quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

mama gorda

Mama gorda


Ela pessoa adorada de muitos defeitos, quase não se achava em qualidades seu arsenal de palavrões sempre prontos para verbalizar seus pensamentos profanos ou não, gostava de comer, comia escondido, sorrateira, abria as tampas das panelas bem de mansinho para que dela não surgissem ruídos.
Também tinha o costume de engolir por inteiro os nacos do alimento para que não a descobrissem, vigiavam seus quilos mais que suas próprias condutas, vez ou outra sofria alguns sustos, quando estava sentindo o cheiro dos doces que tanto gostava, eles eram como perfumes ao seu espírito.
Adorava espalhar-se nas tardes sobre a cama encostada em travesseiros fofos e assistir a sessão da tarde na TV, não gostava eram das fofocas mas sapeava a todo momento entre aquele programas idiotas de fofocas que não conseguia entender como alguém ganhava para fazer coisas sobre a vida de outros sem viver a sua, por isso gostava da sua. Comia à vontade, nas graças a Deus que dava agradecia sempre o marido.
Ah o marido, Joãozinho, sabia que ele vez ou outra lhe colocava um bom par de chifres, mas o que a ela importava que quando ele precisava dela ela o aceitava sujo ou limpo, fedegoso na chegada do trabalho ou cheiroso depois do banho... Ele dizia algo como ‘vamo deitá’ e ela já ficava toda molhadinha que só...
Não que ele fosse bonito, não. Ele era na verdade o seu galã, era o seu preferido de sempre, foi o primeiro e continuaria sendo sempre este deus na sua cama, na sua cozinha e na sua despensa cheia. Adorava quando ele chegava suado e a convidava para ir esfregar suas costas, gostava de ensaboar ele todinho como se fosse seu filho crescido, e ela lavava cada cantinho deixando ele todo ouriçado e com olhos de desejo.
Vez ou outra dava uns gritos para que os filhos não perdessem o respeito, mesmo com a boca cheia de pedaços de pão, tinha um sorriso meio confuso e as bochechas gordas, sempre brigava consigo quando esquecia nos bolsos das roupas bolachas que se moíam na hora da lavagem, e os biscoitos endurecidos que vez ou outra surgiam mofadas em gavetas e fundos de armário.
Era assim desde pequena, tinha uma necessidade de colocar coisas á boca, de sentir o estômago sempre cheio, saciado e querendo mais, era uma afronta ao cérebro deixar a fome apertar, então enchia as mãos antes que acabasse o que tinha na mesa ou no pacote, sempre, coisas que a sua mão lhe batia e muito dizendo ser falta de educação e para ela falta de educação era sentir dor de fome, ninguém merecia sentir dor de fome por isso toda vez que dava notícia de pobreza na favela ou em outros países ela chorava copiosamente e comia, tinha esta ansiedade de não querer passar por aquilo, não queria mesmo, nunca.
Agora estava na janela, vendo um grupo de senhoras passeando, entraram no modismo de saírem caminhar para baixar o colesterol e aquela palavra difícil: triglicerídeos. Mas ela não, não ia perder tempo, vai que enquanto estivesse fora as crianças entrassem e pegassem seu bolo de chocolate que fizera com tanto mimo e que já comera a metade, ou destrancariam seu armário no quarto e atacassem suas bolachas recheadas e aqueles cockies importados e tão caros.
Não.
Não dar-se-ia ao luxo de se ver sem seus copos de achocolatado bem morninho que gostava de tomar de canudinho...
Não.
Decidida ficaria ali encostada na janela vendo o mundo passar se quisesse ele que ela participasse viria em forma de doce ou de um salgadinho gostoso: coxinha, risoles ou bolinho de carne trazido lá da Márcia Café.

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