quinta-feira, 11 de junho de 2009

Coisa que o poetha escreveu nas areias do tempo...

‘Coisa que o Poetha escreveu nas areias do tempo... ’

Por Poetha Abilio Machado.

Antes de vir aqui... Andei perdido em meus pensamentos, caminhei à toa pelos labirintos da minha mente, pensei sobre a minha vida até este momento, momento... Apanhei uma lágrima no canto do olho, saía furtiva no instante em que lembrei de você em meus braços a dizer as juras que acabou não cumprindo, você e as tais promessas que eu acreditei e me entreguei aos teus afagos e beijos deliciosos, na sua pele e no seu suor doce de beleza oriental... Como se a cada abraço eu estivesse reverenciando o próprio sol...
Antes de vir aqui... Andei pelo camarim sentindo o doce azedume místico das misturas das maquilagens, o cheiro do pó para que a face não brilhe depois da base aplicada nos pontos de luz, da madeira do lápis que puxa os olhos. Cheiro de roupas guardadas, do calor do ferro quente, o reflexo de luz azul em causa da penumbra para que não se estoure nenhuma luz branca aos cantos da coxia ao palco...
Antes de vir aqui... Fui também ao banheiro, dei minha aliviada, lavei as mãos... Antes e depois... Sempre respirando sobre o apelo e o apego desta minha personagem. Me olhei, na passagem, refletido no espelho, sorri para mim ou para ela, não sei, passei as mãos em meus cabelos, ajeitei minha roupa ou a roupa dela, não sei, fiz minha oração com as mãos espalmadas sobre o balcão e olhar fixo em mim mesmo.
E antes das palavras surgirem novamente você me surgiu em perfeição plástica a me fitar os mesmos olhos da primeira vez em que te vi, serpentina a cruzar vez ou outra meus caminhos durante um exercício teatral, eu havia ido aos meus primórdios do absurdo, colocara sobre uma túnica partes humanos confeccionados em espuma, olho gigante, orelhas enormes penduradas ao corpo da roupa, uma peruca hedionda, e sob ela um festão e a cada sala que terminava de recitar: ‘E ao lugar que queres me levar eu não vou, por que eu sou homem, homem que sou...’ E levantava a barra da túnica causando furor entre a assistência. Você andava em si sem saber o texto fingindo-se de louca sem exterior, apenas presa em si, da mesma maneira em que te vi em meus sonhos, calada e cabisbaixa, sofredora ao coração e à solidão.
Éramos jovens... Éramos... Ambos rebentos expulsos de outro inferno e ardentementes esperançosos para adentrar a algum paraíso de abraços, corpos e beijos. A primeira vez que nos olhamos de maneira mais ousada, você parecia ter um segredo sobre mim que me deixou curioso, e fui saber que naquela noite havia me visto pela janela trocando de roupa e eu estava apenas de cueca, uma cueca azul da cor do céu, que iluminou o seu céu, que me fez ser seu?!
Antes de vir aqui... Lembrei de nosso primeiro passeio, eu e você, com nossas respectivas velas, eu levei o afilhado e você seu irmão... Assistimos: ‘entre duas mulheres’ no então começando Teatro ali na Carlos de Carvalho que não me convém citar o nome, tudo assim funcional até mesmo a garoa na saída, o frio e meu braço para você enganchar e ir à contra mão até o seu ponto de ônibus para então retornar.
É por esta e por tantas outras que eu me refaço em oração e me deixo levar aqui neste momento...
Antes, bem antes... Quando foi pela primeira vez até minha casa, e jantou de minha comida, havia prometido a mim que não a levaria para cama, você não... Não seria como as outras que já provaram da minha mesa... Assim te levei para o terminal e o ônibus foi deixando você dentro do tubo, lembrando o motorista foi canalha, último ônibus e espera você entrar no tubo para arrancar e te deixar. E na volta voltamos caminhando e eu sentia seu medo, seu cheiro e a caminhada, e tudo foi bom, a caminhada e sua preocupação, a suave pluma... Uma noite intranqüila e a caminhada... Os acasos, os abraços, os beijos, os desejos...
Antes de vir aqui eu chorei... Ao lembrar... Dos nossos momentos arrebatadores na sala, no chão, no chuveiro, quando ainda eu podia levantar seu corpo em meus braços e fazer amor... Que amor!
Onde está? Onde estão seus cabelos encaracolados que me deixa banhar? Onde estão seus dedos a me procurar, a palma da mão a me cercar e me causar delírios... Onde? Onde? Aqui agora a escuridão me consome e meus medos da solidão me castigam como os açoites do tempo, como se o meu calar no escuro me protegesse do medo.
Antes de estar aqui eu quizera estar em teus peitos, queria mesmo era estar dentro no batimento, no compasso, nos passos, na corrente do sangue, tão quente quantos teus lábios, sedentos, ardentes, sementes... E eu demente!
Era estar ali a procurar nas dobras da pele, na respiração dos poros a sugar as gotas do seu suor com gosto de maçã... Em flor da manhã!
Queria era absorver os teus ais e me envolver neste verde que me acompanha, olhos, apanha meu jeito meio sem jeito de te amar... Armar!
Língua viscosa que sobe pela sua orelha.
Dentes que mordem a nuca...
Nariz gelado que arrepia...
Pés gelados aos meus...
Antes de vir aqui lembrei que o relacionamento é mais que prazer enlaçados em braços e em cheiros de bares, nos conservantes das naftalinas do passado exacerbado do palato salgado ou do extremo do sob de... Que imundo... Que inundou... Os pilares das sobras de ontem nos pratos plásticos e copos descartáveis...
Percebi antes de vir aqui que analisava você em mim e eu mesmo em mim, um antes e um depois, um fato a dois... Há vida, a presença, a falta no cotidiano, eu e você.
Minha rotina saiu de seu eixo havia você.
Os sons às vezes parecem ser parte do sol e do céu, mas ás vezes algo me mata, e como Gibran aceito os trovões nesta tempestade que saíram e ás vezes ainda agulham meu peito. Assim já aconteceu e retornam de vez em quando a assombrarem noites e pensamentos nos dias distantes...
Como reconhecer você em mim, a apalpar meus sonhos ligeiros, a invadir meu silêncio e minha voz...
Inflama-me a memória dos meus antepassados a colocarem as mãos sobre nós e abençoar-nos com o fluxo da luz azul... A luz da arte!
A dor da sua ausência ataca-me, toda vez que acordo e estou só. Onde está?!
Quando aperta demais, sinto que está ali ao meu lado, no trabalho, ou na mesa a dar colheradas sôfregas como às de Verônica em sua marmita requentada de trabalhadora operária e os dias se apresentam com tua sombra a me seguir e sua voz a me atormentar no deserto de meus lençóis.
Antes de estar aqui me livrei das amarras do tempo, me despi de mim e pisei no solo sagrado da vida, antes de estar aqui dobrei as pernas e me deitei por terra para sentir a verdade da mãe natureza, para que ela mãe e vida me aconselhasse como olhar o seu peito sem sentir a necessidade de abrir o meu e dele fazer sair o meu coração para que você o visse, para que todos vissem como ele chora e sofre por você, por tanto amor, por tantos desejos, por tantas coisas que me fazem ficar perdido nas travessas obliquas do cais.
Bem antes de vir eu atravessei o mar de minhas duvidas e quase me afoguei em minhas lágrimas, lágrimas de saudade... Saudades de tê-la em meu seio, um amor por inteiro!
FIM.

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