quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dona pobre

Dona pobre

Miúda senhora, viúva, andava de chinelo havaiana que um dia foi verde e estava apertado pelo pedaço de arame colocado na sola para segurar a tira.
Tinha pernas finas, curtas e tortas, era bem magra que lhe surgiam desde pequena alguns apelidos como graveto, palito de dente, alfinete.
A planta dos pés haviam rachaduras de andar sempre com aquelas chinelas, mas sempre dizia: Deus não quis que eu encontrasse jogado na estrada um par com mais disposição de uso.
Tinha a pele toda marcada por pintas que lhe apareciam como que a decorar a pele enrugada entre aquelas veias largas e crescidas e azuladas, os cabelos cãs lhe forçavam a mostrar que os anos passados não lhe foram gentis e sua caminhada já fora até então longa demais para aquelas pequenas pernas...
Tinha uma fissura não podia ver um espelho que logo parava, fazia nele pose e se olhava, olhava de frente, de lado, dos pés a cabeça. Passava as mãos aos cabelos, na cintura e se via no passado...
Houve tempos em que era pequenininha e bonitinha, recebia assovios, tinha peitos firmes e que cabia em qualquer mão, a bundinha era arrebitadinha, sempre se depilava, usava maquilagem um pouco de pó, sem sombra e só o baton. Usava umas mini saias que tiravam elogios dos transeuntes por onde passava e os cabelos eram lisos, negros e longos que lhe deixavam longas tranças a lhe cobrir o colo.
Agora quando se olhava uma lágrima lhe surgia ao canto dos olhos envelhecidos, os peitos haviam sumido sob aquela regata azul escura ganhada no serviço social, os cabelos estavam tão brancos estavam desalinhados, os dentes que antes eram de um sorriso pleno agora continham poucos remanescentes naquela boca fedorenta de um cigarro aceso atrás do outro, cigarro ora de palha ora de papel comprado e na maioria das vezes feita de bitucas que recolhia na fila do posto ou na frente do botequim do seu Osvaldo que tinha às vezes bom coração jogava uns cigarros quase inteiros para que lhe cedesse o prazer de vê-la ter um sorrisinho tímido ao tragar fumo de verdade.
Ficava assim nos cigarrinhos improvisados, fumo de bituca e folha de papel de caderno escrito, coisas que achava por ali jogados, às vezes conseguia juntar uns trocadinhos e corria para a venda e comprava um pedaço de fumo de cordão, e passava a tarde toda num ritual religioso e concentrado para cortar os nacos gosmentos com a faca que não tinha fio.
Mas ela tinha nisso um grande segredo, ninguém na casa sabia que ela era assim viciada, como os meninos malacos fumava seu paieiro nas escondidas era de cócoras atrás da cerca ou escondida no canto da casa, tinha nisso uma grande aventura, tanto era que quem de longe assistia parecia que a cada tragada tinha um orgasmo e em cada tragada um gemido de prazer. Sempre quando alguém da família quase a pegavam ela fingia alguma coisa que catava algo no terreno, ou que fazia ali um buraco, ou que limpava o que surgia de mato, ficava apavorada quando olhava o saco de fumo e via que havia pouco das bitucas que juntara e saía andando rapidinho pelas ruas da comunidade atrás de mais uma ou outra que lhe surgissem aos olhos.
Era conhecida como a Dona pobre, mas era respeitada e bem querida, não falava mal de ninguém e nem lhes dava ouvidos, tinha só dois defeitos na vida um marido de quem apanhava e o vicio das quimbinhas jogadas. Recebia os filhos quando vinham com um olhar desconfiada, achava engraçado aquelas criaturas todas chegando em carros ou motos fazendo aquele barulhão.
Olhava os filhos crescidos e não conseguia sequer lhe permitir pensar que tais homens daqueles tamanhos lhe tivessem saído daquele seu corpo miúdo, que aqueles seres grandes e gordos ela os tivessem parido.

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