domingo, 19 de agosto de 2012

O marido no divã.


            Por Abilio Machado.

Ao divã ele está trêmulo, o suor surge em gotas pela testa, a camiseta baby loock coladinha marca a sua passagem pelos anos. Demora um pouco antes de meio gaguejante começar a falar:
__ Boa noite doutor. Como? Sim é minha primeira vez. Eu fico meio sem graça, na frente... De um homem... É estranho, minha primeira vez e me pede para tirar a roupa? Por quem me toma?
Eu venho ao seu consultório por que preciso de sua ajuda e o senhor me pede para ficar assim? Como? Desculpe, o senhor disse para ficar à vontade, aí eu pensei que o senhor estava...
Pois, quando estou em casa à vontade eu tiro a roupa, crio o bicho solto assim na boa, balançando daqui pra lá e de lá pra cá, o senhor não... Nunquinha?!
Eu já me adoro ver no espelho, fazer poses, correr sacolejando, fazer ginástica, ficar na rede da varanda... É nostálgico principalmente andar pela praia ao luar.
Sim doutor? Ah, meu problema? É bem, bom...
Tudo começou há muito tempo. Eu jamais, quero frisar jamais fui infiel à minha mulher. Mas, desde o início de nosso relacionamento que desenvolvi uma necessidade de pensar que estava com outra, outra mulher, ou em duas mulheres, em homens também, assumo.
Tudo se resumia a fantasia, e falando francamente era a única maneira de minha arma funcionar direitinho e a contento.
É doutor ficar de pezinho, fazer amor, sexo, senhor me entende?
No começo de tudo eu imaginava a sua melhor amiga, a irmã, até minha sogra já fiquei bolado. Artistas de filmes, Jane Fonda, Sofia Loren, Brigite Bardot, Kirk Douglas e seu furinho no queixo. A força crua de Charles Bronson em desejos de matar. Ou o outro Charles como Moisés e seu cajado à mão...    
Nas mulheres fechava os olhos e imaginava aqueles seios livres do photoshop e dos editores de imagem. Isso naquele tempo, sem os peitões caídos e sem o silicone imperador. Brigite era mais para os sábados e Úrsula Andrews era aos domingos. Ao dia a dia mesmo preferia as coelhinhas da playboy, com aquelas italianas, maravilhosas...
Ele e ela, quem não lembra?
E meu lado bissexual adorava os meninos de Rose, pequenina formatação, mas recheada de bons garotos sensuais. Hoje teríamos que nos contentar com a era silicone ou entidades escolhidas por um gordinho bonachão que usufruíram de um reality show ou deformações do botox, coitadas não dá para imaginar nem mais uma chupadela com uma boca travada desta maneira assim tipo beiço de peixe à procura de respiração.
Passei depois das atrizes às cantoras, as grandes vozes. Diana, Withnei. Wanderleia e as festas de arromba e Rita Lee na banheira de espuma, Elis e Clara Nunes e seus chocalhos ao tornozelo.
Em Chacrinha e sua buzina dos sábados à tarde e bacalhaus e abacaxis e a cara horrível do Russo, até a feiúra dele me ajudou.
Surgiram novas musas, Julia Roberts, até descobrir que as pernas lindas era outra linda mulher. Madonna, Michel Jackson e seus gritinhos e pegadas no saco. Passei um período pelo cinema nacional, Sônia Braga, Vera Fischer, até minha negra musa e baixinha Odelair Rodrigues.
Mas de repente o movimento nacional virou em pornochanchada. Tive de abandonar Oscarito e o Grande Otelo. Mas delirei com as cabeças de Carmem Miranda...
De repente nada mais adiantava... É. Pensava em todas as mulheres imagináveis, pensava em homens então, o machismo de Nelson Máximo, Agnaldo Rayol, Tarcísio Meira e o Coco do Francisco e nothing...
Lucélia Santos no tronco sendo surrada e recebida por Fidel.
Domingo no parque, Sílvio e seus Hahahais, qual é a música, as bolinhas dos sorteios e do seu flerte com o Lombardi, imaginava a todo instante o que rolava nos bastidores e suas intromissões.
Não funcionava doutor, o Viagra da época era catuaba, ovo de codorna e nó de cachorro e nada o fazia animar-se...     Quando conseguia levantar-se uma vez no mês era motivo de comemorar na churrascaria...
E um dia Ifigênia... Era a nossa empregada, não a fase de pobreza já havia passado, com catadores de papel, lavadeiras de roupas no rio, lavadoras de janelas e suas mini-saias e seios colados ao vidro do escritório.    
A moçoila estava usando o aspirador de pó doutor. O senhor não acredita o que este aspirador fez, ao pensar no cano, na sucção, fiquei ouriçado, ganhei carga nova e iniciou outra fase. A fase dos eletrodomésticos, o barulho e a dança da batedeira, o zunido do liquidificador, o friozinho da geladeira...
E nessa fase me acabou, pois acabei descobrindo as leguminosas e a grande feira: cenouras variadas, pepinos, nabos...
A melancia e sua carne rosada e macia para penetrar...
E os objetos, outra fase, canetas e lápis, bastões e cera, as réguas e suas batidinhas de leve nas nádegas. O pincel atômico foi à loucura, não o azul, nem tampouco o vermelho, o verde? Não credo, claro que não, até aí me brocharia...
Mas Roxo, mesmo na segunda divisão, era sabe? O roxo corinthiano.
Passei então às estátuas e grandes monumentos, a Estátua da Liberdade levantando sua saia e deixando-me ler o que escreve tanto naquele diário que sempre está à mão.
O Cristo Redentor com seus braços abertos para recebê-la e o pênis intumescido sob a túnica carioca, olhos arregalados e madeixas longas, dizendo à guardiã nova-iorquina: Welcome, pois eu como, como...
 Fases que funcionavam, doutor.
Tive a fase da ditadura militar, o desassossego do AI5, as perseguições pelo doi codi. As torturas, ficava-me imaginando eu e ela sendo torturados por aqueles homens brutos e cheios de rancor que se venderam por um poder de terror por seus abusos em seu primeiros anos. O exílio aos mais abastados e a morte aos que nada tinham a não ser um discurso solitário nas esquinas.
As falsas brigas de ARENA e PMDB.
A fase política, as diretas, Tancredo e Ulisses... Na fase Sarney só pensava nas mulheres com buço, Fred Mercury, Bee Gees, Raul Seixas e suas doideiras, Eduardo Duzeck e suas viagens, veio Legião com Renato cantando as meninas e os meninos, Os Barões vermelhos e Ursinho Blau blau...Cazuza e seus tresloucados ensaios e dizendo o que esse cara tem me consumido. Mas eu gozava...
Lula foi minha mais sofrida, confesso, afinal levou ele vinte anos para subir ao posto que queria em sua ereção plena, nem as rezas me ajudariam...
As brigas no Congresso, seus roubos, desvios e sacanagens com verbas e secretárias, amantes e jornalistas. Ouvindo às sete horas em Brasília ou os âncoras do Jornal Nacional.
Tive a fase sexual Ayrton Senna e rolava sempre sexinho nos horários das corridas, até o Rubinho por um tempo me animou com seu capacete verde amarelo. Depois veio o Massa preferido de Galvão. Agora Piquet, que pique, picce, pica...Nem sei.
Como doutor? Se tive a fase bang-bang? Tive sim Juliano Gema, Terence Hill. Pistoleiros e briguentos. Jesse James, Billie de Kid. Como também Ivanhoé, cavaleiros da Távola redonda, Rei Arthur, Merlim e as Brumas de Avalon. Também outras historietas e até gibis. Homem aranha e sua teia. Ménage a troi, eu, mulher maravilha e super homem e poderia ser eu com o Batmam e Robin... o Homem visível então...
Mas, a magia era com ursinho puff, sininho com seu pó mágico, Peter Pan e os meninos perdidos... Mas veio Wolverine e sua crueza animal, rrrrrrr... Arrepiava.
Em minha fase animal passeei por todos, os dinossauros, o Rex é que chamava a atenção. Brutamontes, com aqueles bracinhos curtos e tão gay somando a aquela mandíbula enorme.
Sim doutor o que o senhor imaginar eu fiz uso para poder alimentar minha vontade e assim saciar a fome de minha esposa, companheira e mulher. Me livrar da fase das histórias em quadrinhos foi a mais difícil.
Adorava o Sansão, sim o coelhinho da Mônica, tão fofinho, azulzinho...
Mas foi como o vento passou... Comecei a ter visões doutor, aí em meu desespero ataquei com tudo, lista telefônica, música de sala de espera de dentista. Apeguei-me com catálogo da Avon e Hermes...
E a visão doutor ficou mais forte, pensei em utensílios de um nove nove. E aquela imagem ganhava forma.
A imagem doutor era de uma mulher acima dos quarenta, os cabelos começando a aparecer o grisalho, os seus olhos verde esmeralda um tanto cansados, a pele mais flácida, um culote saliente, aqueles pneuzinhos sabe?
Os peitos caídos com o tempo iguais à jaca madura, carregando cheiro de cozinha, desgrenhada pelos cuidados aos filhos... Doutor é pensar nela e fico excitado, e não há dia para isso, pode ser até nas segundas-feira.     
Nas sextas, no cinema da madrugada, é em todas as horas doutor. É doutor ainda não passou, ainda continua. Como doutor? O senhor ainda pergunta quem é o vulto?
O meu problema que é ela doutor, a mulher das minhas fantasias é ela. Quem ela... Ela doutor minha mulher.
Eu tenho fantasias com minha própria mulher...
Me ajuda doutor? Como? Isso é que se chama casamento...
Se viver a mesma vida e o mesmo impulso? Tem cura doutor? Como?
Tenho de me aceitar? Aceitar? Devo aceitar que isso, que estou vivendo com minha própria mulher é um grande e longo caso de amor...
Isso é amor doutor? E eu que pensava que sentir tesão pela própria esposa era uma terrível doença...
E isso é amor!?!

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