domingo, 24 de abril de 2011

O povo calado...

O povo calado...


Por Abílio Machado (poetha).



Minha cidade é um pouco estranha no jeito de pensar e de agir, são capazes de exibir suas banalidades e não serem capazes de reagir a fatos dispostos à face como o que acontece nestes dias de dois mil e onze.

Minha cidade era a capital da louça e hoje nem mesmo temos certeza do que realmente somos, pois cada gestor que falha guia o rumo a um ponto novo e desgarra do ventre a matriz da terra que a fez conhecida e reconhecida como até mesmo citado em página de revistas famosas como neste último aniversário e que no mesmo instante serve de bi de piranha para que não se vejam o que nos acomete, uma disparidade de vertentes sem rumo ao certo apenas pontapés na bola, mas antevendo a quem pertence a mesma e assim corremos o risco de sempre no fim da partida o dono da bola levar a mesma consigo porque é findada a tarde e tem que se recolher.

Minha cidade é bela, mas adormecida no tradicionalismo de ainda quando se vai conversar com alguém a pouco lhe interessa quem a primeira pergunta sempre será:

__Mas me diga mesmo, filho de quem você é?

Isso vai acontecer no comércio, na indústria, na administração pública, é tão arraizada a conduta que se tornou quase que cultural, para algumas famílias nem mesmo importa os maus comportamentos e desajuizadas conjecturas o que importa que o filho esteja “em boa companhia” se leia corretamente “que tenha sobrenome conhecido”.

Ganhamos um terminal rodoviário dividido, onde qualquer ‘orelha seca’, para quem não conhece o termo é o peão de obra ou auxiliar de pedreiro, saberá dizer que as grades existentes nas escadas e passarelas dentro do terminal mostra que tudo era para ser integrado e que por motivos que não sabemos, nós população, os acessos foram separados no mesmo local.

Além claro de SOMOS a única cidade da região metropolitana a não ter nossos ônibus urbanos integrados ao da capital e cada inquirido no processo tem uma resposta diferente, a Empresa diz que a culpa é da URBS, esta que é da Prefeitura que não é ativa e a Prefeitura por sua vez diz que a culpa é da Empresa, de quem é a culpa?!

Um funcionário disse: ‘já que o povo não recrama os hómi faiz o qui qué.’

Ligou certo senhor, pelo que soube na prefeitura e citou à sua atendente o fato de esta ser a única cidade onde o ônibus não é integrado, a resposta foi bem informativa: ‘por que o senhor então não muda de cidade?!’

Eu mesmo acho que a culpa é do usuário que apenas se manifesta entre si, gosta de falar alto nas filas do ligeirinho, quando está atrazado e as pessoas ficam em vã agonia querendo viajarem sentadas e se postam às portas dos tubos não deixando quem quer entrar naquele ônibus lotado mesmo não tendo lugar nem para o passageiro se coçar daquela pulguinha escabrosa que resolveu ir trabalhar consigo.

Continuo achando que a população joga contra si mesma, é capaz de reclamar do um ou dois centavos que o supermercado não lhe devolve, mas é impotente em reclamar do aumento de 15% a mais na passagem do seu transporte urbano e no metropolitano o aumento de 25%, é lhe destinado ser incapaz de reclamar da má organização do transporte, da má distribuição dos pontos de ônibus e pelos comentários é capaz de não reclamar das mudanças de itinerários que a tal empresa está para recolocar dizendo ela que estará ajudando a população e até agora em todas as minhas viagens que faço todos os dias não vi nenhuma pessoa, pelo menos em sã consciência, elogiar tais mudanças.

E a grande pergunta que faço aos meus cidadãos campo-larguenses:

__Onde está o seu vereador que não se manifestou até agora?

Estaria ele mais interessado nos empréstimos de ônibus que a empresa lhes proporciona para que eles cumpram alguns pedidos que fazem como translados de passeios de igreja, atenderem passeios de escolas, levarem enlutados em escolta funerária, ou jogadores aos festivais de futebol?

Ou estaria este vereador defendendo seus correligionários que estão empregados em algum cargo de comissão e por isso deverão ficar submissos e omissos ao que acontece dentro de nossa cidade ao transporte como se calam a tanto tempo ao que acontece em nossa saúde e à nossa cultura e na falta de interesse à nossa arte...

Queria mesmo que não fosse nenhuma destas alternativas e que meus vereadores e que acredito são também meus amigos jogassem ao menos vez ou outra de acordo com sua consciência comunitária e não umbigalóide e verificassem que o salário deles e o cargo que tem não vieram desta ou daquela empresa e sim são ganhos deste mesmo povo que agora tem que viajar em péssimas condições, pagar um preço alto e ainda duplificado em translados pertencentes à mesma empresa. Até quando ficarmos calados?

Os ratos

Os ratos






Seres obscuros...

Aparecem bem vestidos

Belos casacos e gravatas, em alinho.

Andam furtivos entre o real

Surreal conivência à indecência

Ali nos remendos da rampa, o ninho

São desmedidos na própria lei

Afagos ambíguos entre o que é e a oposição

Apanham migalhas em favores

Avançam aos restos sociais

Que viram milhões em ações

Agora em ONGs arrecadantes de mais um tostão

Feras com rabos longos

Atingem a colônia submissa

Do interior ingênuo e oco

Como queijo antigo a banquetear

A ratoeira do poder

se vê à mostra em cartão postal

Tem dois dedos finos apontados para o céu

A clamar por mais tempo no planalto central

Nas suas tocas a infestação

Um prato aberto:

É para a coleta dos zeros das taxas,

Impostos absurdos,

Qual será a próxima corrupção?!

E o outro prato tombado

Na sua ânsia em acobertar

Os vorazes seres

Roedores implacáveis da nação.



video

O samba chorou no outro dia

Por Abílio Machado. 18042011.


Quando apontou a idade

Entremeio de rebelde e desapegado

O samba em caricatas donzelas

Adolescente desassossegado

Mandingueiro e sem maldade

Se fez presente num vestido quase curto

Nas pernas compridas de zagüeiro do time de fé

O pobre moço não sabia

Que sua aventura teria uma outra vista

Olho de quem viu seu corpo de menino sambar

Sob a sandália emprestada, prateada

Depois da passagem do seu bloco

Acordou da travessura no sufoco

Se viu só na sua tristeza de odalisca

Se viu tomando o resto da bebida

Sentado ali, meio fio, concreto frio.

O único sorriso que ganhou

Era homem e lhe estendeu a mão

Puxou-o para si e ofereceu um abraço

Carregou entre os devassos

Se fez escondido com ele no banco de um carro

Mais dois se apertaram

Não muito longe, a tapera abandonada

Ninguém ouviu ali, grito surdo

Abaé e eté gritou como louco

Na violência e luxúria

A curra foi não uma, foi pra mais de seis

Teve que antes na mistura sambar na mesinha

Pagar de cinta liga e calcinha

E depois implorar para morrer...

Torturado, estuprado

Ao lhe acharem ensangüentado

Havia uma lágrima ainda na face

A noite de outro dia chegava

Uma tarde a esmorecer...

A foto ficou linda no jornal

E sua figura de dor saiu estampada na última página

Na primeira saiu o bloco, passistas e mulatas

Quase peladas, ele não, no jornal...

Edição nacional...

Os todos os dias d’um motorista e d’um passageiro infeliz.

Os todos os dias d’um motorista e d’um passageiro infeliz.




Onde estaria a fiscalização da possível aventura?

Nos companheiros de prosa que teimam em palavrear o dia de ontem ou o dia que foi?

Os olhos do retrovisor às bundas que passam, olhos desatentos às linhas que passam sob os passos emborrachados, recapados e o papo que vai e que vem, mesmo que ali sobre o vidro-parabrisa tenha um adesivo onde a primeira frase é “ proibido conversar com o motorista”, mas dias de futebol é lástima, dias de sol com mini-saia então que sofrível, nem mesmo o quarto degrau que é o meio-fio é respeitado, param em meio à rua sem importar-se que a altura do último degrau vá derrubar, quebrar ou constranger.

E o céu se abriu, em gotas despencaram, brilhos umidecidos de uma vã infelicidade, seja qual for a capa de chuva é luva calçada, pois a cada comentário tudo é culpa da empresa, até eu mesmo por vezes acredito, agora dizem que param no meio da rua por que os motoristas ao tentarem encostar nos pontos de ônibus queimam os pneus e a empresa desaprova.

E lá vamos nós pobres passageiros, todos que se empurram num esbarra daqui e num empurra pra lá, são atrasos que vadiam e antecipações que enraivecem, agora me dizem outro dia palavras no fundo do busão anunciando uma ISO de qualidade, mas qualidade para quem? Diz-me, please: Quem?

Uma luz intacta do intelecto, seleto, galáctico ruiu de forma e deformado ponderou sobre o pó espanado em macropósito de vértices de um universo contido em uma assinatura que os cidadão comuns não foram ouvidos se o queriam, um trem chamado ‘monopólio’.

Ainda ouvi que teve uns gatos pingados que no primeiro dia, aquele da tal inauguração disfarçada, do tal e atual terminal dividido, aplaudiram o camarada, que é meu amigo, que agora faço a pergunta andará ele de ônibus alguma única vez?!

Que bela razão é o caminho das palavras que poxa! Me lembrei de outras palavras pronunciadas em campanha eleitoral, veja onde me fiz parar, pregaram o Béco e muito sobre o conjunto habitacional Partênope pela divisão das casas onde ele quis saciar mais famílias, lembro que falaram que ele cometera um ato indigno, que não prestou atenção à qualidade e só a votos eleitoreiros...

Mas o que dizer em alguém que inaugura primeiro um terminal meio ano antes só para que a placa mantenha alguns nomes e não passem pelo crivo da fiscalização e de alguém que permite que o terminal seja dividido ao mesmo proprietário para que se cobre duas vezes a mesma viagem? Não há como entender. Perderam-se em travessas palpitações, aqueles augustos vezeiros fluíram ao mar que tudo desanda e que nada... Nada.

Onde estão os oposicionistas que se riram no dia da reunião de vereadores, administração pública e empresa, quando alguém perguntou ao gerente da empresa se os ônibus seriam integrados e ele em sua inocência disse sim e o dono da empresa em mesmo instante inflamou a todos um sonoro: NÃO?! É meus amigos vereadores cadê vocês?

Olha que ano que chega é ano de voto qual será sua bandeira? Linguiçada ou Cesta básica outra vez? (atente povo que é só uma vez, nos outros 48 meses não tem).

Que bom seria não existisse o tal monopólio, nem este absurdo de contrato longo que pelo que dizem vai até que meus netos também paguem pela sua vez, caramba que círculo vicioso outra vez, que bom seria não ser assim... Assim a concorrência se auto forçaria: uma real qualidade melhorada, mais ônibus nas linhas e conforto aos que nele vêem, motoristas mais atenciosos, uma organização nas paradas mais ordeira e buscando eficiência não só à empresa mas daqueles que a provém, um preço justo e uma integração que já é tardia.

Artista da minha rua...

Artista da minha rua.






A imagem retida do universo

Reflexo, refluxo de enjôos

Em sombras astrais...

Os caracteres das cavernas

Os grafismos dos tempos

Magos pintores

Artistas seresteiros

A civilização atingido o novo milênio

Mudaria sua velha fórmula?!

Pensava...

Ou cabalmente se prostaria ao modelo antigo

Onde santo de casa não faz milagre

Só serve de escada...



É desta forma que se segue a estrutura da grande sociedade

Assinada na mais vã hipocrisia

Ceder a discursos vazios, uma maresia

Ao poder de uma minoria

A maioria que é o povo nem mesmo a metade

Na procura de suas perguntas, que maldade

Não haverá respostas,

Pois a bandeja com o bolo a ser cortado

Vai ser servida às suas costas...



Nas suas asas incontidas,

Amparadas para que não voes

No lembrete afiançado

Caso e fato

Sua arte é maltrapilha

Quando olhada pelo mesmo lado...



De ser o ser, simplesmente evoluir.

Ir...

Entre o macaco e o homem

Fico eu com a costela

É mais mágico e mais cheio de poder

É mais destino, mais força.

Mais afrontador.

Mas palavra!

Estou cansado de fazer arte

E minha terra me fazer isolado...

Como se o que eu faço não tivesse valor...

Aforismos de meus ais.

Cantiga amarga d'uma perícia

Cantiga amarga d’uma perícia...






A dor invadiu meu peito

Ao ver passos lentos

Cabelos alvos

Mãos trêmulas

A contar as cédulas sujas

Na sua miséria de ex-contribuinte

D’uma corrupta previdência social

Os calos não mais saem

Duros que teimam não cicatrizar

As noites ao relento

Nas grossas lentes

Em olhos vagos, cansados.

Viajei nos teus pensamentos

Enxuguei escondido a lágrima fugidia

Que anos são estes que tento tanto escapar?

A luz que machuca a alma

que me deixa ver na escuridão

Traz de volta alegria a meu desgastado coração

Doce ilusão

É não distinguir a tua vida da minha

Doce amor que não sei reconhecer

Nada sei neste mundo que não ter

Guarida, aquela só oferecida

Em salário milionário a um ex-governador

E este velho capengante

É negada a sobrevivência

Afinal a avaliação foi feita bem distinta

Uma oftalmologista escreveu irônica e atrevida

Na sua rabugice é ainda produtivo à labuta...

Dentro desta saudade

Ao te ver caído ao chão

Deixo a resposta na sarjeta

Enquanto carrego uma das alças

À morada do caixão...

Dilacerado o meu universo de esperança

Nesta amarga canção!

A criança e a vingança(cordel)

A criança e a vingança


(cordel da vingança)



Criança que sonha

Sem medo do futuro

Vive sonhos em seu presente

Sonha-se adulto

Pensa que já é homem valente



Esquece de ser criança...

Criança levada

Quer brincar de médico

E de sexo quer ser doutor



O desejo sempre alcança

Se vê adulto no calçado grande

Se vê crescido independente

Suspira a realidade

Que ainda é este seu sonho...

De menino pequeno e medonho



Clama a ingratidão

Exige alguma coisa que lhe é devida

Que será esta vida

Agora encolhido ali no chuveiro?



Baixinho chora só no banheiro

Depois da porta abrir-se de mansinho

Nas noites visitadas pelo padrasto

A dor que sente sozinho...



Queria tanto crescer

Queria ser, ter e possuir

E agora sente que falta algo

Esqueceu de ser aquela criança

Enquanto podia...

Agora o têm, possuem

E ele assim ainda tão pequenininho...

Olha a porta, tremia...



Na face de olhos agora duros

Ruge a vingança que virá

Cada visita anoitecida

Vai na mesma moeda pagar...



A cada rechaço que sofre

Alguém também levará

Seja na mira do revolver

Ou na ponta d’um punhal...



Não será mais criancinha

Vai arrumar um apelido melhor

Vai merecer o seu nome

Mais temido do lugar...



Fará o que lhe fizeram

As maldades e tudo o mais

Levará cada um pelas mãos abotoadas

Ao capeta encontrar...

Pedidos...

Pedidos...




De Abilio Machado, Poetha.





Pelos seus olhos há de se ver

Chora pelo que já foi

Sei...

Não pretende falar

Não me quer falar



Um coração partido

Minha partida

Sem despedida

Queria uma atenção merecida



Minha presença

Foi sem estar presente

Meus pensamentos

Por hora transformam-se em tormentos



Perdoe-me

Deseje-me



Sei tudo o que fiz

Sua solidão

Minha ilusão

As lágrimas na noite escura

Quando a esmo me procura

Com as mãos



Quem era...

Quem dera...



Diga-me se ainda me ama...

Este que não te mereceu

Diga-me que seu amor...

Ainda não esmoreceu



Ouça meu coração

Fala de saudade

Te chama com vontade

Como se estivesse em oração!

Minha consciência é negra!

Minha consciência é negra!




O negro forte de andar pesado

O corpo molhado de suor

O corpo teso pelo peso

A saca alçada sobre a cabeça

De onde ainda existem memórias

Um outro negro travestido de branco

Segura forte na mão um ‘rabo de tatu’

Trançado em couro de boi

Um alforje na outra

De sua garganta

A linguagem da tribo em ordens de trabalho

Trabalho acorrentado

Mas não suas lembranças

Terra mansa de ventos tropicais

A aldeia em festa

A família toda noite ao som de tambores

E os anciões a contar as histórias

Deuses, animais, caçadas e bravatas

Os cantos de heróis e guerras

Desde tempos ancestrais

E ali os passos medidos

Ao açoite do feitor

O olhar cerceia às mães que choram

Dos filhos arrancados de seus braços

E a nudez exposta sobre o tablado

A imagem é sombria... Assusta?!

A imagem é cruel...

Te faz voltar a face ao lado?!

Isso é para que ninguém jamais se esqueça

Para que ninguém jamais cometa

O crime de novo

Esse da escravidão

Por cada cicatriz do couro na pele

É que te imploro sobre o orgulho da raça

A esta força desta gente

Que minha consciência canta junto

Orubá, Egê, Nagô

Minha consciência de ser humano é parte

Da mesma fala

Da mesma lembrança

E da mesma dor!



Poetha Abilio Machado. 15112010.