domingo, 8 de maio de 2011

Um olhar no espelho...

Um olhar no espelho...




Menina de meus olhos, meus olhos se perdem em você.

Deixei-me levar olhando os pequenos volteios dos pássaros e seus pousos sobre os galhos fracos em piados agudos jogando conversa fiada, pelos ventos e cascatas. Esse som mergulhado em alegria e lamentos fazia-me pensar na morte, me via ali parado no palco, nu em meu corpo desajeitado, acima do peso e a platéia chegava assustada em ver-me assim tão... Pelado!

Andei pelo espaço tão vazio e sublimamente iluminado, as sombras dançavam à luz de velas, os passos eram vagarosos e trêmulos em seus não mais que os anos de uma outra vida, propunha outra vinda como a vinha embebida em sangue, seu sangue. Queria olhar aqueles que sentando o olhavam com curiosidade e malícia, parecia-lhe ouvir os sussurros sobre si, as comparações indolentes sobre as mesmas sementes, e em sobressalto falei em baixa voz sobre o que sua alma imperfeita sugeria, falou da espada em riste tinindo sobre a decisão da vida e morte e nem era Severina, as batalhas ensandecidas de uns loucos profanos, e, no entanto descreveu como seria o amor dos que se riam caídos sobre a própria carne, desenhou sobre a venda mesquinha dos bonés e das roupas extravagantes que nada te dizem e só te usam, assombrações do capitalismo que te fazem correr sem rumo na estrada do lixo, sem mesmo oferecer os braços à sua metade amada.

E se perguntam em lamúrias sob a música de tambor como um recital de tendas, acelerando suas batidas desmedidas, doce e sal, é o coração. Uma nuvem se arrisca a cruzar o azul celestial do céu daquele paraíso imortal. Deixando pegadas na pele, deixando marcas nas rebarbas da fé...

Fé, angustiante de não saber ser e nem entender. Queria ser esse ator aí sentado, com o peito aberto neste tempo em retalhos, pedacinhos miúdos de palavras fugazes trajadas de cores transparentes.

Deito-me aqui na varanda de teus cílios. No fundo eu morreria mais de uma vez para te ver novamente sorrir, mata-me, por favor, deste fardo que me acorrenta a tantos passados, e mesmo munido da espada da verdade, é uma condição só minha, pois é nua a crua, como o capim esverdeado do pasto que me ponho a comer, remoer, dormir e ser.

Eu, Ele, o espaço, a luz e a escuridão.

Ela, eu, o céu, as estrelas e a solidão.

Não queria morrer sem escrever a história, de falara da vida e da vitória que nunca consegui, queria o poder de fazer por mim as minhas regras, regaria meus minutos com doces palavras de ajuda, banharia minha estada com gotas de abraços desmanchados em beijos de pais.

O brilho no horizonte padeceu minha esperança ao apagar-se na manhã, não ouvi mais seus lamentos, não vi mais sua tez, nem mesmo descobri sua nudez e minha avidez.

Assim ao verter a mim mesmo ao espelho deixei-me navegar nos olhos, a menina ali me sorria e me divertia com trejeito e medos, esta menina que me leva a leva-me em seus dias, menina que vê por mim o que é belo e eu em desequilíbrio a lavo com água salgada, e sua cor tão pura se enfurece, avermelha-se e me ignora, evita me ver de novo, esse composto de meus olhos, furiosos efeitos de seres imperfeitos.

Minha menina dos olhos o que houve que ao tentar te encontrar frente do espelho e apenas consigo vê-la aí, sentada a olhar desconfiada de mim... Tão perto e tão longe como se a descortinar minha alma, eu estranho de mim, eu não digno de mim...

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