domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Tempo no Folclore Brasileiro


,
 "era uma vez", dizem as histórias infantis.
"Naquele tempo", falam as histórias populares.
Estas expressões, em sua indefinição, marcam um tempo que ainda não se realizou no sentido em que o percebemos. O tempo persegue os homens na vida e nas histórias. Mitologicamente (ver mitologia) iniciou-se com Cronos, o deus que tinha o papel do tempo: tanto devorava, quanto engendrava: destruía as próprias criações, estancava as fontes da vida, comendo os filhos e mutilando Urano, seu pai. Então, fez, ele mesmo, a vida, fecundando sua mãe Réia. Com Cronos, inicia-se o sentimento de "duração" que se inicia e se esgota, sempre entre a excitação e a satisfação.
A temporalidade foi percebida na primeira medida humana do tempo: a lua e suas mutações. Todo simbolismo noturno deriva deste pré-sentimento de tempo: medo da água corrente, da água cuja profundidade ameaça com abismos, medo do sangue - que mantém a vida ou escapa por feridas, deixando espaço à morte -, sangue que com seu fluxo periódico e constante faz da mulher o primeiro relógio ligado, no imaginário, à morte também mensal da lua.
Estes dramas manifestam a angústia humana que se sente parte ínfima de um todo imenso, pequena célula humana no ventre da natureza que o mito descreve como mulher e mãe. Mundo em que o acontecer temporal é aleatório. Mergulhado na "noite dos tempos" de que falam seus mitos, o homem ainda não aprendeu a mudança. Para o mundo, "os tempos" são apenas uma eternidade pluralizada, mas cíclica - ciclos que uma liturgia de repetição irá, seguidamente, recriar pois qualquer cosmologia não passa de uma repetição da criação do mundo.
Entre as tribos indígenas brasileiras, o tempo não é linear, como nos acostumamos a concebê-lo. Assim, enquanto um brasileiro fala, por exemplo, do "movimento militar de 1964", um índio da tribo apinayé - tronco de língua jê (ver Línguas indígenas das Américas), povo localizado no extremo norte de Goiás -, fala "do tempo em que meu filho era pequeno". A cosmologia das tribos latino-americanas vê o passado como estático, confundindo-o com o presente: dois momentos unificados mas distantes, dois espelhos colocados lado a lado. Assim, o tempo é vivido de maneira recorrente e cíclica. O etnólogo alemão Paul Ehrenreich (1855-1914) estudou mitos e lendas, inclusive os que envolvem a idéia de tempo, entre várias tribos brasileiras, relacionando-os com os encontrados em sociedades do nordeste asiático. Sua obra foi traduzida para o português (ver Língua portuguesa) pelo escritor Capistrano de Abreu.
Esta "recriação", renovadora e catártica, permanece presente no folclore, em todos os folguedos populares: recreação que é, também, recriação pois é da suspensão de tempo que nasce a fabulação.
É a partir desta quebra da rotina que se instala a festa ou a brincadeira. Suspender a rotina é permitir que o princípio da realidade, pelo qual o homem se pauta, ceda lugar ao princípio do prazer. Assim, a humanidade se instala no imaginário.
Uma vez suspensa a rotina, surge a possibilidade de desenvolver aquilo que não encontra espaço no real. O folclore se aproveita deste jogo inconsciente e arma suas representações. Bons exemplos deste mecanismo lúdico são o bumba-meu-boi, em que as figuras autoritárias da sociedade são criticadas. Ou os soldados de Herodes de uma Folia de reis que discursam: "despeço de minha farda / de todo o meu coração / porque ela a mim não pertence / e é da parte do Cão. ". Também o carnaval do Rio de Janeiro (ver Carnaval no Brasil) representa esta quebra da formalidade do tempo, pois, nele, a informalidade e a não-hieraquização desfazem, ritualmente, as segmentações de classe: os senhores se sentam e pagam para aplaudir o desfile dos que lhes são hierarquicamente subordinados ou, mesmo, misturam-se a eles, fazendo com que a igualdade se transforme em norma.
Nesta troca de papéis e caracterizações, a liberdade da fantasia popular não perde a consciência de que a brincadeira é, apenas, por curto período de tempo: "vestir a fantasia / de rei, ou de pirata ou jardineira / e tudo se acabar na quarta-feira". Este e outros desejos - a necessidade de fuga de uma realidade repressora, o desejo de uma outra vida, a vontade de ser reconhecido -, formam o pano de fundo do folguedo popular. Daí, apesar do termo "brincadeira", existe seriedade em sua representação: o brincante instala-se no irreal e produz algo que não se refere à realidade.
Isto não significa que aí não se externe uma outra realidade. Embora o que se passe em cena não seja "verdade", o mundo aí colocado é real para os personagens da cena. Aliás, este é o paradoxo do jogo teatral que "finge" ou "mente" para melhor dizer a verdade, que usa a máscara para revelar o rosto. O folguedo popular, portanto, situa-se no fingimento, no "faz-de-conta". Mas esta aparência tem tanta força que o ator/espectador entra no jogo. Naquele momento, desligado do tempo cronológico, surge a possibilidade de uma outra vida e de um novo recomeçar: no bumba-meu-boi, o boi morre mas vai ressuscitar. Na Nau catarineta, a nau se perde…mas vai se salvar. Nas cavalhadas, nos quilombos, nos congos, é feita uma afirmação de valor e, mesmo aquele que foi derrotado, na luta no ano seguinte voltará gritando : "Eu quero amostrá quem sou!". A cada lance, tudo recomeça - espera que também é típica do jogo teatral, onde se está sempre esperando Godot (ver Samuel Beckett).
No espaço e tempo desrealizados pela fantasia, tudo é possível. Neles podemos projetar todos os sonhos. Nas dramatizações espontâneas populares, o desejo é o diretor da cena. É preciso que o real opressor seja "desrealizado" para se dar um fato novo: a ordenação do tempo segundo o principio do prazer. É somente quando o "parecer" substitui o "ser" que o desejo pode ser representado: a vida dita "verdadeira" fica em suspenso nas mãos dos deuses que brincam com aquele que está brincando.
Daí, também, a ambivalência de sentido para os espectadores: esta brincadeira é uma aprendizagem da realidade, uma maneira possível de cada um organizar suas experiências. Pois situar-se é identificar-se. Possivelmente, este é o motivo de tantos folguedos populares basearem-se no desejo de um "mostrar quem sou", atitude que marca diferentes manifestações folclóricas, seja ela uma guerra entre reis, como no Ticumbi; entre negros e brancos, como no Quilombo; entre mouros e cristãos, como nas Cavahadas ou até com elementos da natureza, como na Chegança, nos Fandangos e Marujadas.
Estes folguedos tornam-se "re-animadores": brincando, ou recreando, recriam a alma do espectador. Portanto, tais brincadeiras, mais que gratificantes, são necessárias: o homem faz jogo porque se sente joguete, brinca por ser brinquedo em um mundo que não controla. E, para deixar de sê-lo, encarna-se em demônios ou em seres ameaçadores. Faz de suas festas, máscaras do tempo, tentando driblá-lo, sem jamais conseguí-lo.
Fonte:cosmo.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou do texto se foi doseu agrado e ofereça sugestões... Obrigado.