segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sacrifissosoçiar...








O casal andava meio apressado, José carregava um remelento moleque ao colo e Maria puxava uma menina de cabeleira desengonçada e vestidinho maltrapilho e na barriga levava seu mais próximo rebento...

Era quinta-feira, dia santo, véspera da sexta tão discutida e tão representada, e a família andava, da sua remota tapera até o posto de saúde mais próximo, a mulher reclamava...

___Zé, não guento mais nenhum passo, oia que já ta chegano. -dizia ela passando a mão no suor que escorria pela face sofrida e envelhecida, e olha que nem tinha passado dos trinta.

___Calma minha muié. Que já tamo chegano, é logo ali depois do forquiadão.

As crianças também reclamando da fome e do cansaço, por que tinham de morar tão longe, e não bem pertinho, como os primos que moravam na cidade grande, afinal Campo Largo era quase capital.

O posto foi avistado, até diminuíram os passos, agora era só mais alguns metros. Descobrindo que estava fechado, véspera de feriado cristão, com um cartaz escrito a pincel atômico azul em pedaço de embrulho da venda do seu Juvenal...

___E agora inté a venda ta fechada... Vamô tenta liga pelo orelhão...

___Ixi, pai num dá oia aqui oh. Todo esbagaçado o coitado. -disse a menininha segurando o fone arrebentado à mão.

___Vamô até a Dona Cidinha, quem sabe uma luiz bateu na veia e hoje ela ta incasa e assim ligamo e pedimo ajuda, num é?- disse o homem que andava já arcado pelo peso da vida que levava no corpo e na alma o moço da vida apanhado.

Acharam melhor cortar caminho pelo matão, mesmo correndo o risco de ser escorraçado por algum catetão endiabrado ou algum touro desgarrado. Ele vez ou outra parava para esperar a mulher que vinha entre seus gemidos... Ao passarem pelo pasto a chuva os alcança e rápidos entram na pequena estrebaria onde uma vaca magra e um boi minguado quase em seus últimos dias, estava sendo guardado para o Natal onde ficaria umas boas horas sobre uma fogueira para a família inteira lhe agradecer pelos anos de trabalho puxando o carro pesado de madeira ou a roda do moinho do farelo triturado de milho na troca pelo feijão.

A chuva crescia, os chuviscos iluminavam a encosta, a escuridão tomava conta da tarde...

___Muié ieu vô atrais de ajuda...

___Não meu veio não vá, fica cumigo qui mi dá força...

___Envio uma das cria intão?!

___Não! Ninhuma sai di perto di minhas asa, ninhuma ta intindendu?

___Vamô vê o qui fazemô intão? Arrumá um lugá e você discansa e num faiz força qui é pra esta criatura num vim já e isperá só mais uno poquetim... – tentava falar com voz suave e matreira o homem para que a mulher ficasse calma e não sentisse o medo que lhe tomava conta.

___ Ah, si num fosse você meu hómi. Já feiz tantu pur mim... Mi deu uma famía e eu gradeço sempre porela... Mas num to guentano, já vô pari... O pobre já nasce, vê se enrola ele naqueles pano qui eu truxe naquela sacola ali do mercadinho.

___ Crianças vão oia os animar ali inquantu seu irmâzinho se achega...

As crianças vão à beira do armado, chamado de paió... A chuva dava uma certa nostalgia na vida até mesmo daquelas duas crianças que agora sentiam um pouco daquela chegada entardecida...

A menina pensava e agora o que seria deles, mais um pra dividir a comida, mais um pra dividir as roupas, mais um que iria tomar a sua esteira até o pai fazer uma outra com imbira e costaneira...

O menino pensava o quanto seria bom ter mais um menino, lembrava que já estava na hora de ter alguém para dividir as tarefas da roça, de levá a marmita, a lima para afiar as ferramentas, ou ficar feito doido atrás das galinhas para que pelo menos a farinha tivesse um gosto diferente.

De vez em quando olhavam, a mãe agarrando o capim e a palha de milho, as suas caretas, o pai acocorado e gritando:

___Ah que vida de desgraçado! Um posto fechado e nem é feriado, somo um bando de excluído nesta vida desleixado...

___Não maldiga nossa vida meu amado querido.

___ Como não minha muié quase parindo? Olha que já vejo a cabeça toda cabeluda apontano, faz mais força que ele vem di veiz...

___Não maldiga pramode eles num intendi o qui fazem, eles num sabim qui dia vai vim qui terão de pagá essas conta... O nosso sinhor vai cobra deles i nóis temo qui agüenta... Ahhh, qui alivio deve ser que saiu tudo di mim... Nasceu num nasceu?

___É minha muié nasceu, mais algo está fora do jeito...

___Dá uns tapa pramode chorá...

___Mas veja só... Nem mesmo dianta espancá...Tão mirrado qui vê só...

A mãe olha o rebento, segura o choro qui vem e diz ao homem que assiste a tudo, que traga o pano que aquele menininho pequeno vai ficar bem quentinho quem sabe ele junte forças e dali um pouco consiga chorar... Enrolam com todo cuidado a pequenina criaturinha e ao seu lado é colocado para tentar si isquentar, os filhos agora vêm e querem ver o menino e o pai manda esperar... Ficam ali na frente a contar alguns causos,o pai tentando afugentar a fome dos maiores com um pão seco que estava na sacola e uma fogueira foi acesa par esquentar o torresmo guardado na banha, o café trazido na lata já preta que segundo a muié era a sua melhor panela... Vez em quando ele ia dava uma chacoalhada na mulher para ver como ela estava, dormia de um jeito engraçado o novinho com a boca agarrado no seio murchado.

Das primeiras vezes que ele mexeu ela deu umas resmungadas... Mas desta vez ela não se mexia e ele achou que estava assim por que estava cansada... Saiu pelo mato e voltou logo com uma galinha embaixo do braço ia fazer para a janta um caldo de galinha não muito gorda e depois daria outra para a Dona Cidinha por que aquilo tinha mais urgência.

Usou um grande espeto e pedaços das costaneiras que dividiam o recinto, as crianças dormiam encolhidas ao lado da mãe sobre o arrumado... Ele ficou velando a noite toda e nada, nem um pio da velha e nem do minguado... Os maiores comeram e caíram no sono cansados e ela que não acordava...

De manhã bem cedo acordaram em pavorosa era o Janim que vinha pra dá comida pros bichos, sabendo do caso saiu em correria de volta pra casa grande, ele voltou todo sorriso que a Dona Cidinha já tinha chamado um carro só ia demorar um pouco que a ambulância estava na vigília na Igreja com o Seu Chico...

___Mais Seu Chico disse qui assim qui acabá sua ora de rezação ele vem i leva voceis tudo pra cidade e pro hospitá... Vejo qui já si arranjaro cum cuzido sustancioso qui só.

Quando foi à tardinha conseguiram carregar a mulher e o nascido dentro da ambulância e mais hora e meia até a maternidade da cidade dali do lugar.

A enfermeira veio toda correndo, pois a novela das seis já ia começar e nenhum capitulo podia perder naquela semana, pois o personagem ia dar o primeiro beijo na mocinha, escondido do pai que é o senhorzinho manda-chuva da cidade como é o formato de todas as novelas do horário na Globo.

Deu uma olhada bem rápida, sem olhar o pai mandou que fosse preencher a papelada, olhou com nojo a mulher ensangüentada, pensou na hora na novela e no jaleco novo, manobrou a maca barulhenta da ambulância do interior lá para dentro, mexeu na mulher que nem gemido deu, alguém já tinha carregado a criança e já estava já lá na porta com uma cara de triste, daquelas caras de quem ainda não tinha comido...

___Vamos ter uns problemas e papelada pra preencher, a criança parida já foi com os anjos para os braços de Nosso Senhor.

___Ah, que hora maldita, foi isso acontecer bem na hora da minha novela preferida. Vamos levar esta e dar-lhe socorro, quem sabe ainda dá tempo de pegar nem que seja o final?!...

___Você tem de olhar bem pra ela, ela também há horas deve ter ido, acho que morreu antes mesmo de chegar...

___Tinha de morrer justo nesta hora?! Podia esperar para morrer no outro plantão e dar trabalho pras outras que vêm de um feriado e descansadas. Mas que vida é esta de pobre que só atrapalha, até no fim da vida só servem para nos dar trabalho!

Lá na recepção o jovem velho tremia para assinar com o dedo os papéis que lhe ofereciam, a moça lhe explicava enquanto lhe sujava o dedo de tinta , que uma folha era do parto coisa que ele não entendia, pois a sua mulher tinha parido nos meio dos bichos ainda no meio do mato. A outra folha era de internamento e a outra de liberação dos corpos, ‘e que diacho seria isso de liberação?’ ‘seria o que isso?’, ele se perguntava...

Pouco tempo depois o sino da Igreja badalavam as seis horas da morte de Jesus Cristo, a moça da recepção fez o sinal da cruz e ele e as crianças imitaram olhando lá para fora de mais um dia de Deus...

Em algum lugar alguns atores encenavam o sacrifício do homem que abalou uma sociedade no passado, e ali acontecia uma cena natural... Ao saber da morte da mulher e do filho José entendendo o porquê da tal liberação dos corpos, falou a Deus baixinho: ___ Seria a morte deies um sacrifísso tamém?!

___Meu senhor qual nome coloco na criança?

___ O nome di minha muié é Maria. Maria du sofrimento e cumo hoje é sexta-fera santa coloca o nome dele de Jesus...

___ Como? Isso é uma afronta... Uma afronta a tudo que é mais sagrado...

___ Nénão dona, Jesus num morreu pur sacrifisso di tudo o mundo?! Intão o meu fio é mais um sacrifisso sociar que representa o povo menos favorecido di nosso país, vai vê si os hómi qui tão na política as sua muier tiveram os fio no macadame, na luiz de lamparina de gordura e pariram no meio dos animar?! O meu fio dona é sim mais um sacrifisso sociar!

A moça recebeu a pancada, algo dentro dela se quebrou, o mesmo aconteceu na enfermeira que vinha correndo trazer as últimas notícias da novela, pois o moço havia declarado que tinha outra noiva na outra cidade onde tinha ido para estudar. Perdia-se agora na cena do jovem e já velho abraçando os filhos que restaram e os três ali choravam a perda da mãe, da esposa, do filho e do irmão.
Enquanto no noticiário informavam que mais um desvio de verba da saúde era descoberto no Congresso Nacional.

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