quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sem chance

Sem chance
(diário de mortis insana)
De (Poetha) Abilio Machado.


(os dois estão no centro do palco, o figurino convincente de sua mortalidade, como uma coreografia de ‘ mortos vivos ‘ dançam em harmonia, dramatizam aos movimentos, dentro de uma grande bolha que remete à placenta).

ELE__ adivinhem quem sou... Estou nervoso, estão dizendo que está perto a hora. Como estou ansioso... Ela também parece, está nervosa, alguém gritou, quando sair daqui vou dar um jeito nisto, essa voz grossa vai ver, vai ver... (chora também ao seu lado, ela movimenta-se como num despertar).

ELA__ Uhmmm... Eu quero ficar aqui... É tão gostoso, essa sombra que passa, fazendo ondinhas, passa um carinho, emite tanta energia... Ela de vez enquando conversa comigo, diz que já sabe o que eu vou ser, uma tal de menina... Hoje uma voz fez o coração de ela bater forte, rápido sinto ela cansada, um tal de homem falou algo a ela, fez ela chorar, temo, tenho medo. Ela treme quando ele fala...

ELE__ Mas ele vai ver... Olha ela está chorando... O que será este tal de aborto será que esse vai ser o meu nome... ei! Dona, esse é nome feio, procura outro, tipo Sean Conneri, Rupert Everet, talvez algo brasileiro, de várias línguas: José, Antonio ou João?

ELA__ Eu acho que me chamaria... Não sei, acho que só menina já é bonito, mas e ela? Como é o nome dela? Tem cabelos longos, as mãos delicadas, a voz que canta me faz dormir... Diz assim: Dorme neném...que o bicho vem pegá, vai chegá todo bêbado e vai vim só brigá... Não sei porque mas eu não gosto disso.

ELE__ Gosto quando ela diz:que a cuca vem pegá... Ora bolas eu sou espada, (pose de machão) Quero sair daqui, quando sair esse coroa vai ver só... Ele outro dia exigiu que ela tirasse a gente na marra, na força... Eu me ofereci para ir na frente, mas o clone aí vai primeiro e eu tenho que ajudar a empurrar... Como será lá fora, deve ser o maior barato, adoro essa música, vocês estão ouvindo, dá uma vontade de levantar os braços e sacudi-los... Fazer uns exercícios, mas estamos numa falta de espaço aqui... ( musica Eyes the tiger).

ELA__ Eu já gosto daquela que faz a gente chorar, aquela... Parece valsa, parece uma melodia que embala, e a gente dança aqui (luzes trepidam e eles dançam) Oba. Vamos sair.Acho que ela não quer ir.

ELE__ Não esquenta. Ela vai levar a gente tomar sol lá no parque,lembra que ela disse vocês vão brincar ali, tem uma tábua, duas cordas, uma trave, pintada de amarelo, vermelho, verde. O que será esse tal amarelo, vermelho e verde? Muito doida esta parada... Lembra? A gente tentando olhar e não dá só aquele tipo plástico na frente...

ELA__ Foi neste dia que nós descobrimos o nome dela. Ela disse: Não se assuste,a mamãe vai contar como é aqui. Você disse que era assuste.... e eu disse que era mamãe. ( diz eufórica).

ELE__ Mas ela disse para a voz grossa, aquela que só fala gritado: Não assuste as crianças. Eu não tenho culpa, eu tenho medo. Deus vai me castigar ou não, aqueles gemidos que dava, nem quero lembrar, quase morri com falta de ar...

IIº
( Batidas, correntes arrastadas, portas batem, trovões e relâmpagos, tempestade. Os dois vão encolhendo e as luzes vão se apagando vagarosamente, de lado oposto a figura de um caixão e iluminada, a música é fúnebre).

__Pracênodo é meu nome, preciso dizer algo... Sobre violência, essa violência, gratuita que fere o espírito e o corpo, fere a mente e a moral, fere a pele e o sol... Ouriçados humanos como pulgões depois da grama cortada, gritam em alvoroço, a floresta devastada, oh sim, o matagal afogava a grama boa que vez ou outra ressuscitada em pequenos tufos de alegria, ora aqui e ora acolá, em pequenas instâncias logo após o sexo que fertilizava aquele canteiro chamado útero. e nossos verdes gramados cheios de vida me lembram futebol, dos tempos que jogava-se por diversão e não para ganhar alguns milhões, dos apelido, arranca toco, unha encravada dedão torto... A vida é como as gramíneas que vez ou outra tentam avançar sobre seus pequenos talos branquinhos e fracos e são cortadas rentes á raiz, talos pelados à procura do céu. O feto cheio de afeto na raiva incontido ou da conseqüência que é. O ronco do motor elétrico a pá triturando o caule de pequenas e tão indesejáveis pragas... Aparência. Quintal limpo, a enxada rasgando a terra, sugando a vida das pestilências, as mãos poderosas agarrando, estrangulando e arrancando. A família limpa. Aventais brancos, máscaras, anestesias, vidas perdidas. Quase imperceptíveis gritos natos, ouvidos apenas pelos dons da terra... são animais traçando uma luta eterna pelos vãos dos espaços, difuza lembrança do espírito que á foi, seria forte e astuto, experiente ou elegante ou malogrado de sexo indefinido entre o fio e as pernas do homem eu derrapa em seus sapatões...Na dor que viu, nador que sentiram, que cala e clama, que lhe pergunta se vê... Que fazer pra acabar com essa impaciência, essa miséria dos que tem tudo, daqueles que não enxergam esta luta de sobrevivência no espaço da dormência, daqueles que são iguais e não se sentam juntos à mesa, como cães largados ao pés do absoluto, uma procura vazia, insana beleza. São capas brancas de projetos ultrapassados, ilustrações pornográficas fracassadas nas masturbações feitas no banheiro ou nas madrugadas, E o povo são meus brinquedos quebrados pela maldade de destroçar seus pedaços: braços, pernas, cabeças, cabelos e restos, nas rodinhas tão pequenas e o carrinho pisado, amassado e os bonecos brincando de lutinha como power ranger sobre a cartolina com fotos de Campo Largo, sou agora detentor dos poderes de governo e de estado, de fato, virei político, fui votado e agora sou todo mais eu, não sou mais sacrifício, sou dono, sou empresário, nem me venha falar de que a vida precisa de mim antes que acabe, o amor não foi meu e tampouco perdido fui eu, que se resolvam, do esperto ao otário, sei que o mesmo que me elogia amanhã toma a moeda e me condena... E aos poucos vou me aprendendo, acordando e me descobrindo...

IIIº
(O som agora é tão friccional como o texto, as cores das luzes se transformam em pura representação de humor, a cada frase, a cada briga deste inconsciente).

ELE__ Tudo bem agora...

ELA__ Por que...

ELE__ Sua família não iria suportar...
ELA__ A família ou você! Mas eram meus...

ELE__ De nada adianta...

ELA__ Esse horário, o santo ainda está ali mesmo ao por do sol, os seres esperam, querem servir pratos quentes antes do jantar, meu dote é a dor, sou figurante deste teu projeto de manter aparências...

Ele__ Tome a passagem e vá... Eu te disse. Você não quis, então assumiu as conseqüências, é estranho você ficar rezando aí a este santo, deveria rezar para o povo que em breve nos dará o poder nesta vila novamente, fica aí fazendo de conta que está deprimida, mas no fundo está aliviada, louca para sair pela janela e ir banhar-se na cachoeira na colina do bugre, (lascivo vai até ela) Só de lembrar você e aquele sujeito nus deleitando-se na água fria que desce a Serra, das mãos dele tocando o corpo de minha... (ameaça tocá-la e se contém) Só que devo te dizer que seu amor aflito está em outro mundo vendo a grama nascer por outro ângulo...

Ela__ Você... Você... (tenta agarrá-lo)... (o tapa ecoa)

ELE__ Uhm... (ela chora) Agora cale-se, engole este choro, lave este rosto e vá para a sala, temos visitas...(ambos preparam-se, ele ajeita a casaca surrada e ela assoa o nariz, empoa a face abrindo a velha frasqueira, tudo naquele ambiente reflete a uma passado e cheiro de mofo, rotos e com teias). __ Afinal não há nenhuma chance, jamais tivemos, quem somos... O que seria de nós... O que seria de nosso nome de família... O que seria de nossas posses...

ELA__ Se não fosse a aparência?!

(Ele põe o dedo sobre os lábios em sinal de desaprovação, e o outro apontando a direção, ela abaixa o olhar e segue o caminho indicado).

FIM...


Elenco:
ELE
ELA
FETO I
FETO II
PRACÊNODO

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou do texto se foi doseu agrado e ofereça sugestões... Obrigado.