sábado, 4 de agosto de 2012

Sem despedida a lágrima parou...



Por Abilio Machado



Sem despedida me pus hoje a regar as plantas todos os dias e converso com elas, ali existe uma espera. Por vezes removo a terra, afasto e arranco o mato e as pragas, tento proteger os pés de couve, repolho, alface e couve-flor, proteger me parece tão lúdico, tão distante, e aquele velho ditado Deus está com você, parece sem nota certa, sem harmonia conjugal.

Não sei se concordo com o tempo, mas para mim não me há grande diferença, minha falta é agora, e este agora me impulsiona a buscar algo que me preencha, há diferença entre o momento temporal, mas não em mim e isto está claro, a sua partida em viagem sem me dar o beijo de adeus me entristeceu tal maneira que meu grito está latente aqui dentro do peito e com uma vontade louca de berrar numa liberdade quase ensandecida.

Fico nestes ares de ser o certinho, um equilíbrio entre o triste e o alegre, tenho em minhas vestes a sobriedade dos valores que carrego ao bolso, espero a cada minuto a tua voz ao entreabrir a porta da sala, e nossos olhos se encantarem, meus amendoados caramelos e os teus verdes turmalinas, quantos minutos este relógio já cerceou?

Quantos caminhos percorreram ao mundo de desvalores meus reais pensamentos em estar aqui ainda à sua espera, olhando os cachorros preguiçosos deitados na calçada. Ah, quanta vida já se passou em si mesmo quase sobreposta a um ínfimo ser chamado eu?!

Quanto tempo, quantos caminhos perfilaram e só houve um momento de escolha, para o bem ou para o mau, só aquele instante que se desfez as verdades, o amar, o desejo, um segundo idiotizado que ruiu todo um processo quase espiritual de convivência especial e outros tantos momentos que surgiram e ressurgiram para que houvesse outras chances, mas sabe como é, não? Momentos que reaparecem, que se criam ou retomam frente a frente para testar a decisão ou para tentar mais uma vez oferecer a luz, reapresentações do mesmo sentido para aludir ao mecanismo de uma eternização do ‘continun vitae’, ou seja, o redemoinho afunilado que regem todas as vidas...

Por isso penso na chuva, quantas vezes ela vem para que o espírito se aquiete e comungue a vida com a vida?! Penso na geada que vem para dar um choque térmico aos brotos e mostrar-lhes a humildade e a força, a demonstrar os pequenos valores, e que dizer do sereno que umidece os pés descalços do velho que caminha com dificuldade pelos carreiros de relva em busca de seu destino?

Seja qual for cada um escolhe seu roteiro, cada um tem o seu lugar no espetáculo da vida, alguns servirão como protagonistas, outros se esforçaram para tentar mudá-las, outros simplesmente se calam e serão contra-regras para todo o sempre, mas estarão ativos, porém há outros que se contentarão em ficarem sentados à platéia a observarem os outros, pequenos ou grandes, viverem na sua magnitude de seres capazes de reação.

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