livros que tão sofridos se expuseram ao externo do peito relatando o que o coração sentia.
Escrever o lenho da posteridade, e eu me acho também sendo lido em meu pensamento, sentado sobre um caixote de banana, de calção de tergal azul petróleo, com duas alças a cruzarem as costas sobre a camiseta surrada por ter passado por vários irmãos e irmãs. Ali cabelo cortado ao estilo estudante quem não lembra?! Ali com a lancheira e a pasta plástica ganhada depois da humilhação na frente de todos os alunos na escola, Ah... Já a chamaram de melhor diretora de colégio, mas ela tinha este algo a mais, chamava os pobres na frente de todos para lhes dizer o quanto miseráveis eram e de quanto precisavam dela para se manterem na escola pública, será que esta diretora se reconhece agora?! Ali sentado na calçada fria e molhada pela recente chuva devorando como quem ambiciona matar a fome ou a sede. Debruçado de olhos e vida sobre a aventura de um menino que podia fugir a outro mundo, longe da dor da pobreza, das precisões, das surras, dos desassossegos...
Sou talvez alguém que escreve perturbações, me alimento de minhas migalhas recebidas ao longo do tempo que caíram da mesa de meus senhores, não feudais mas senhores políticos do planalto central, pequenos pedaços empobrecidos e apodrecidos das minhas próprias personagens, sou talvez um ator que acaba absorvendo lições destas personagens que me surgiram nas madrugadas assustadoras, inebriantes ou totalmente insanas. Que acaba por viver parte destas vidas que se apresentaram...
Escrevo assim porque tenho boca grande demais para conter minhas verdades, em busca de vida, caso contrário eu não me possuiria, não me faria carícias, nem mesmo cantaria à lua, nem embalaria minha prole dizendo cantos a Deus. Afogar-me-ia em minhas lembranças se não as expulsasse de dentro de meu cérebro.
Ao escrever eu renasço, eu me livro de algumas cracas que se alojaram não só ao corpo, mas como também à Alma. Escrever é ressurgir entre as cinzas dos acontecimentos que feriram meus dias e acabaram por me moldar assim, tal e qual. Sinto-me e muito às vezes. O corpo é parte do tudo, meus vacilos levam meus segundos aos olhos que lacrimejam e minhas mãos tremem pela ira que é insurgida, difícil de conter, lágrimas e raiva, o tom da voz e o medo...
Hahahahahahaha...
Fui domesticado com medo, meu lar, minha escola, minha vizinhança, todos os lados me escorraçaram, tentaram me manter lá embaixo e todas as vezes que me sufocam eu luto, é fácil de me ver, vez ou outra minha cabeça se faz levantar com os olhos entremeando na multidão, vez ou outra minha mão levanta pedindo a vez para ir à desforra, pura angustia de quem vive apanhando dos poderes que regem a vida. Vez ou outra minha voz não me obedece e rouca, grave e cheia de defeitos de dicção se fazem ressoar pelos mais variados ambientes. Não é fácil... Não!
Escrever, fazer arte, pintar, poetar. Como também não é fácil, ser homem, marido, cidadão...
Escrevo mais do que falo, quando me sento á frente das teclas meu pequeno conservador de massa cinzenta entra em transe e os poucos dedos que trabalham. Trabalham pra cacete...
Os assuntos vêem...
Falo comigo mesmo, levanto, dou voltas pela saleta, olho minhas pinturas na parede branca e usada, tento ver se a calma me distrai, ou se a ordem é esta ou aquela... O eu de meu eu é eu quando escrevo.
A cada personagem cifro definições, e discuto com eles, manifesto minhas vontades, exijo, sou ali o tudo, sou um submisso às vontades deles, esses loucos fantasmas que nascem de mim e vem insaciáveis aparecendo à minha frente e misturando o eles e o eu e o eu com o eles.
Quando estou a criar um texto, uma história, um conto, uma crônica, uma poesia, fico como uma grávida que embala um alguém que está para nascer, fico ansioso e bravo, que regateia com o destino e que vibra, sai e vai sambar de alegria escutando uma rádio, muitas vezes gospel, para que as orações e hinos aplaquem aqueles insurgidos que vomitam suas revoltas através dos incansáveis dedos que saltam sobre as teclas como a marcarem passo lento e rápido dentro de um quadro de dança contemporânea. Sou eu em sacrifício.
Muita destas longas criações quer ficar só, dispenso a esposa para a casa da sogra, fico nu, faço jarras de suco, e me perco na trama do que me sou, nu e de pele eriçada pelo frio do sul.
No passado eu me perdia sobre taças de vinho demi séc, Martini com azeitonas, uísque e bacardi, achava que precisava destes auxiliares para escrever, como era um idiota. Depois que não mais sorvi o néctar dos enganos ou me levei na fumaça da ilusão, eu nasci livre para me ser, me ter, me conquistar, me conhecer... Depois de livrar-me da prisão em baseado tosco, de marijuana misturada com bosta de vaca e da branca noiva assassina travestida em pó, depois de livrar-me de amarras etílicas eu descobri que as palavras vêem do céu, que são como dádivas divinas a abençoarem a memória, coisas perdidas emergem.
Cada dia é necessária mais força: para se manter na loucura natural que é meus dias; mais coragem em não ir para o lado negro da luz acompanhando Dart Wegan; mais vida a preencher com a vida das filhotas que me servem de exemplo de vida e dedicação; para agüentar as perminiciosas espicaças que são jogadas quando passo de pessoas vestidas de falsidades; para suportar não chutar o pau da barraca ou virar a água do balde e deixar que o mau se crie, pois muitas vezes ele é contido para que não apareça em forma de mais um ser contra o monstro da injustiça, da ignorância, da insensatez e do desleixo do ser humano que luta e reluta todos os dias e que está em mim.
A cada dia que nasce o grito:

___ SÓ POR HOJE, NÃO!



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