sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Viagem infernal...

Poet ha Abilio Machado.


“O sonho pela riqueza fácil levou um homem a aprender que não se deve embarcar em qualquer aventura... Assim era Sinhô, um aventureiro, sobrevivia com pequenos biscates, mas sempre que sabia ou desconfiava de algum local, que lá poderia ter alguma panela de ouro, abandonava o trabalho e ficava dias cavando. Voltava para casa sempre alimentando seu sonho...”



E naquela tarde resolveu parar no boteco, dar um dedo de prosa e limpar a garganta. Assim ouviu uma conversa que o deixou esperançoso.
__É como eu to dizendo a vóis mecê. Ele encontrou foi um punhado de patacão, tudo de ouro, ali no barrancão, pertinho da plantação de feijão.
A sua noite foi de completa arrumação e planejamento, e ao dormir seu sonho foi recheado de brilhantes moedas. Mesmo antes de o sol nascer Sinhô já estava no local cavando seu el dourado, nada encontrando no momento resolveu alternar suas procuras com o horário de trabalho, e quase todas as tardes retornava ao plantio, cavando e revirando pedras e barrancos.
Logo o desânimo tomou conta e sabendo-se sozinho gritou:
__Já me chamam um louco, se for preciso, venderei minha alma pra ficar rico!
A noite cai sem que perceba, um ronco ensurdecedor arranca-o de seus afazeres. O velho estranhou, pois a rodovia BR-277 restava muito ainda a fazer para ser usada. Ainda assim, não se assustou com o enorme caminhão que parou ao seu lado. Foi ter com o motorista:
__Perdido moço?
__Não meu velho. Meu patrão manda-lhe um convite para que venha até sua casa. Hoje já estou cheio de convidados, mas na próxima sexta-feira, esteja aqui neste lugar e não conte sobre este convite a ninguém.
Então como surgiu ele desapareceu na escuridão. Logo depois apareceu uma pequena cachorrinha, toda branca, Sinhô deu-lhe o que restou de comida e o animal adotou-o e começou então a seguí-lo por onde fosse. A semana estava passando, os amigos de boteco estranharam as atitudes do velho, que quase não era visto escavando, e aonde ia divertia-se com as brincadeiras da pequena cachorrinha.
Finalmente chegou o grande dia, na sua ansiedade não percebeu que aquela sexta era dia treze, sem lua. Ao entardecer chegou e ficou aguardando o tal caminhão. As horas passavam quando ouviu o ronco estrondoso, olhou em seu relógio de bolso que marcava serem dez minutos para o meio da noite, zero hora, o horário do nada.
A pequena mascote de sinhô desaparecera como por encanto, ele embarcou, viu que havia outras pessoas, não reconheceu nenhuma, ninguém falava, nem mesmo quando tentava uma aproximação, puxar assunto, apenas um cheiro inebriante de enxofre, tentou uma olhada pela janela e só se via escuridão e alguns lampejos de tempestades e luzes avermelhadas no horizonte. Era um sobe e desce e horas que pareciam intermináveis e repentinamente parou. E todos foram convidados a saírem...
Frente a um grande portão, um homem atarracado organizava filas e todos seguiam os seus mandos formando algumas pequenas comitivas de pessoas seguindo alguém, quando veio-lhe a vez o homem falou:
__Este é nosso convite especial, siga por este portão!
Um pouco amedrontado acompanhou o seu guia, logo se viu diante de uma mansão, a qual estava em festa, risos, música e algazarra. Foi de pronto levado ao seu interior, uma sala grande revestida de ouro e pedras, as cortinas doíam-lhe os olhos de tanto que brilhavam, um homem bem trajado parecia ser o anfitrião e sorrindo lhe dirigiu a palavra:
__Aproxime-se sim?! Ainda lhe resta uma dúvida quanto ao seu pedido e `a sua oferta?
__Não, não senhor. – Respondeu-lhe sinhô.
__Então meu caro ali está... Acredito que é suficiente para que aproveite seus últimos dias em pleno conforto e se acaso estiver se esvaziando é só lhe cantar na bpca da botija as palavras que ensinarei, basta apenas agora assinar um contrato comigo e sua alma será minha, virá para mim assim que sua vida findar. Dê-me aqui sua mão esquerda, a que corre o sangue do coração.
Sinhô via diante de si, sobre uma mesa de cristal uma botija repleta de moedas de ouro e jóias. E o outro num movimento rápido lhe segurou o braço e agarrou com força e suavidade com dedos delicados, macios e frios. Com extrema precisão cortou a ponta do dedo mínimo de Sinhô.
__Agora assine, não pode mais recuar, pense só nas riquezas que vai possuir, e antes de ir ainda vai festar comigo e com algumas moças lindas e digamos quase virgens... – falava agora com mais firmeza, a voz não era rude, mas mais firme e desafiadora.
Em silêncio Sinhô pediu socorro: Senhor meu Deus perdoa-me!
Em seguida o latido se fez ouvir, a cachorrinha branca vinha ao seu encontro, meio trêmulo o velho acolheu o animal que lhe fazia festas, lambia e latia. Neste momento viu a verdadeira face de seu anfitrião que irado esbravejou:
__Insolente! Como ousou trazer para meus domínios um anjo? Um anjo escondido aqui?!
O homem perdeu sua elegância, não era mais o mesmo. Sua face tornara-se rude, de sua fronte brotou um enorme par de chifres, a mesa deu lugar a um poço incandescente de onde se ouviam gritos e lamentos, as paredes queimavam.
__Vá embora daqui... Leve esse ser luzente carregado de agradecimento e amor daqui, agora! – Bradou que se fez ecoar. - E vê lá velhote que até seu fim não tome meu nome de novo, pois da próxima talvez não conte com uma ajuda de tamanho poder e proteção. – Sua voz soava como a um trovão e seus cascos estrondavam no chão.
Em sua saída Sinhô sondou a casa que antes estava em festa, agora tudo ardia em chamas e no lugar de músicas e risos, eram agora ouvidos gritos desesperados, lamentos e pedidos de socorro... Instantes depois o velho encontrava-se sentado numa grande pedra à beira da rodovia 277. Olhou ao relógio que marcava sete minutos depois da meia noite, da zero hora, o horário do nada havia passado. O tremor ainda se fazia presente e num gesto de emoção abraçou forte a cachorrinha e foi para casa, com parte de sua roupa chamuscada pelo fogo.
No outro dia chegou a contar o que tinha lhe acontecido, ninguém lhe acreditou...
Porém não podiam explicar a falta da ponta de seu dedo mínimo em sua mão esquerda...
É amigo leitor cuidado com o que pede, pois quem sabe seu pedido não será atendido, numa noite dessas qualquer, numa destas ruas escuras e cheias de cantos escuros... Ehim?!

(Publicado pela primeira vez no Jornal Campo Cultural ano II nº. 04, coluna Folclore de Nossa Terra, pg. 02, fevereiro de 1997).

A corda do diabo...

Havia um homem num passado não tanto assim distante, muito rico, dono de terras, suas propriedades se estendiam desde a Serra de São Luiz do Purunã até perto da Serra das Almas, além de ter muitos escravos possuía uma boa mina de ouro, que lhe rendia o que ele achava o necessário para acobertar seus equivocados negócios.
Este homem era por demais ganancioso, por isso vivia entrando em negócios escusos, via que tiraria alguma vantagem lá estava ele a trocar um pelo outro e o outro pelo um. E desses maus negócios é que veio sua ruína, acabou por perder pouco a pouco suas propriedades, sua fortuna foi-se esgotando, seus novos empreendimentos foram dando errado, e ele perdendo até que se viu na mais completa miséria.
Uma tarde. Era agosto, sexta-feira, dia treze, ele saiu a andar pelas matas, até que parou ao lado do místico Rio da Conceição da Meia Lua. Estava injuriado, faltava muito pouco para perder até mesmo sua casa, sua carroça já fora, ficara apenas com a mula, manca ainda mais.
Pensava sentado à beira da cristalina água sobre sua sina quando um homem bem vestido se aproxima, este era o próprio diabo e o homem não o reconheceu de imediato.
__Que tem homem, que seu humor e sua tristeza chegam a ferver esta água que corre? - Perguntou-lhe o viandante, mesmo já sabendo do que estava acontecendo na vida do meliante.
__Para que irei te contar? – Respondeu de imediato com sua peculiar educação. – Afinal pelo que vejo não poderia nem mesmo me emprestar mais que um conto de réis. E eu preciso de muitos contos para sossegar.
__Mas, bem se vê que você é mesmo de mau trato amigo. Se eu lhe disser que me coloco à disposição de te tirar deste poço no qual se meteu, desde é claro que cumpras sua parte do acordo que fizermos.
A ganância do senhor era medonha e por isso mesmo aterrorizado com aquelas palavras, via-se seu espanto ao reconhecer naquele viandante o dono do reino de fogo e lamentações, pois este se deixou conhecer tal e qual, sua cartola deu lugar a seus chifres retorcidos, sua capa escura era na verdade suas asas de morcegos e suas botas pareciam agora um par de patas de cabra, seus movimentos ainda lhe eram graciosos, e de uma postura galanteadora, mas a voz tornara-se mais grave, como se viesse das profundezas de si mesmo.
__Que me diz homem, veja que não tenho a hora toda, há muitos a atender que estão de mesma tortura que você. Aceita ou não minha proteção?
__Pois meu desespero de agora me diz que devo aceitar sua proposta, contanto que eu enrique de novo.
__Isto?! É de pouco para mim, então assim terás minha sorte, de hoje em diante sairá bem de todos os negócios que fizer. E se, entretanto alguma vez se colocar em perigo, bastará me chamar e eu virei. - Disse o homem com um gargalhar assustador ao ver o homem trêmulo a assinar com o sangue de seu dedo mínimo da mão esquerda.
__Como vou chamá-lo? – Dizia tremendo ele.
__Deve apenas dizer: Meu bom Capataz Coronel Martinho, socorre-me! E eu aparecerei em teu auxílio.
Assim o vulgo capataz como surgiu desapareceu, aos poucos pela mata.
O homem antes de voltar para casa seguiu até a cidade, chegou já no meio da noite, certo que se roubasse conseguiria, já que contava com tamanha proteção, foi lá roubar.
Em cada casa que pretendia sorrateiramente entrar como que por encanto as portas se abriam de imediato, os moradores adormecidos nada viam ou ouviam, e uma luminosidade lhe indicava onde estavam os objetos valiosos.
Não demorou muito para ficar muito conhecido por seus roubos, saqueava os viajantes, propriedades e sua ambição voltava e ele começava a explorar outras cidades, atacava os tropeiros que pernoitavam ali em baixo na cachoeira do tamanduá, onde um jovem que era muito rezador disse que seguiria o coisa ruim que lhe roubara a saca de ouro que tanto custara para a família, pois era a herança de seu pai morto no sertão das serras dos campos gerais.
Saiu então e conseguiu com suas rezas fortes encontrar o homem com muitas coisas roubadas, aqui bem perto, nas Palmeiras, muitas vezes lhe fez tocaia, experimentava todas as rezas que possuía para prender o gatuno, pois como ele sumia dos lugares, entrava nas casas sem ser visto sem dúvida ele tinha algum acordo, certa noite de lua cheia, tudo muito claro ele armou uma gaiola de carvalho colhido no solstício amarrado com tranças de cebola molhadas em água benta, assim fez o feito.
Estava ele na delegacia improvisada e um tanto assustado exclamou apavorado:
__Meu bom Capataz Coronel Martinho, socorre-me!
Em pouco tempo o homem bem vestido veio e o retirou de lá, usando de suas artimanhas.
Assim que viu-se livre voltou ao seu exercício de furtos, cometia toda sorte de incursões, desde roubar doces de crianças na rua, à vista de todos, começava a se sentir um tanto acima da lei, por isso foi logo preso novamente. Como da primeira vez imediatamente chamou ao capataz.
__Meu Capataz Coronel Martinho, socorre-me!
O capataz veio, só que desta vez ele se demorou um pouco mais, não foi tão rápido como da vez anterior.
__Por que demorou? Não vê que fico apavorado com estes lugares?
__Estava eu muito ocupado. – Limitou-se a dizer o capataz.
Logo depois de liberto, sua vil conduta levou-o a cometer crimes, terríveis e audaciosos, até que a justiça guiada a investigação pelo novo delegado prendeu-o novamente...
De dentro agora da prisão angustiado chamou novamente seu protetor, mas este não veio. Os dias passaram, seu julgamento estava marcado, quando neste dia o capataz apareceu vestido de frade para libertá-lo. Em pouco tempo conseguiu nova liberdade.
O homem saindo continuou na sua horrível vida de ladrão, parecia que sua fome por ter mais não havia fim, que sua alegria ao ver seus vizinhos e conhecidos lamentarem suas perdas lhe faziam bem. Não tardou e lá foi ele pela quarta vez por um crime hediondo, por isso o infante daqui do lugar mandou-lhe levar à Paranaguá, onde ficaria nas masmorras aguardando a sentença final, era agora considerado muito vil e perigoso, por isso era rigorosa a sua guarda...
Sem se inquietar, muito seguro de si, ainda fez confissões, falou mais que devia e de menos no que podia para clamar perdão.
Como havia combinado chamou o seu protetor.
__Capataz, socorre-me!
Passava agora semanas e nada de aparecer, o juiz da comarca agora lhe impunha a sentença, condenando-o à morte, marcando assim a data da execução. E nada do dono das profundezas aparecer para lhe salvar.
O dia chegou, e lá foi o homem, sentindo-se traído pelo demônio, levado à praça onde a forca estava montada. O patíbulo aproximava-se e ele tremia e suava.
Quando estava ao canto esperando lerem a sua sina lhe apareceu o capataz vestido de verdugo e lhe disse:
__Toma esta bolsa e oferece ao juiz, sei que ele aceitará, diga-lhe que aqui tem dez mil contos de réis.
Assim fez o condenado, chamou o juiz e o magistrado desonesto e avarento escondeu a corda e foi à pequena cerca clamar ao povo:
__Cidadãos se acaba de acontecer um fato extraordinário, que pela primeira vez vi ocorrer, esquecemos de trazer a corda para enforcar o condenado, por isso a execução ficará suspensa, quem sabe não foi Deus que quis assim?! Para nos mostrar a inocência do réu?! Vamos estudar o caso de novo, mas tenho certeza que a justiça será feita, por Deus!
Os executores já estavam descendo as escadas com o condenado, quando o juiz resolver olhar a sua fortuna.
__Por Deus, terei dinheiro para viver como o Príncipe em Petrópolis.
Ao abrir a bolsa no lugar do dinheiro estava uma corda nova, voltou então para o povo:
__Cidadãos, acabou de aparecer uma corda, e foi Deus na sua fervorosa justiça quem a enviou para punir este homem que comete atrocidades, ele realmente é um bandido. Enforquem-no.
Passaram então o laço feito no pescoço do homem que desesperado pediu em grito:
__Capataz, e nosso acordo? Não cumpres com a palavra?
__Ah, eu cumpri sim, mas esqueceu e muito, começou a esquecer seus modos quando fui amigo e me ofereci a ajudar, na sua terceira prisão até mesmo lhe vim de frade para lhe colocar na mente uma mudança de vida e nada adiantou, também esqueceu você de ler o que assinou, na última clausula diz que o contrato será cobrado totalmente e dele não se poderá escapar quando estiver o contratante da amizade protetora com a corda no pescoço.
E é assim que sucedeu o fato que conta que muitas vezes o Diabo finge ser amigo querendo nos salvar, mas acaba sim é por trazer uma corda nova para nos enforcar e levar-nos para seu reino de fogo e lamentação.

Ditado sobre outra vida


Ditado sobre outra vida...

Poetha Abilio Machado.

Seu coração bateu forte, era uma angústia que apertava o corpo, estrangulava a alma, em seu sonho predileto encontrava ouro, ouro velho, aquele jogado aos braços do leito do rio da conceição sob a lua cheia de uma recente noite quente de qualquer dia que lhe parecesse setembro, como uma moda antiga dedilhada pelo cantador.
O aluvião desdobrou-se em frente ao vilarejo, perto do brejo, ele viu entre os sapos e coaxos sob a luz amarelada daquele verde distante tão longe do dourado que todo louco por ouro se perdeu.
A pequena corria pelo corredor, lhe tirou do sonho embriagador que lhe proporcionava as gotas do licor misturado com a cachaça, o paieiro a quase estar lhe queimando os dedos com a brasa viva de tanto calor que consumia o seu passado na fumaça azimosa do tabaco velho comprado por punhado ali mesmo na cidade na porta do seu Antonio Puppi, logo depois de ter servido uma volta de salsicha e refresco de framboesa naqueles copos listrados tipo americano, parecidos com os vidros de algumas casas que se via pela cidade.
Os cabelos esvoaçavam com o vento frio que entrava pela janela, via uma centelha de luz de algumas estrelas que vibravam entremeando as nuvens escuras que cobriam o sítio pequeno lá pros lados da Lagoa grande, passara à tarde e suas águas haviam sumido coisa que ninguém explica, um dia as águas vazam pela borda e noutro dia até os peixes somem, ficando os esqueletos dos galhos, algumas roupas presas de outras almas desavisadas que queriam acalmar o calor da pele na parada superfície do leito da serpente que dorme sob o sumidouro, que tem inclusive o rabo sob a igreja matriz causando de todo espanto, que dia acorda e tudo ruirá.
E a mulher resmungava ao canto, tem um vestido de chita, um lenço amarrado na cabeça cobrindo o meio semblante, enrola o paieiro, sua memória é além da porta e até da bica, é refém de um destino, o seu.
E como sempre se fazia assim aos finais de tarde resmungava reclamava de cada filho, de cada história, de cada espigão de milho quebrado, de cada maço de lenhas erguido às ancas, e dos filhos crescidos então?! Ficava perdida em seus devaneios em suas amargas frases de maldições, a gritar com as crianças, todas barrigudinhas...
Uma a uma passavam a correr pelo único espaço que tinha, da cozinha para os quartos, um corredor semi escuro, deformado pelas paredes de tábuas tortas retiradas dali mesmo do capão de mato que à cabana era quase apegado.
A tosse seca, o nariz escorrendo, os dedos gelados pelo frio desta primavera chuvosa, uma tal de monções misturada com um tal de el nino estavam causando seus horrores naturais sobre a terra, e bem dizia o pastor da igrejinha no final do campo da sede:
__É chegado o final dos tempos, abaixai suas cabeças e abri seus corações a ele e a mim e à sua igrejinha em restauração abri suas carteiras pois eis que como ele batemos à tua porta, daí como se désseis a ele e ele lhes dará em dobro...
O telefone não cessa, mais um cobrador que chama, mais um honorário que se vai, foram alguns pedaços do capão, depois os pedaços de terreno comprados por uma micharia pelos vizinhos que estavam melhores, depois foram os animais, logo depois os arreios, as cordas, as mulas, a filha...
Até ela parecia ter sido feita de troca, pois quando a família do noivo trouxe ele pra conhecer trouxe também um pouco de comida, uns meio saco de cada cisa que possuíam, até mesmo dois cestos de milhocolhido para que pdessem trocar no moinho por farinha, de biju e de fubá bem moído para sustentarem os pequenos com polenta e caldo de feijão.
Temos que mudar o destino dizia um dos filhos e muito cedo se meteu com us carrancudos que pela região passaram e logo, pouco tempo depois receberam um aviso que se quisessem vê-lo era só dar um pulinho na prisão da capital... Ou ele se muda a nós.
Arrependido pelo feitio do passado o velho homem passava a mão à testa que gotejava o suor da idade e da desistência, sua vida estava a um fio. Trancado no quarto pequeno, onde tinha uns livros sem capa, umas orações estranhas e uma cama pequena com colchão.
Uma burrada que só!
A mão
A arma na mão
A arma caindo da mão...
A mão agarrando o peito
A mão estranha não sentindo que o buraco era noutro lugar!
A mão morrendo em suspiro solitário
Longe das crianças, aquelas barrigudinhas que lhe corriam todo dia dizendo:
__Que trouxe hoje pai?!
Longe daqueles resmungos da mulher que de nada era tão santa, mas era boa de prosa e sabia carpi um feijão como ninguém, e prá tosá uns talos de taiá então? Etá muié, qu nas horas de faze amor era um vulcão que lhe sapecava tudo de tanta quentura que tinha, um fogo que fazia ele se entregá feito um bezerrão.
Nem ele assim o era... Um já adentrado na meia idade, um tanto desajeitado aos negócios de que tentava, e não era falta de tentá, já tinha sido de quase tudo nesta vida, só não foi douto diplomado por que pra isso era preciso estudá, mas do resto, daqueles trabaio de botá força e de sê pesado ele não fazia tipo nenhum de estranhá.
Santo deus vai ser o susto de quem o encontrar...
O corpo estendido
Uma poça de visgo avermelhado
A roupa quase nova toda suja...
Os papéis amontoados sobre a cama
A última muda de roupa dobradinha dentro da sacolinha da venda, daquele mardito que anotava tudo em dobro do que as crianças compravam só pra fazê ele mais pobre e o salafrário enriquece...
Pegou a arma do chão, ainda bem que a pequena passou correndo naquele momento,ele já havia até mesmo feito sua última oração pra numa tentativa encomendá o pouco que lhe restava de dignação...
Olhou para a porta agora escancarada e lá estava ela, parada, aquele avental encardido e olhou dentro de sua alma e sussurrou para que os pequenos não ouvissem:
__ Sevai fazê um serviço desses dá cabo di tudo nóis tamém, qui jeito mais face de sai da vida du qui lutá e mostrá presse mundão di deus qui na nossa famía só tem gente de brio, gente macho e muié di coração...
Ele levantou rapidamente e tomando a velha nos braços deixou-se ficar ali aconchegado sentindo que apesar de toda rabugice ela era sua fiel companheira, era seu escudo e seu cajado e ele tinha que dá um jeito de responde pra vida que se ela era malvada ele não ia se escodê... Guardou a papelada, desembrulhou a roupa dobrada e sorriu com os poucos dentes que lhe sobrara era hora de ir para ao lado do fogão e contá mais umas histórias para os filhos, talvez histórias como esta que acaba de lê, mas uma coisa vóis mecê não podia era comer da polenta com aquelas taiadas de queijo e salame feito pela própria mão!