quarta-feira, 22 de agosto de 2012

SUMI-E, A PINTURA DO ESPAÇO VAZIO


A aquarela japonesa, originária da caligrafia chinesa, retrata o instantâneo da alma, em breves traços, usando o vazio em sua composição, pintando temas tradicionais como a orquídea selvagem, o bambu, a ameixeira e o crisântemo.
Por Nydia Bonetti
O sumi-ê é uma arte subjetiva, evolução do suiboku-ga, desenho derivado da caligrafia chinesa, que chegou ao Japão no século XIV, com forte influência zen-budista. Retrata o instante da alma num momento único, e não permite correção ou indecisão, para manter a pureza do sentimento revelado nos traços, que devem revelar a “pobreza pura” – a mais perfeita imperfeição.
“Sumi” significa tinta preta e “ê” significa pintura, desenho. Mais do que uma bela e incomparável forma de arte, é também uma filosofia.
A inteligência intelectual deve ser deixada de lado e o essencial se torna “a devoção interna” para que possa surgir o belo e o natural. O espaço em branco revela o que não foi expresso e com o que o pincel não traçou completa-se a perfeição. Se houver erro, o desenho está morto e a obra se perde.  Os traços devem revelar o “wabi” – pobreza pura que se basta a si mesma; e o espaço em branco, chamado “yohaku”, representa o que não foi expresso. A perfeição completa-se com o que o pincel não desenhou.
Os praticantes do sumi-ê pintam essencialmente o que chamam de “os 4 nobres”, revelando a ligação imensa desta arte com a natureza. São eles: A orquídea selvagem, o bambu, a ameixeira e o crisântemo, todos, com fortes simbologias e significados.
A orquídea selvagem representa o verão, espírito jovem e é símbolo da graça e virtudes femininas. Esta flor cresce no local mais inspirador de todos, onde a montanha encontra a água.


O bambu representa o inverno e significa a simplicidade da vida e a humildade. O tronco simboliza a força e as virtudes do sexo masculino. As subdivisões do tronco representam as etapas da vida. O centro oco remete ao vazio interior pregado no zen-budismo e por fim, a resistência do bambu representa a estabilidade e caráter inabalável.


A ameixeira é o símbolo da esperança e da tolerância. O tronco retorcido inspira dureza e ainda assim carrega consigo a promessa da primavera, que se confirma com o aparecimento dos primeiros delicados brotos em janeiro.




O crisântemo por antecipar o inverno desafiando o frio do outono. Representa a perseverança, a lealdade e a modéstia. Também simboliza a vida familiar devido ao seu formato circular. É a flor-símbolo da Casa Imperial.


São elementos básicos do sumi-ê: simplicidade, simbolização e naturalidade. A expressão livre surge através da cor da tinta negra e dos movimentos do pincel, refletindo o caráter e a personalidade do autor, sob a inspiração do momento.
A fragilidade do material utilizado é mesmo proposital. Se o pincel permanecer muito tempo sobre o papel, este é transposto e tudo se perde. A cor branca que fica de fundo é comparada ao Universo, onde nunca se vê um fundo definido, característica do vazio.
Há uma tendência atual de colocar cores em algumas partes da pintura, principalmente onde a cor demonstra o espírito do objeto, como por exemplo, nas pétalas de flores.
Hoje no Japão, sabemos que muitos executivos e pessoas de altos cargos praticam o Sumi-ê, como forma de relaxamento, busca de paz interior e também como forma de melhorarem a sua eficiência e a tomada de decisões, que necessitam ser cada vez mais rápidas.
Ao contrário do ocidente, que desenvolveu estilos de pintura baseados na realidade, com técnicas de sombras, cores, espaço etc., o oriente focou no significado, especialmente quando se trata do sumi-ê.
A expressão nessa pintura é ditada pela percepção do essencial. É sugestiva e insinuante, com traços breves e de poucos contornos a pintura convida a uma interação que liberta a imaginação e o sentimento. São os grandes espaços em branco na pintura Sumi-ê que dão vida ao desenho, assim como na arquitetura o espaço vazio criado entre as formas e o entorno, dá valor e significado a uma construção.
O Sumi-ê possui uma dicotomia interessante. Preto-e-branco, concreto e abstrato, água e terra, autocontrole e espontaneidade são manifestações presentes nessa arte, que, a partir do século XV, passa a retratar também pássaros, flores e paisagens. Alguns dos artistas mais importantes do Sumi-ê são desse período, destacando-se Sesshu, o primeiro a criar uma linguagem peculiarmente japonesa para o estilo.
O sumi-ê, portanto, carrega o espírito do artista. Todo traço é como um golpe de espada, único e cheio de vida, por esta razão, muitos samurais o praticaram. Muitos, no entanto o praticam como forma de exercitar a paciência, a humildade e a simplicidade.
Onde a montanha encontra a água nasce a flor. nos traços a mais perfeita imperfeição. No espaço em branco (no que não foi expresso) a perfeição. o vivo instante retratado num flash.
Fontes:
Bruno Kaneoya: http://www.nipocultura.com.br/?p=450
Sumi-ê – Um Caminho para o Zen (Jordan Augusto, 2002)
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente o que achou do texto se foi doseu agrado e ofereça sugestões... Obrigado.