sábado, 25 de agosto de 2012

Imagens que desafiam os sentidos


Os estímulos que recebemos são reconstruídos ativamente pelo nosso sistema nervoso; em palestra em São Paulo o neurofisiologista Marcus Vinicius Baldo analisa ilusões visuais e fala sobre como o cérebro organiza a realidade
 
© Kochneva Tetyana/Shutterstock

Por que a Lua parece maior quando está próxima ao horizonte? Aristóteles (384-322 a.C.) e Ptolomeu (87-151 d.C.) consideravam que o satélite tinha suas proporções ampliadas por algum efeito misterioso da atmosfera. Outros estudiosos acreditavam que ele estaria mais próximo da Terra. Hoje, a maioria dos neurocientistas concorda que a discrepância de volume entre a Lua “baixa” e a elevada no céu existe apenas em nossa mente.


“A imagem projetada na retina, no zênite, tem sempre o mesmo tamanho”, esclarece o neurofisiologista Marcus Vinicius Baldo, professor do Departamento de Fisiologia e Biofísica da Universidade de São Paulo (USP), no artigo “Ilusões: o olho mágico da percepção” (Revista Brasileira de Psiquiatria, 2003). De fato, fotografias tiradas em diferentes momentos da aparente trajetória da Lua no céu não mostram alterações em sua proporção. Ou experimente simplesmente enganar sua mente, curvando-se e olhando o satélite entre suas pernas – ele aparentará ter sempre o mesmo volume. Por que isso acontece? Não se sabe ao certo. Uma das explicações é que nosso cérebro compensaria a distância do objeto observado atribuindo tamanho maior ao corpo mais distante. A “ilusão da lua” e outros efeitos visuais serão analisados por Baldo na palestra Ilusões: uma janela para a percepção, no auditório da Estação Ciência, em São Paulo, no dia 18 de junho.


Segundo o neurofisiologista, a mente cria representações do mundo, podendo “ver” um mesmo objeto (ou problema) de formas diferentes. Com a metáfora o “mito da caverna”, Platão (428-348 a.C.) teorizou sobre a submissão da realidade perceptiva aos nossos sentidos: homens confinados em uma gruta acreditavam que o mundo real eram sombras que viam projetadas na parede de pedra – essas, porém, não passavam de ilusões. Na verdade, o que podemos perceber, conhecer ou vivenciar depende não só da realidade com a qual lidamos, mas dos recursos de que dispomos para isso: órgãos sensoriais e sistema nervoso. A apreensão da realidade é sempre mediada. “Somos capazes de enxergar apenas uma estreita faixa do espectro eletromagnético, que chamamos de luz. Conseguimos ouvir vibrações mecânicas compreendidas em uma estreita faixa de frequências, que identificamos como som”, exemplifica Baldo.
De acordo com o médico e físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-1894), a percepção surge a partir de inferências que inconscientemente fazemos sobre o mundo à nossa volta. Elas são contrastadas com informações que o organismo colhe do ambiente. Toda vez que essas expectativas não são correspondidas, ajustamos nosso aparelho perceptivo, testando novas conjeturas. Ou seja, os estímulos que recebemos são reconstruídos ativamente pelo nosso sistema nervoso.


A aparência distorcida que um lápis adquire quando colocado dentro de um copo d’água e o fenômeno do arco-íris são exemplos de ilusões visuais. Artistas vêm jogando com a percepção – há séculos ilusionistas nos induzem a criar expectativas em nossa mente, que fazem nossa imaginação precipitar-se e completar ciclos de eventos sem se dar conta do momento em que foi ludibriada. “Da Vinci dizia que a perspectiva nada mais é do que ver algo através de uma vidraça transparente. O que enxergamos depende estritamente de nossas expectativas. Ver não seria simplesmente tentar adivinhar o que existe lá fora, atrás da camada de vidro?”, questiona Baldo. A palestra é gratuita, parte do ciclo Neurociência, arte e filosofia – Um sábado por mês, entre junho e novembro, um especialista falará ao público.

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